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terça-feira, 11 de agosto de 2026

CAXIAS, MULHER DE FERIDAS E MEMÓRIAS

 Por Joseneyde Lua*

Caxias era uma mulher

quando a guerra chegou.


Tinha o rio nos cabelos,

a poeira nos pés

e os olhos acostumados

a procurar esperança

no horizonte do sertão.


Mas naquele tempo,

o horizonte trazia

homens armados.


Vinham do mato,

das estradas,

das fazendas,

da fome,

da revolta.


Vinham trazendo consigo

aquilo que os poderosos

não quiseram ouvir:


o grito dos esquecidos.


Caxias viu.


Viu o medo

fechar as portas.

Viu mães

esconderem os filhos.

Viu homens correrem

sem saber

se corriam da morte

ou em direção a ela.


Viu a pólvora

subir ao céu

e escurecer o dia.


E quando o primeiro tiro

rasgou o silêncio,

Caxias estremeceu.


Não era apenas

uma batalha.


Era o sertão

cobrando

uma dívida antiga.


Era a miséria

batendo às portas

do poder.


Era a história,

cansada de ser contada

somente

pela boca dos vencedores.


Caxias chorou.


Chorou pelos que tombaram

sem deixar retrato,

pelos que morreram

sem que seus nomes

chegassem aos livros,

pelos que foram chamados

de rebeldes

quando talvez fossem apenas

homens cansados

de perder.


Chorou porque toda guerra

tem seus mortos,


mas nem todo morto

tem quem conte

sua história.


E a cidade

guardou tudo.


Guardou o eco

dos cavalos.

O cheiro

da pólvora.

O medo

nas janelas.

A poeira

levantada pelas tropas.

O silêncio

depois do combate.


Guardou até aquilo

que ninguém quis guardar.


Os vencidos.

Os esquecidos.

Os que a História,

por muito tempo,

aprendeu a chamar

apenas pelo nome

da revolta.


Balaiada.


Como se uma palavra bastasse

para explicar

a fome,

a violência,

a desigualdade,

a esperança

e o desespero

de um povo.


Não bastava.

Nunca bastou.


Porque Caxias sabia.


Sabia que por trás

de cada homem armado

havia uma história.


Por trás de cada fuga,

havia uma família.


Por trás de cada corpo caído,

havia uma vida.


E por trás de cada silêncio,

havia alguém

tentando sobreviver.


O tempo passou.


As armas se calaram.

A poeira baixou.

Os mortos foram enterrados.


Mas a cidade

continuou de pé.


Mais velha.

Mais ferida.

Mais silenciosa.


E talvez ninguém perceba,

quando atravessa suas ruas,

que pisa sobre uma memória

que ainda pulsa.


Porque Caxias

não esqueceu.


Ela apenas aprendeu

a carregar suas dores

sem deixar de florescer.


Hoje, quando o vento

atravessa suas ruas

e o Itapecuru

segue seu caminho,

parece que a cidade escuta

as vozes daquele tempo.


E talvez diga, baixinho:


“Eu vi.”


Eu vi a guerra.

Eu vi a fome.

Eu vi os homens tombarem.

Eu vi o poder vencer.


Mas também vi

a coragem de quem não tinha nada

além da própria voz.


Por isso,

não me perguntem apenas

quem venceu a Balaiada.


Perguntem quem sofreu.

Perguntem quem foi esquecido.

Perguntem quem teve

sua história apagada.


Porque uma cidade

não é feita apenas

das pedras que permanecem.


É feita também

das lágrimas

que a terra bebeu.


E Caxias,

essa mulher antiga,

ainda carrega no peito

o rumor daquela guerra.


Não como orgulho

da violência.

Não como celebração

da morte.


Mas como memória.

Como cicatriz.

Como advertência.


Porque há guerras

que terminam

quando cessam os tiros.


E há outras

que continuam

enquanto houver

injustiça,

esquecimento

e silêncio.


Caxias viu a Balaiada.


E talvez seja por isso

que, até hoje,


quando a noite cai

sobre a cidade,

há uma parte do seu silêncio

que parece dizer:


“Não esqueçam.


Aqui, um dia,

a história sangrou.”

Joseneyde Lua, intelectual caxiense.

_________

*Joseneyde Castelo Branco Ferreira é professora, pesquisadora e ativista cultural, natural de Caxias. (Vide https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/08/goncalves-dias-203-anos-de-uma-voz-que.html)

O REGISTRO DE CASAMENTO DO POETA GONÇALVES DIAS.

 Por Creomildo Cavalhedo Leite*


Um mergulho no rio do tempo na grande efervescência da primeira quadra do Século XIX, na cidade de Aldeias Altas (Caxias Maranhão), dia 10 de agosto de 1823, na casa do Português João Manuel Gonçalves Dias e de Vicência Mendes Ferreira, nascia ANTÔNIO GONÇALVES DIAS, o nosso grande poeta.

Segue uma imagem da página 256 do livro de casamentos paroquiais e, posteriormente, a transcrição do documento original do registro de matrimônio ocorrido no Rio de Janeiro, em 26 de setembro de 1852.

Fonte: https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:939F-GKPC-C... Registros de casamentos paroquiais: Rio de Janeiro. Registros de casamento julho de 1835 - Fevereiro de 1853 - Imagem 295 de 298
Registro de Casamento Dr. Antônio Gonçalves Dias e Olimpia Cariolana da Costa.

"Aos 26 dias do mês de setembro de 1852, com Provisão competente e licença do Reverendo Vigário desta Matriz, na Igreja Parochial de Nossa Senhora, pelas cinco horas e meia da tarde, em presença do Reverendo da mesma. Marcos Cardoso de Paiva, e das Testemunhas Joaquim José Teixeira, João Duarte Lisboa Serra, se recebeu em Matrimônio por palavras de presente na forma do Sagrado Concilio Tridentino e Constituição do Bispado; o Doutor ANTÔNIO GONÇALVES DIAS, com Dona OLIMPIA CARIOLANA DA COSTA;
Elle filho de João Manuel Gonçalves Dias e de Vicência Mendes Ferreira, natural de Cachias da Província do Maranhão;
Ella Filha de Claudio Luiz da Costa, natural da Cidade da Bahia, como tudo constou da mencionada Provisão, e Certidão do dito Reverendo Marcos Cardoso de Paiva, e logo lhes deo as Bênçãos nupciais, na forma do Ritual Romano. Do que fiz este assento, e que assigno.
O Coadjuntor Francisco do Coração de Jesus (...) "

Creomildo Cavalhedo Leite
__________
*Pesquisador, cronista e genealogista. Natural de Santa Vitória, município de Barra do Corda-MA. Reside em Palmas-TO há mais de 35 anos, onde é funcionário público estadual.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

GONÇALVES DIAS: 203 ANOS DE UMA VOZ QUE NASCEU EM CAXIAS

Por Joseneyde Castelo Branco Ferreira*

Antônio Gonçalves Dias

Há nascimentos que pertencem a uma família. Outros pertencem a uma cidade. E há aqueles que, com o tempo, passam a pertencer a uma nação.

Há 203 anos, em 10 de agosto de 1823, nascia Antônio Gonçalves Dias.

Nascia em terras de Caxias, num Maranhão ainda atravessado pelas tensões da Independência. O Brasil já havia proclamado sua separação de Portugal, mas a ruptura não se fez de maneira uniforme. No Maranhão, a resistência à nova ordem prolongava os conflitos e colocava a região diante de um tempo de incertezas, disputas e enfrentamentos.

Foi nesse mundo em transformação que nasceu o filho de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português, e de Vicência Ferreira, mulher maranhense mestiça. Sua origem já carregava, portanto, algumas das contradições que atravessavam o próprio Brasil oitocentista: o português e o mestiço, a Europa e o Maranhão, a tradição colonial e uma nação que começava a se inventar.

Depois, a vida o levaria para longe.

Seu pai casou-se com Adelaide Ramos de Almeida, sua madrasta, que teria papel importante em sua formação e em sua partida para Portugal. Gonçalves Dias atravessaria o Atlântico, estudaria em Coimbra e entraria em contato com as correntes intelectuais e literárias que movimentavam a Europa. Mas, curiosamente, seria a distância de sua terra que ajudaria a fazer nascer uma das imagens mais poderosas do Brasil.

Longe do Maranhão, escreveu a “Canção do Exílio”.

E talvez esteja aí uma das grandes ironias da literatura: foi preciso afastar-se para que o poeta pudesse transformar a terra natal em palavra.

O Brasil de Gonçalves Dias não aparece apenas como território. Ele aparece como lembrança, natureza, saudade, identidade. E aparece também pela presença indígena, que ocupa lugar fundamental em sua obra, sobretudo em “I-Juca-Pirama” e nos fragmentos de “Os Timbiras”.

Mas é preciso olhar para Gonçalves Dias para além das páginas que decoramos na escola.

Ele foi um homem do século XIX tentando compreender o Brasil que nascia diante de seus olhos. Sua poesia participou da construção de uma ideia de nacionalidade. Sua escrita procurou dar forma literária a uma terra que ainda buscava reconhecer a própria face.

E talvez seja justamente por isso que Caxias não possa tratar Gonçalves Dias apenas como um nome de praça, de escola, de rua ou de monumento.

Ele é uma pergunta que a cidade continua fazendo a si mesma:
o que significa ter nascido aqui um poeta que ajudou o Brasil a dizer quem era?

Caxias foi o ponto de partida.

A poesia foi o caminho.

E a palavra fez o restante.

Hoje, quando se completam 203 anos de seu nascimento, não celebramos apenas a memória de um poeta caxiense. Celebramos a permanência de uma voz que atravessou o tempo porque conseguiu transformar a experiência particular de sua terra em uma linguagem capaz de alcançar o país inteiro.

Gonçalves Dias nasceu em Caxias, mas sua poesia não ficou em Caxias.

Saiu daqui.

Atravessou o Atlântico.

Voltou ao Brasil.

E continua atravessando gerações. 

Joseneyde Castelo Branco Ferreira
__________
*Joseneyde Castelo Branco Ferreira é professora, pesquisadora e ativista cultural, natural de Caxias. Licenciada em História pela Universidade Estadual do Maranhão e especialista em História do Brasil, atua na educação pública desde 2011.

É membro da Academia Caxiense de Letras, ocupando a cadeira nº 12, cujo patrono é Clóvis Beviláqua Vidigal. Integra a ASLEAMA desde 2012, tendo como patrono o historiador César Marques, e atualmente exerce o cargo de vice-presidente.

Preside o Instituto Poeta Carvalho Júnior e coordena o Sarau “Na Pele da Palavra”. Sua trajetória é marcada pelo compromisso com a valorização da cultura, da literatura e da memória histórica caxiense.

GONÇALVES DIAS — 203 ANOS DE POESIA, MEMÓRIA E IDENTIDADE MARANHENSE

Antônio Gonçalves Dias

GONÇALVES DIAS — 203 ANOS DE POESIA, MEMÓRIA E IDENTIDADE MARANHENSE

10 de agosto de 1823 — 10 de agosto de 2026

A Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes – ATLEA rende homenagem, neste dia 10 de agosto, aos 203 anos de nascimento de Antônio Gonçalves Dias, um dos maiores nomes da literatura brasileira e uma das mais luminosas expressões da cultura maranhense.

Nascido em Caxias, no Maranhão, em 10 de agosto de 1823, Gonçalves Dias construiu uma obra que ultrapassou os limites de seu tempo. Poeta, dramaturgo, jornalista, professor e pesquisador, tornou-se uma figura fundamental do Romantismo brasileiro, contribuindo para a afirmação de uma literatura comprometida com a construção da identidade nacional.

Sua poesia encontra na pátria, na natureza, no indígena, no amor, na saudade e na memória alguns de seus temas essenciais. Em versos de extraordinária força e musicalidade, Gonçalves Dias transformou experiências individuais e elementos da paisagem brasileira em símbolos permanentes de nossa cultura. Poemas como “Canção do Exílio”, “I-Juca-Pirama” e “Os Timbiras” permanecem entre as obras mais significativas da literatura nacional.

A presença do Maranhão em sua trajetória é particularmente significativa. Em sua obra, a terra natal não é apenas cenário: é memória, sentimento, pertencimento e identidade. Por isso, Gonçalves Dias ocupa lugar especial na história cultural maranhense e brasileira.

Sua existência foi breve. Em 3 de novembro de 1864, aos 41 anos, morreu no naufrágio do navio Ville de Boulogne, quando retornava ao Brasil. Sua vida terminou precocemente, mas sua palavra permaneceu. E permanece porque a verdadeira literatura não se encerra com a vida de seu autor: ela atravessa o tempo e continua a formar gerações.

Ao celebrar os 203 anos de nascimento de Gonçalves Dias, a ATLEA reafirma seu compromisso com a preservação da memória, a valorização da literatura e a promoção da cultura maranhense. O Poeta é patrono da cadeira 02 do sodalício, que é ocupada pelo professor de História e pesquisador Jean Carlos Gonçalves, que ora ocupa a vice-presidência da instituição.

Gonçalves Dias vive na força de seus versos, na memória de sua terra e na permanência de sua obra.

Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes – ATLEA.
Pela memória, pela literatura, pela educação e pela cultura.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

II FÓRUM DE MEIO AMBIENTE - TUNTUM 2026

Por Amilson Dilacernda*

O Fórum do Meio Ambiente de Tuntum é um importante espaço de diálogo, participação e construção coletiva em torno das questões ambientais do nosso município.

Mais do que um momento de debate, o Fórum possibilita a construção de pautas, a apresentação de sugestões e a troca de experiências entre poder público, instituições e sociedade civil, fortalecendo o compromisso de todos com a preservação dos nossos recursos naturais e com um futuro mais sustentável.

É um momento para ouvir, discutir ideias e pensar juntos em ações que possam contribuir para o desenvolvimento de Tuntum com responsabilidade ambiental, transformando propostas em caminhos para uma cidade cada vez mais consciente e sustentável.

Neste ano, o Fórum do Meio Ambiente acontecerá no dia 12 de agosto, a partir das 8h, no CT Tênis de Mesa.

Participe! Sua presença e suas ideias são fundamentais para construirmos juntos as pautas ambientais do presente e do futuro de Tuntum.

As vagas para a participação do evento "Meio Ambiente e Futuro: escolhas que transformam", são limitadas. Portanto, inscreva-se através do link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfJ8v777bOLezdKYdAI_FzZQb_ZIi07_tW1gWGQIfaXertOnw/viewform?utm_source=ig&utm_medium=social&utm_content=link_in_bio .

Secretário Amilson Dilacerda em palestra no Centro Educa Mais Isaac Martins em Tuntum-MA.

____________
*Amilson Pereira de Lacerda - é professor com Licenciatura Plena em Letras, e atualmente diretor de Comunicação da Academia Tuntunense de Letras, Educação e Artes-ATLEA. Também está Secretário Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Tuntum-MA.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

ASTOLFO SEABRA DE CARVALHO E O RETRATO DAS CARÊNCIAS DE TUNTUM EM 1960

 Por Jean Carlos Gonçalves

Astolfo Seabra de Carvalho, primeiro presidente da Câmara Municipal de Tuntum-MA. Eleito em 1958.

"CÂMARA MUNICIPAL DE TUNTUM

ESTADO DO MARANHÃO

MENSAGEM 

Câmara municipal de Tuntum, do Maranhão, na pessoa de seu presidente, abaixo assinado, tem a súbita honra de registrar a passagem do jorna lista José Linhares, pelo Distrito de Santa Filomena, dêste Município. É a primeira vez que Santa Filoimena tem a satisfação de hospedar um profissional de imprensa e o faz na pessoa dêste arrojado municipalista, jóvcm incansável pelo ideal progressista e renovador, que faz dos municípios brasileiros o seu próprio lar.

José Linhares, dinâmico diretor ele o jornal "O Governo", "Jornal que divulga o que sabe, porque sabe o que divulga", ora percorre os municípios maranhenses e, como um bom médico a esculta detalhadamente o seu cliente - no caso, as autoridades municipais e o seu povo em geral, se informando de suas necessidades, servindo, ao mesmo tempo de nossos· intérpretes, junto aos poderes Federal e Estadual, através das colunas elo seu vibrante jornal.

Com sua permanência entre nós, pôde constatar o nosso sofrimento ante a necessidade reinante em nosso município, de várias realizações, o que me leva, aproveitando a oportunidade que me é dada, através das coluna de "0 Govêrno" apelar, em meu nome e de meus pares ao governos Federal e Estadual no sentido de ser criada no município uma agência postal telegráfica, pequeno ramais piçarrados que ligue os povoados e distritos à Estrada de São Luís a Brasília; um pôsto-médico para prestar assistência à população do município que vive ao desamparo; criar uma verba para construções de pequenos açudes nas zonas mais necessárias bem como os povoados de S . Pedro, Marajá, Maribondo e Rosendo, além de auxílio para a conclusão elo açude de Santa Filomena, que já está com sua construção bem avançada. Também há necessidade da criação de Grupos Rurais nos povoados importantes como Nazaré, Belém, S. Miguel, S. Lourenço, Veneza e S. Bento.

Na certeza de que o bravo jornalista diretor de "0 Govêrno" transmitirá o apêlo ora feito, aproveito a oportunidade para, em meu nome e no ele meus pares, desejar-lhe o mais completo êxito na sua cruzada, municipalista.

Santa Filomena, Distrito do Município de Tuntum, 11 de janeiro de 1960 .

ASTOLFO SEABRA DE CARVALHO

Presidente da Câmara Municipal de Tuntum."

(Jornal O GOVERNO, publicação de 04 de julho de 1960, p 10. Entrevista concedida em 11 de janeiro do mesmo ano)


Uma breve análise do documento histórico

O documento, datado de 11 de janeiro de 1960, constitui uma importante fonte histórica para compreender a realidade socioeconômica e política do município de Tuntum no início da década de 1960. Redigido pelo presidente da Câmara Municipal, Astolfo Seabra de Carvalho, o texto revela as principais carências enfrentadas pela população local e a forma como os líderes municipais buscavam apoio dos governos estadual e federal para promover o desenvolvimento da região.

A mensagem foi escrita por ocasião da visita do jornalista José Linhares ao distrito de Santa Filomena. O tom elogioso empregado pelo presidente da Câmara demonstra a importância atribuída à imprensa como meio de dar visibilidade aos problemas dos municípios do interior.

O jornalista é apresentado como um "municipalista", isto é, alguém comprometido com a defesa dos interesses dos municípios brasileiros. Sua atuação é comparada à de um médico que examina cuidadosamente seus pacientes, ouvindo autoridades e moradores para identificar suas necessidades. Essa metáfora evidencia a expectativa de que a imprensa pudesse servir de ponte entre as comunidades interioranas e os centros de decisão política.

O documento oferece um diagnóstico bastante claro das dificuldades enfrentadas pelo município. Entre as reivindicações apresentadas destacam-se:

 

Instalação de uma agência postal e telegráfica;

Construção de estradas piçarradas ligando povoados e distritos à rodovia São Luís–Brasília;

Criação de um posto médico;

Construção de pequenos açudes para abastecimento de água;

Conclusão do açude de Santa Filomena;

Implantação de escolas rurais (Grupos Rurais) em diversos povoados.

 

Essas solicitações revelam um município ainda marcado por grandes limitações em infraestrutura, comunicação, saúde, educação e abastecimento hídrico. O texto demonstra que muitos serviços considerados básicos atualmente ainda eram escassos ou inexistentes em grande parte do território tuntuense.

A insistência na construção de açudes indica que o acesso à água era uma preocupação central da população. O Maranhão central, especialmente em áreas sujeitas a períodos de estiagem, dependia dessas obras para garantir o abastecimento humano e a produção agropecuária.

A referência ao açude de Santa Filomena, já em fase avançada de construção, sugere que a comunidade via nessa obra uma esperança concreta de melhoria das condições de vida locais.

Outro aspecto relevante é a solicitação de Grupos Rurais em povoados importantes do município. A demanda demonstra a expansão populacional dessas localidades e a crescente necessidade de escolarização das crianças.

A educação aparece como elemento fundamental para o progresso social, revelando que as lideranças locais compreendiam a escola como instrumento de desenvolvimento e integração das comunidades rurais.

O documento também evidencia a forte dependência financeira e administrativa dos municípios brasileiros em relação aos governos estadual e federal. A Câmara Municipal não apresenta soluções próprias para os problemas apontados, mas dirige um apelo às esferas superiores de governo.

Isso reflete a limitada capacidade de investimento dos municípios do interior na época, que dependiam de recursos externos para realizar obras e implantar serviços públicos.

 

Diante do exposto podemos concluir que a mensagem da Câmara Municipal de Tuntum, assinada pelo então presidente Astolfo Seabra de Carvalho, constitui um valioso testemunho histórico sobre as condições do município em 1960. O texto revela uma sociedade em processo de desenvolvimento, marcada por carências estruturais, mas também por expectativas de progresso. Ao registrar as demandas por estradas, saúde, educação, comunicação e abastecimento de água, o documento permite compreender os desafios enfrentados pelas comunidades rurais tuntuenses e o papel desempenhado pela imprensa e pelas lideranças locais na busca por melhorias. Mais do que um simples pedido de auxílio, a mensagem representa um retrato das prioridades e aspirações do jovem município de Tuntum em um período de transformação e modernização do interior brasileiro, especialmente, com a Construção de Brasília.

 Até breve!!!


sexta-feira, 19 de junho de 2026

O Alicerce Intelectual: O Magistério que Construiu Tuntum

 Por Remy da Mata*


    Tuntum consolidou-se e se destaca como um polo econômico de destaque entre os 217 municípios do Maranhão. Hoje, ao observarmos a pujança do nosso agronegócio, a força da pecuária e a moderna infraestrutura do nosso comércio varejista — que nos coloca como referência regional logo após Presidente Dutra — é natural admirarmos o presente. Contudo, para compreender a verdadeira alma dessa evolução, é imperativo olhar além dos indicadores econômicos e retroceder ao alicerce invisível sobre o qual nossa cidade foi erguida: o magistério feminino.

    Se hoje colhemos o sucesso no coração do Maranhão, é porque houve, nas décadas de 50, 60 e 70, uma sementeira de dedicação. Em tempos em que os recursos educacionais eram escassos ou inexistentes, nossas professoras não apenas alfabetizavam; elas institucionalizaram o saber e moldaram o caráter de uma geração.

As Pioneiras da Educação
Professora Terezinha Almeida
    Nomes como Terezinha Almeida, Raimunda Granjeiro, Nazaré Gregório, Ditinha Saraiva, Mariinha Torres, Teresa Moraes, Dona Dulce, Maria Ducarmo, Norma, Olinda Ribeiro Galvão, Filomena Arruda, Albaniza, Francisca Ferreira, Maria Branca, Marina Dó, Zélia Moreira, Inez Jacinto, Francisca Bezerra, Maria Oneide, compõem o panteão de gigantes que transformaram a precariedade de salas improvisadas em um templo de conhecimento. A elas, junta-se o notável Professor Bonfim, caprichoso cultor da nossa língua portuguesa, cuja didática deixou marcas profundas.
Prédio da Escola Reunida Isaac Martins, 1959.
Fonte: IBGE.
    A partir de 1969, essa força docente se fortaleceu com a chegada de novas educadoras — como Belinha Carvalho, Maria da Luz, Zélia, Izabel Andrade, Aparecida Teixeira, Marina Batista, Pedrina Brito e Linocy Cunha — e com o trabalho missionário e pedagógico das Freiras Franciscanas: Irmãs Nazaria, Loreto, Gualberta e Inês. Somadas às professoras(o) Almir Lacerda, Mazinha Ferreira, Libania Cunha, Salete Seabra, Brauniene Medeiros, Lourival Tavares e Albertina, que abraçaram o ofício, essas mulheres formaram a primeira "infraestrutura" de Tuntum.

O Legado de Permanência
    Enquanto a infraestrutura física constrói o presente, a educação constrói a permanência. Ao lecionarem, elas incutiram em seus alunos não apenas a escrita e a leitura, mas valores de civismo, ética do trabalho e a audácia de sonhar com um futuro melhor. Elas alteraram a mentalidade de toda uma comunidade, pavimentando o caminho para o protagonismo que Tuntum exerce hoje.

    Para quem, como eu, dedica-se ao estudo e à valorização das personalidades que edificaram nossa terra, fica uma lição clara: o sucesso de Tuntum é fruto do capital intelectual semeado por essas pioneiras. A história de Tuntum é feita de mãos fortes e visões audazes, frequentemente femininas, que entenderam que nenhum desenvolvimento é sustentável sem o lastro do conhecimento.

Um Apelo à Memória
    Tuntum é uma cidade que madruga, eficiente, afetiva e transparente. Que os nossos gestores e legisladores não esqueçam de olhar para o passado para melhor projetar o futuro. Cada esquina de nossa cidade guarda uma história, e cada história é um pedaço do nosso coração.

      Homenagear Terezinha Almeida, Raimunda Granjeiro, Professor Bonfim e todos os seus contemporâneos não é apenas um ato de gratidão; é um exercício de reconhecimento da nossa própria força, valorização dos atuais professores é de salutar importância.

    Que o legado dessas gigantes do passado, com o giz na mão, a lousa repleta de ensinamentos, com os olhos no horizonte, visualizando o nosso futuro, continue a ser a nossa maior bússola.
Remy da Mata

__________
*José Remy Alves e Silva, o Remy da Mata, natural de Tuntum e filho da união das tradicionais famílias da Mata e Benvinda. É escritor de Alto Solimões - Crônicas I e II, Miscelâneas, Inspiração e Crônicas Maçônicas. Atualmente, está aposentado como Superintendente da Infraero no Amazonas, estado que reside atualmente.