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terça-feira, 22 de setembro de 2026

ESTADO E ESCRAVIDÃO NO SERTÃO MARANHENSE EM 1856

 Por Jean Carlos Gonçalves.

Fonte: O Publicador Maranhense,
31 de dezembro de 1856, nº 298

"THESOURARIA DA FAZENDA 

Dia 16 de dezembro de 1856

Ao coletor da cidade de Caxias. Participando que segue para aquella cidade em uma das canoas do negociante José Pedro dos Santos, a mulata Saturnina escrava da fazenda nacional de S. Bernardo, situada na Comarca da Chapada; e ordenando que, logo que lhe seja apresentada a mesma escrava, a faça seguir, com as devidas cautelas, para a dita fasenda, na primeira viagem que houver pelo rio Alpercatas; bem assim que dependa a quantia necessária com a sua passagem e comendorias."

  Esse pequeno documento administrativo, datado de 16 de dezembro de 1856, é bastante revelador sobre a organização social, econômica e territorial do centro-sul do Maranhão durante o período imperial. Embora breve, ele permite diversas interpretações históricas. Vamos "dissecar" o texto? Para iniciar vejamos a transcrição atualizada do conteúdo:

Ao coletor da cidade de Caxias, participando que segue para aquela cidade, em uma das canoas do negociante José Pedro dos Santos, a mulata Saturnina, escrava da Fazenda Nacional de São Bernardo, situada na Comarca da Chapada; e ordenando que, logo que lhe seja apresentada a mesma escrava, a faça seguir, com as devidas cautelas, para a dita fazenda, na primeira viagem que houver pelo rio Alpercatas; bem assim que despenda a quantia necessária com a sua passagem e comedoria.
  Agora vejamos alguns pontos para uma análise interpretativa minuciosa do fragmento acima:

1. A presença da escravidão estatal
    O primeiro aspecto que chama atenção é que Saturnina não era propriedade de um senhor particular, mas sim da Fazenda Nacional de São Bernardo. Isso demonstra que o próprio Estado Imperial possuía escravos, empregados em fazendas públicas destinadas à produção agropecuária ou à manutenção de estabelecimentos governamentais.

 A expressão "escrava da Fazenda Nacional" evidencia que a escravidão não era apenas uma instituição privada, mas também integrava a estrutura administrativa do Império. O governo administrava pessoas escravizadas como patrimônio público, movimentando-as conforme suas necessidades.

2. A despersonalização do indivíduo escravizado
          Em todo o documento, Saturnina aparece apenas como um bem sob custódia administrativa. Não há qualquer menção aos seus desejos, sua origem, sua família ou às razões de seu deslocamento.
   Ela é tratada como um objeto de transferência entre repartições públicas, da mesma forma que se transportariam mercadorias ou documentos. O texto revela uma característica fundamental da sociedade escravista: a negação da autonomia e da condição plena de humanidade da pessoa escravizada perante a legislação da época.

3. A importância dos rios como vias de circulação
   O documento demonstra a relevância da navegação fluvial para a integração do interior maranhense.
       Saturnina é transportada:
  • inicialmente em uma canoa pertencente ao negociante José Pedro dos Santos;
  • posteriormente deveria seguir pela primeira embarcação disponível no rio Alpercatas.
   Isso evidencia que os rios constituíam as principais estradas da região. Em meados do século XIX, a precariedade das vias terrestres tornava os cursos d'água fundamentais para o transporte de pessoas, mercadorias, correspondências e animais.
   O documento também confirma a importância do rio Alpercatas como eixo de comunicação entre a região da Chapada (Grajaú) e outros centros administrativos do Maranhão.

4. A articulação entre o poder público e a iniciativa privada
    Outro elemento interessante é a utilização da canoa de um comerciante particular, José Pedro dos Santos.
 Isso sugere que o Estado dependia frequentemente da infraestrutura privada para executar suas atividades. Em regiões de fronteira agrícola e pecuária, onde os recursos públicos eram limitados, comerciantes, fazendeiros e negociantes desempenhavam papel fundamental na circulação de pessoas e bens.
   O documento revela, portanto, uma rede de cooperação prática entre autoridades imperiais e agentes econômicos locais.

5. A Fazenda Nacional de São Bernardo como polo de ocupação territorial
     A referência à Fazenda Nacional de São Bernardo, localizada na antiga Comarca da Chapada, é significativa para a compreensão do processo de ocupação do sul maranhense.
      As fazendas nacionais eram instrumentos de presença do Estado em áreas interioranas.
   As nossas pesquisas apontam que se localizava no atual município de Fernando Falcão e parte do sul/sudeste do município de Tuntum, no atual distrito de São Joaquim dos Melos. 
   Funcionavam como centros produtivos, pontos de apoio administrativo e mecanismos de controle territorial. Sua existência demonstra o interesse governamental em consolidar a ocupação de regiões ainda pouco integradas ao núcleo político da província.
   Nesse contexto, a movimentação de Saturnina pode ser interpretada como parte da gestão da mão de obra necessária ao funcionamento dessas propriedades.

6. O controle e a vigilância sobre a população escravizada
    A ordem para que Saturnina fosse conduzida "com as devidas cautelas" revela a preocupação constante das autoridades com fugas durante os deslocamentos.
   Essa expressão era comum em documentos da época e demonstra que a circulação de escravos exigia vigilância permanente. O receio de evasões estava presente em praticamente todas as operações de transporte de pessoas escravizadas.

Portanto, o documento de 16 de dezembro de 1856, embora curto e aparentemente rotineiro, oferece um retrato bastante expressivo da sociedade maranhense oitocentista. Ele evidencia:
  • a existência da escravidão administrada pelo próprio Estado;
  • a condição jurídica dos escravizados como propriedade;
  • a importância dos rios como principais vias de transporte;
  • a integração entre autoridades públicas e comerciantes privados;
  • o papel das fazendas nacionais na ocupação do interior;
  • e os mecanismos de controle sobre a população escravizada.
 Mais do que uma simples ordem de transporte, o texto constitui um testemunho das relações de poder, da organização territorial e da estrutura econômica que sustentavam a expansão e a administração do sul do Maranhão em meados do século XIX.

domingo, 20 de setembro de 2026

A AGRICULTURA FAMILIAR NO MUNICÍPIO DE TUNTUM-MA - UM BRVE HISTÓRICO

 Por Jean Carlos Gonçalves

Imagem meramente ilustrativa,

O que é agricultura familiar?

Trata-se de um modelo de produção rural em que a gestão e o trabalho são realizados principalmente por membros de uma mesma família, em pequenas propriedades (vide https://brasilescola.uol.com.br/geografia/agricultura-5.htm).

Quais são suas principais características?

  •  A administração do negócio e o plantio ocorrem de forma conjunta entre os familiares.
  • Diversidade de cultivos: Há foco na variedade de alimentos, como hortaliças, frutas, mandioca, feijão e criação de animais de pequeno porte.
  • Práticas sustentáveis: Costuma utilizar técnicas de menor impacto ambiental que respeitam o ritmo da natureza e preservam o solo (vide https://www.bbseguros.com.br/seguros/blog/campo/agricultura-familiar).
  • Qual a sua importância social e econômica?

  • Segurança alimentar: É a principal responsável por colocar comida fresca e diversificada na mesa da população.
  • Geração de empregos: Responde pela maior parte das ocupações no campo, fixando as pessoas na terra e reduzindo o êxodo rural.
  • Movimentação local: O dinheiro gerado circula na própria região, fortalecendo o comércio e a economia das pequenas cidades.  (vide https://www.embrapa.br/tema-agricultura-familiar).
  • Qual a trajetória histórica da agricultura familiar desde a formação do povoado Tuntum a partir de 1890 até os dias atuais?

    A agricultura familiar constitui uma das bases históricas da formação econômica e social de Tuntum. Desde o final do século XIX, quando famílias de diferentes regiões, especialmente do Ceará, de outras áreas do Nordeste e de municípios da região sul do Maranhão, passaram a ocupar e cultivar terras da região conhecida como Mata do Japão, a produção de alimentos esteve ligada à sobrevivência, à organização das comunidades e ao abastecimento do então povoado de Barra do Corda.

    Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, os agricultores cultivavam principalmente produtos destinados à alimentação das famílias e às trocas locais. Milho, arroz, algodão, feijão, mandioca, abóbora e batata-doce, etc., faziam parte desse sistema diversificado de produção. A mandioca tinha especial importância por sua resistência às condições climáticas e por permitir a fabricação de farinha, alimento fundamental na dieta sertaneja, especialmente, nos povoados São Lourenço, São Bento, São Joaquim dos Melos, Santa Rosa e localidades adjacentes na região do Alto Sertão tuntuense ou região das Areias. Na época, assim como Tuntum, todos esses povoados pertenciam ao município de Barra do Corda e, posteriormente, em 1943, passaram a fazer parte do território de Presidente Dutra. Com a emancipação política de Tuntum, em 1955, passam a integrar o território do novo município.

    Cabe ressaltar que, quando o pioneiro José Naziozeno dos Santos e sua família se estabeleceram entre o Brejo do Caboclo e o riacho Tuntum, no atual núcleo urbano, por volta de 1890, também foi precursor no cultivo de cana de açúcar e no processamento do produto com a instalação de engenho para a moenda e fabricação de rapadura, garapa e cachaça, utilizando-se de técnicas tradicionais e equipamentos rústicos, cuja produção servia para o consumo familiar e local, por isso, a cana pode ser considerada como uma das culturas da agricultura familiar. O Engenho do Caboclo Naziozeno é um dos mais conecidos e lembrados atualmente na cidade de Tuntum. 

    No início do século XX, Luís Coelho e família se fixaram no povoado Arroz, seguindo o exemplo dos Naziozenos, se destacando também no cultivo da cana de açúcar. Vários outros emigrados também se dedicaram a produção de cana de açúcar e seus derivados, a exemplo, de João da Mata que chegou com sua família em 1949. O mesmo era o pai de Manoel da Mata, herdeiro do empreendimento agrícola e mais destacado produtor e fabricante de cachaça da cidade, falecido há poucos anos.

    A partir das décadas de 1930 e 1940, com o crescimento do povoado e a ampliação das relações comerciais, a agricultura passou a atender não apenas ao consumo doméstico, mas também às feiras das cidades próximas e aos mercados locais. O cultivo do arroz, do milho e do algodão ganhou destaque na economia regional, enquanto o feijão, a mandioca, a macaxeira, a abóbora e outras culturas continuaram importantes para a alimentação cotidiana.

    Nas décadas de 1950 e 1960, período que inclui a emancipação política de Tuntum (1955) e um vertiginoso crescimento demográfico, a agricultura familiar permanecia essencial para o abastecimento da população. Muitas famílias combinavam o cultivo de cereais com pequenas criações e o aproveitamento de produtos da natureza. A mandioca, por exemplo, podia ser transformada em farinha e goma; o milho era consumido verde ou seco; o feijão era utilizado em diferentes preparações; e a abóbora, o quiabo e o maxixe complementavam as refeições.

    Entre as décadas de 1960 e 1980, as transformações econômicas, a expansão da pecuária e as mudanças no uso da terra alteraram o espaço rural. Em algumas áreas, a criação de gado passou a ocupar terras antes destinadas às lavouras. Ainda assim, a agricultura familiar continuou presente, especialmente na produção de alimentos para o consumo próprio e para a comercialização em pequena escala.

    Em 1987, inaugurou-se a Barragem do rio Flores no vizinho município de Joselândia. O barramento foi responsável pela formação de um dos maiores lagos artificiais do estado, que atingiu uma extensa área do norte de Tuntum, deixando vários povoados submersos e obrigando milhares de lavradores e lavradoras a deixar a região, considerada uma das mais produtivas do município, o que impactou negativamente, desde então, a produção de arroz e milho, os produtos mais destacáveis.

    A partir das décadas de 1990 e 2000, novas mudanças ocorreram, relacionadas à modernização das atividades rurais, às políticas públicas, ao acesso ao crédito, às condições das estradas, à disponibilidade de água e às oscilações dos preços agrícolas. Essas transformações influenciaram as escolhas dos produtores, mas não eliminaram a diversidade das pequenas roças. O arroz, o milho, o feijão, a mandioca, a macaxeira, a abóbora, o milho e outras culturas continuaram associados à alimentação, à renda e aos conhecimentos tradicionais das famílias. Contudo, se observa mais nitidamente, a partir de então, uma maior inclinação do município para pecuária bovina como principal atividade econômica, muito embora várias políticas públicas de incentivo à agricultura familiar tenham sido implementadas, tais como: desapropriação de áreas improdutivas, instalações de núcleos de colonização com relativa infraestrutura, crádito e assistência tácnica. 

    Como o município de Tuntum possui uma área territorial expressiva, 3.369,119 km², se registra ao longo das últimas décadas a criação de dezenas associações de trabalhadores rurais, entretanto, não tem cumprido efetivamente a sua função social e várias delas foram parcial ou totalmente abandonadas. Por outro lado, registra-se destaque positivo para os assentamentos do Belém I e II, no Médio Sertão e os assentamentos PA Paca e PA Serra Grande, no noroeste do município.

    Em 2026, a agricultura familiar de Tuntum ainda pode ser compreendida como uma atividade que reúne produção de alimentos, geração de renda, preservação de saberes e manutenção de vínculos comunitários. Embora enfrente desafios como o alto custo da produção,  a necessidade de uma melhor infraestrutura e de assistência técnica, a valorização do trabalho, a agricultura familiar permanece importante para a economia e para a identidade rural do município.

    Entre as culturas que compõem esse universo, destacam-se:

    • Feijão: alimento básico, rico em proteínas vegetais, fibras e minerais, cultivado para o consumo e a comercialização.
    • Mandioca: utilizada na produção de farinha, goma e outros derivados, com grande importância alimentar e econômica.
    • Macaxeira: consumida cozida, frita ou como ingrediente de bolos e outras receitas.
    • Abóbora ou jerimum: empregada em ensopados, caldos, doces e acompanhamentos.
    • Milho: utilizado na alimentação humana e animal, além de integrar diversas receitas tradicionais.
    • Arroz: historicamente importante na alimentação e na produção agrícola regional.
    • Batata-doce, quiabo, maxixe, melancia, banana e outras hortaliças e frutas: cultivados conforme as condições ambientais e as escolhas de cada família.

    Assim, a história da agricultura familiar de Tuntum não se resume à produção de determinados gêneros agrícolas. Ela também representa a história do trabalho, da adaptação ao ambiente, da alimentação e da permanência de práticas culturais que atravessaram gerações. Estudar essas culturas é compreender como os agricultores contribuíram para formar o território, abastecer as comunidades e construir parte da identidade tuntuense.

    quarta-feira, 2 de setembro de 2026

    Nota do destino: Morre em Teresina a Professora e Historiadora Flávia de Souza Lima

     

    Professora e Historiadora Flávia de Souza Lima

    Faleceu na manhã desta terça-feira, dia 1º de setembro, em Teresina (PI), a Professora e Historiadora Flávia de Souza Lima, 48 anos, filha de uma sobralense. A notícia de seu falecimento causa comoção entre familiares, amigos, colegas de profissão e integrantes da comunidade acadêmica.

    Flávia possuía um vasto currículo na área da História, com destacada trajetória acadêmica e profissional. Era doutoranda e mestra em História Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de possuir graduação em História pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e formação técnica em Artes Plásticas pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI).

    Em sua trajetória profissional, atuava como professora substituta do curso de História da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) desde 2023. Também ministrou aulas no curso de Direito da Faculdade do Vale do Itapecuru (FAI), em Caxias (MA), entre os anos de 2012 e 2022.

    Flávia também lecionou Metodologia da Pesquisa Jurídica para alunos do curso de Especialização em Direito Processual da FAI, contribuindo para a formação acadêmica de estudantes de diferentes áreas.

    No campo da pesquisa, dedicava-se principalmente aos estudos relacionados à História Social, História e Gênero, Imprensa, Imagens Cômicas e Discurso Político, deixando uma importante contribuição para a produção e o ensino acadêmico.

    Sua trajetória foi marcada pela dedicação à educação, à pesquisa e à formação de novos profissionais, especialmente nas áreas de História e Ciências Humanas.

    Neste momento de dor e despedida, o Blog Sobral 24 Horas manifesta suas mais sinceras condolências aos familiares, amigos, colegas de profissão e a todos que tiveram o privilégio de conviver com Flávia de Souza Lima.

    Que Deus conforte o coração de todos e conceda força à família neste momento de profunda tristeza.

    Fonte: Sobral 24 horas.

    terça-feira, 1 de setembro de 2026

    HÁ 71 ANOS A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO MARANHÃO APROVOU A EMANCIPAÇÃO DE TUNTUM

     Por Jean Carlos Gonçalves

    Deputado Eurico Bartolomeu Ribeiro, autor da lei de criação do município de Tuntum-MA

    Fonte: Jornal do Povo, 02 de setembro de 1955.

    "TUM-TUM E MONTES ALTOS

    DOIS NOVOS MUNICÍPIOS CRIADOS

    A  Assembleia aprovou ontem em regime de urgência projetos de lei criando dois novos municípios: Montes Altos e Tum-Tum, o primeiro desmembrado de Imperatriz e o segundo de Presidente Dutra, projetos de autoria dos deputados [ILEGÍVEL, provavelmente Nunes Freire] e Eurico B. Ribeiro, respectivamente."

           Embora a nota se encontre praticamente ilegível, afirmo que, com base nos parcos conhecimentos como pesquisador em documentos escritos deteriorados, rasurados ou com grafia com vício de forma, acredito que consegui transcrever com certa precisão, (ou pelo menos o essencial) o primeiro parágrafo do texto informativo do Jornal do Povo, em sua edição do dia 02 de setembro de 1955. 

        Trata-se de uma publicação, um  dia após a Assembleia Legislativa do Maranhão aprovar projetos de lei, os quais apresentaram a proposta de emancipação política de dois novos municípios em 1º de setembro: Montes Altos e Tuntum. No caso específico de Tuntum a lei aprovada foi a 1362/55, que foi sancionada pelo Governador do Maranhão  no dia 12 de setembro de 1955. Data esta, escolhida pelos políticos da época para se comemorar o aniversário da municipalidade.

            O que mais desperta a atenção na breve nota, e, ao mesmo tempo, não menos instigante é a expressão "em regime de urgência", a qual nos leva  a refletir sobre as circunstâncias históricas em que tais leis foram aprovadas.

            Sabemos que em 1955 ocorreram eleições estaduais no Maranhão, um pouco mais de um mês, 03/10/1955, da aprovação dos projetos de emancipação supracitados, além de outros fatores. Desse modo, cabe indagar:

    • Por que tais propostas foram submetidas a votação em regime de urgência?
    • Quais os interessados na emancipação política de Tuntum?
    • Quais os personagens e sujeitos históricos envolvidos do processo?
    • Havia opositores ao projeto de emancipação? Quem eram? Por que se opunham?
    • A urgência para aprovação omitia os reais interesses ante a opinião pública? 
    • Ou a celeridade da matéria foi uma estratégia para evitar a oposição de quem em tese teria os seus interesses prejudicados, a exemplo da classe política de Presidente Dutra que teve o seu território reduzido em mais de 70% com o desmembramento de Tuntum?
    • Qual a relação do projeto de lei de criação do município de Tuntum com as eleições estaduais de 1955?

    Tais questionamentos deixo aqui para instigar a curiosidade ou fazer o exercício mental de investigar e compartilhar conosco informações relevantes sobre uma etapa importantíssima no processo histórico de emancipação política de Tuntum em 1º de setembro de 1955.

    Há exatamente 71 anos...

    Assim sendo, sugiro o texto: Processo de emancipação política de Tuntum-MA em https://ecosdetuntum.blogspot.com/2016/09/por-jean-carlos-goncalves-em-fins-da.html e aguardo por ti!

    Até breve!!

    Uma história que começou aqui: Dr. João Batista Rodrigues de Andrade retorna à escola de sua infância

    Por Jean Calos Gonçalves

    Dr. João Batista Rodrigues de Andrade
    Fonte: Moura Snap, 2026.

    O Centro Educa Mais Isaac Martins, em Tuntum, viveu nesta última sexta-feira 29/08/2026, um daqueles momentos que ultrapassam os limites de uma atividade escolar e se transformam em experiência de memória, inspiração e pertencimento. Em sua terra natal, o renomado advogado Dr. João Batista Rodrigues de Andrade, atualmente com 74 anos, retornou à escola onde, ainda menino, aprendeu as primeiras letras, no início da década de 1960, para conversar com os jovens estudantes sobre os caminhos que podem conduzir à realização de sonhos.

    A visita teve um significado especial. Décadas depois de deixar os bancos escolares de Tuntum, João Batista Rodrigues de Andrade voltou ao antigo espaço de sua formação para compartilhar com uma nova geração um pouco de sua trajetória de vida. Ainda pré-adolescente, partiu para Teresina, no Piauí, onde cursou o ginasial. Posteriormente, seguiu para o Rio de Janeiro e, mais tarde, estabeleceu-se definitivamente em São Paulo, onde se formou em Direito e construiu uma carreira profissional de reconhecido êxito. 

    Mais do que narrar uma trajetória profissional, o advogado falou aos estudantes sobre estudo, disciplina, vocação, escolhas, formação acadêmica, profissão e perseverança. Sua presença na escola que marcou os primeiros passos de sua vida intelectual revestiu-se, assim, de um forte caráter simbólico: aquele menino que um dia aprendeu ali as primeiras letras retornava agora como profissional experiente para dizer aos jovens que o conhecimento pode abrir caminhos e transformar destinos.

    Fonte: Moura Snap, 2026.

    Ressalte-se que o Dr. João Batista é o primeiro tuntuense a concluir o curso de Bacharel em Direito na Universidade de São Paulo-USP (1980), o mestrado em Direito Processual Penal. 1983, e, ainda, o primeiro conquistar o título de doutorado em Direito Civil, em 1985. (Leia sobre sua trajetória em: https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/08/joao-batista-rodrigues-de-andrade.html).

    Fonte: Moura Snap, 2026.
    O encontro foi articulado pelo professor Jean Carlos Gonçalves, que há pelo menos uma década mantém diálogo e relação de amizade intelectual com o Dr. João Batista. Professor e articulador da iniciativa, Jean Carlos levou à equipe gestora do Centro Educa Mais Isaac Martins a proposta de proporcionar ao ilustre ex-aluno esse reencontro com sua antiga escola e, aos estudantes, a oportunidade de ouvir uma história de vida marcada pelo estudo, pela determinação e pela conquista profissional.

    Prof. Jean Carlos Gonçalves, vice-presidente da ATLEA
    Fonte: Moura Snap, 2026.

    A iniciativa contou com a acolhida dos jovens estudante e da equipe escolar, liderada pelo gestor geral Anderson Coelho, que compreendeu a importância do momento e contribuiu para que o encontro se concretizasse. Dessa forma, a escola abriu suas portas não apenas para receber um antigo aluno, mas para celebrar sua própria memória e aproximar diferentes gerações em torno da educação.

    Anderson Coelho - Gestor Geral do CEM Isaac Martins
    Fonte: Moura Snap, 2026.
    O momento contou também com a participação da Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes – ATLEA, representada por seu presidente, Professor Emerson de Araújo, que foi convidado a fazer uso da palavra. Sua presença conferiu ao encontro uma dimensão ainda mais significativa, aproximando a escola de uma instituição dedicada à valorização das letras, da educação, das artes e da memória cultural de Tuntum.

    Prof. Emerson Araújo, presidente da ATLEA
    Fonte: Moura Snap, 2026.
    Em sua participação, o Professor Emerson destacou a relevância de iniciativas que aproximam a comunidade escolar de personalidades cuja trajetória está vinculada à história do município. Como gesto de apreço e valorização da cultura e da produção intelectual, presenteou o Dr. João Batista com alguns de seus livros, deixando também exemplares para o acervo da escola e outros para serem sorteados entre os estudantes.

    Prof. Emerson entrega exemplares para o Prof. Anderson Coelho
    Fonte: Moura Snap, 2026.

    O gesto representou mais do que a simples entrega de livros. Simbolizou a crença de que livros, memórias e histórias de vida também são instrumentos de formação. Ao deixar suas obras na escola e colocá-las ao alcance dos estudantes, a ATLEA contribuiu para prolongar os efeitos daquele encontro para além da palestra, estimulando a leitura e aproximando os jovens da produção literária e cultural de sua própria terra.

    A palestra foi marcada por uma conversa serena, espontânea e recheada de informações e experiências. O Dr. João Batista falou aos jovens com a autoridade de quem percorreu diferentes caminhos e enfrentou desafios, mas também com a simplicidade de quem reconhece na escola de sua infância uma das raízes de sua própria história.

    Fonte: Moura Snap, 2026.
    A participação dos estudantes demonstrou o interesse despertado pelo encontro. Especialmente ao final da palestra, vários jovens formularam perguntas ao convidado, estabelecendo um diálogo franco sobre escolhas profissionais, universidade, mercado de trabalho, vocação e projetos de vida. O momento revelou que, quando a experiência de vida encontra a curiosidade juvenil, a escola se transforma em espaço privilegiado de diálogo entre passado, presente e futuro.

    Fonte: Moura Snap, 2026.

    Ao término, o Dr. João Batista foi convidado pelos estudantes para uma sessão de fotografias e vídeos, protagonizada pelos jovens integrantes do Clube de Mídias e Jornalismo do Centro Educa Mais Isaac Martins. As lentes dos estudantes registraram não apenas a presença de uma personalidade, mas um reencontro carregado de significado: o antigo aluno diante da escola que um dia o acolheu e os jovens de hoje diante de alguém que lhes apresentava, através da própria história, a possibilidade de construir novos caminhos.

    A presença da escola, do palestrante, dos professores, da ATLEA e dos jovens estudantes fez daquele encontro uma verdadeira celebração da educação, da memória e da cultura. A iniciativa mostrou que preservar a história de uma comunidade também significa reconhecer aqueles que dela partiram, acompanharam diferentes caminhos e retornam para compartilhar suas experiências com as novas gerações.

    O encontro ficará como uma das experiências marcantes deste ano letivo do Centro Educa Mais Isaac Martins. Afinal, há visitas que são apenas visitas, e há reencontros que se tornam memória. O retorno de João Batista Rodrigues de Andrade à escola onde aprendeu as primeiras letras pertence à segunda categoria.


    Entre as paredes de uma antiga escola, um menino do passado encontrou os jovens do presente para lhes falar sobre o futuro. E, naquele encontro, a educação mostrou novamente que sua verdadeira grandeza está em ajudar cada geração a descobrir que sempre é possível ir mais longe.















    segunda-feira, 31 de agosto de 2026

    JOÃO BATISTA RODRIGUES DE ANDRADE - Jurista, advogado, professor e intelectual tuntuense

     Por Jean Carlos Gonçalves

    Dr. João Rodrigues Batista de Andrade
    Fonte: Adaptado de Moura Snap, 2026.

    João Batista Rodrigues de Andrade nasceu em Tuntum, Maranhão, em abril de 1952, filho de Antônio Luiz Andrade, lavrador, e de Etelvina Rodrigues Andrade. Casado com a jornalista Maria Aparecida Pereira da Silva, constituiu família e é pai de dois filhos e avô de dois netos.

    Sua trajetória é marcada pela dedicação aos estudos, pelo exercício do Direito, pelo magistério e pela participação na vida cultural e acadêmica. As primeiras letras foram aprendidas no Grupo Escolar Isaac Martins, em Tuntum, seguindo depois para a Escola Paroquial de Tuntum. Posteriormente, estudou no Grupo Escolar José Lopes, em Teresina, no Piauí, ingressando, mediante exame de admissão, na então Escola Técnica Industrial Federal do Piauí. Concluiu o curso ginasial no Ginásio Popular de Teresina, onde exerceu a função de Secretário de Imprensa do Grêmio Lítero-Cultural João XXIII e foi orador da turma de 1969.

    Em fevereiro de 1970, migrou para o Rio de Janeiro, onde permaneceu até setembro daquele ano, trabalhando como porteiro do Círculo Militar da Praia Vermelha. Mais tarde, estabeleceu-se em São Paulo, onde, entre 1972 e 1974, estudou no Instituto Estadual de Educação Caetano de Campos, instituição na qual ingressou por concurso.

    Em 1975, ingressou na tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo — USP, após obter o 5º lugar no concurso vestibular, resultado que lhe conferiu ingresso com láurea. Durante a vida acadêmica, participou de movimentos e eventos relacionados à redemocratização do país, revelando, desde cedo, interesse pelas questões políticas, jurídicas e sociais de seu tempo.

    Sua formação jurídica esteve acompanhada de intensa atividade cultural. Foi admitido na Academia de Letras da Faculdade de Direito da USP, apresentando a dissertação “Os Cantadores do Sertão (Literatura de Cordel)”, trabalho que evidencia a permanência de suas raízes sertanejas e de seu interesse pela cultura popular. Na instituição, ocupou a cadeira Raimundo Correia, poeta maranhense, tendo posteriormente exercido as funções de secretário e presidente. Também presidiu, por dois mandatos, a Casa do Estudante do Centro Acadêmico XI de Agosto e integrou o Departamento Jurídico da entidade, onde foi estagiário e, em 1979, eleito diretor.

    Concluiu o Curso de Direito em 1980, integrando a Turma Karol Wojtila. Prosseguiu sua formação acadêmica na pós-graduação, cursando Mestrado em Direito Processual Penal, com conclusão dos créditos em 1983, e posteriormente o Doutorado em Direito Civil, habilitando-se nos créditos em 1985.

    Ao longo de sua carreira, João Batista Rodrigues de Andrade construiu sólida trajetória profissional na advocacia. Desde abril de 1982 exerce a advocacia militante, atuando nas áreas cível e criminal, em diferentes níveis de jurisdição e perante tribunais superiores. Sua experiência inclui sustentações orais em segunda instância e no Superior Tribunal de Justiça, além de atuação frequente perante os Tribunais do Júri em São Paulo.

    Sua atuação profissional também alcançou a administração pública e a assessoria institucional. Exerceu funções como advogado do Centro Social São Francisco de Assis — Projeto Pró-Vítima; Chefe de Gabinete da 52ª Subsecretaria Parlamentar da Câmara Municipal de São Paulo; Diretor do Departamento de Desenvolvimento Habitacional e, posteriormente, Diretor do Departamento Geral de Assuntos Habitacionais da Secretaria de Habitação da Prefeitura Municipal de Itaquaquecetuba.

    Paralelamente à advocacia, desenvolveu expressiva atividade docente. Foi professor do Colégio Olavo Bilac, em São Paulo, lecionando Direito e Legislação; professor da Faculdade de Direito Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, nas disciplinas de Direito Civil, Direito Penal e Direito Processual Penal; docente voluntário do Departamento de Direito Penal da Faculdade de Direito da USP; e professor da Universidade São Judas Tadeu, onde ministrou a disciplina Instituições de Direito entre 1988 e 1995.

    Seu percurso intelectual não se restringiu ao universo jurídico. Proferiu palestras sobre temas de relevância social e econômica, entre elas “Aspectos Sócio-econômicos da Lavoura de Subsistência no Nordeste Brasileiro”, apresentada na Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, em São Paulo, em 1985, e “Reforma Agrária”, ministrada na Faculdade de Direito Braz Cubas.

    Na produção bibliográfica, figura como coautor da obra Princípio e Regras Orientadoras do Novo Processo Penal Brasileiro, publicada pela Editora Forense, no Rio de Janeiro, em 1986. A monografia foi elaborada por alunos da disciplina Direito Processual Penal do Curso de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da USP, sob orientação e coordenação do Professor Doutor Rogério Lauria Tucci.

    Sua formação continuada compreende participação em numerosos congressos, simpósios e cursos de aperfeiçoamento nas áreas do Direito Processual Penal, Direito Civil, Direito do Trabalho, Direito Agrário, Reforma Penal, Direito Constitucional, responsabilidade civil, mediação e Direito das Sucessões, além de formação em literatura contemporânea e técnica redacional administrativa e legislativa.

    Atualmente, conforme registrado no currículo, atua como Assessor Jurídico da CEP Assessoria Técnica Ltda., função exercida desde outubro de 2015. É associado à Associação dos Advogados de São Paulo e à Associação dos Advogados Criminais do Estado de São Paulo. Possui ainda conhecimento do idioma italiano.

    A trajetória de João Batista Rodrigues de Andrade revela, assim, uma caminhada que parte das raízes de Tuntum e alcança importantes espaços acadêmicos, jurídicos e culturais de São Paulo. Do menino que iniciou sua formação escolar no Grupo Escolar Isaac Martins ao jurista formado pela Universidade de São Paulo, sua história é também marcada pela busca permanente do conhecimento, pela atuação profissional e pela preservação de um vínculo intelectual com a cultura e a realidade social brasileira.

    Sua passagem pela literatura de cordel, seu interesse pelos temas do sertão e sua formação jurídica convergem em uma personalidade cuja trajetória une sertão e universidade, cultura popular e ciência jurídica, memória e conhecimento. É, nesse sentido, uma história de formação e de perseverança, construída entre diferentes territórios, mas que conserva como ponto de partida e referência afetiva a terra natal: Tuntum, no sertão maranhense..

    quarta-feira, 26 de agosto de 2026

    “Festejos de Tuntum”: quando a música transforma a memória em celebração

     Por Jean Carlos Gonçalves

    Há músicas que apenas se escutam; outras, porém, carregam consigo lugares, pessoas, paisagens, sentimentos e memórias. “Festejos de Tuntum”, composição e interpretação do cantor tuntuense Mizael Teixeira, insere-se nessa segunda categoria. A obra nasce da sensibilidade de um artista filho da terra e transforma em música uma das mais fortes expressões da identidade cultural de Tuntum: os tradicionais Festejos de São Raimundo Nonato.

    Mais do que uma canção sobre uma festa religiosa, “Festejos de Tuntum” é uma espécie de retrato musical de uma cidade que, todos os anos, reencontra suas tradições, seus personagens e sua gente em torno do santo padroeiro. O cenário escolhido para a produção não poderia ser mais simbólico: a Praça São Francisco de Assis, diante da monumental Igreja de São Raimundo Nonato, referência arquitetônica, religiosa e afetiva de Tuntum. O templo, que se destaca na paisagem urbana, funciona no videoclipe como uma espécie de testemunha silenciosa da história da cidade e das inúmeras gerações que passaram pelos festejos.

    A produção também chama atenção por reunir, diante das câmeras, filhos de Tuntum, muitos deles moradores de outras cidades e até de outros estados brasileiros. Essa escolha dá à obra uma dimensão especial: a festa deixa de ser apenas um acontecimento localizado no espaço e passa a representar um território afetivo que acompanha o tuntuense onde quer que ele esteja. É a cidade reencontrando seus filhos e os filhos reencontrando a cidade através da música, da memória e da tradição.

    A própria história recente dos Festejos confirma essa força cultural. A celebração de São Raimundo Nonato é reconhecida como mais tradicional manifestação religiosa de Tuntum e alcança dimensões que ultrapassam o espaço estritamente litúrgico. Durante os festejos, a cidade se transforma, recebe visitantes, reúne famílias, movimenta o comércio e proporciona diferentes formas de sociabilidades. No dia 31 de agosto, data dedicada ao padroeiro, a tradição religiosa se encontra com manifestações profundamente vinculadas à cultura sertaneja, especialmente a cavalgada, a presença dos vaqueiros e as celebrações que envolvem a comunidade. Registros da festa destacam justamente essa integração entre religiosidade, vaqueiros, música e convivência popular.

    Nesse sentido, “Festejos de Tuntum” contribui para registrar uma manifestação que já ultrapassou os limites de uma simples festividade religiosa e se tornou parte da própria identidade cultural do município. O reconhecimento dos Festejos de São Raimundo Nonato como patrimônio cultural imaterial do Maranhão, a partir de iniciativa legislativa apresentada pelo então deputado estadual Fernando Pessoa, atual prefeito reeleito de Tuntum, reforça essa dimensão patrimonial.
    LEI Nº 11.090, DE 22 DE AGOSTO DE 2019.

    Declara Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Maranhão o Festejo do Padroeiro São Raimundo Nonato, realizado no Município de Tuntum/MA.
    O GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO, Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembleia Legislativa do Estado decretou e eu sanciono a seguinte Lei:

    Art. 1º Fica reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial o Festejo do Padroeiro São Raimundo Nonato, realizado no Município de Tuntum/MA.

    Parágrafo único. Competirá ao Estado, em conjunto com o Município, o acesso as fontes de cultura, apoio e incentivo para o Festejo.

    Art. 2º (Vetado).

    Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

    Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e a execução da presente Lei pertencerem que a cumpram e a façam cumprir tão inteiramente como nela se contém. O Excelentíssimo Senhor Secretário-Chefe da Casa Civil a faça publicar, imprimir e correr.

    PALÁCIO DO GOVERNO DO ESTADO DO MARANHÃO, EM SÃO LUÍS, 23

    DE AGOSTO DE 2019, 198º DA INDEPENDÊNCIA E 131º DA REPÚBLICA. 
    FLÁVIO DINO
    Governador do Estado do Maranhão

    Musicalmente, a produção ganha ainda outro elemento de identidade com a participação do saxofonista Léo do Sax, responsável pela execução do saxofone. Sua participação estabelece um diálogo entre a composição de Mizael e uma referência da música instrumental, por meio de uma versão de “Domingo do Parque” (1979), de Ivanildo do Sax, incorporada ao arranjo. O saxofone, assim, não aparece apenas como acompanhamento: torna-se uma "voz" que acrescenta personalidade, movimento e emoção à narrativa musical. Além disso, registra-se também a participação o artista, o cantor tuntuense Rivaldo Maranhão.

    A produção reúne, portanto, diferentes dimensões da cultura tuntuense: a música, a religiosidade, a memória, a paisagem urbana, a cultura do vaqueiro, a sociabilidade e o sentimento de pertencimento. E talvez seja justamente aí que esteja sua maior virtude: transformar uma festa que já existe na memória coletiva em uma obra audiovisual capaz de preservá-la e projetá-la para além do tempo presente.

    Outro detalhe particularmente expressivo é a presença do Jeep do Júnior da Mata, personagem conhecido pela sua atuação como pecuarista, empresário, ativista e articulador dos festejos. O veículo não aparece apenas como elemento cenográfico. Ele carrega consigo uma história e uma representação do universo rural e pecuarista que também integra a identidade dos Festejos de São Raimundo Nonato. Sua presença dialoga especialmente com o tradicional churrasco do dia 31 de agosto, uma das manifestações populares que se consolidaram na programação da festa e que reúne moradores, vaqueiros, pecuaristas, visitantes e famílias em um grande momento de confraternização. Há registros de edições dos festejos nas quais o churrasco, a cavalgada e as apresentações musicais, ocupam lugar de destaque na celebração do dia do padroeiro. Além, obviamente, do rito da missa e  do café dos vaqueiros logo nas primeiras horas da manhã.

    É importante perceber que a utilização desses personagens, objetos e espaços não acontece por acaso. A Praça São Francisco de Assis, a Igreja de São Raimundo Nonato, os cavaleiros, os vaqueiros, o Jeep, os músicos, os figurantes e os filhos da terra formam, juntos, uma espécie de mosaico da identidade tuntuense. Cada elemento acrescenta uma camada de significado à narrativa.

    Há, portanto, uma dimensão documental na produção. O videoclipe registra rostos, lugares, costumes e práticas culturais de uma determinada época. Daqui a alguns anos, quando outras gerações assistirem às imagens, poderão reconhecer nelas não apenas uma música, mas também uma representação de como Tuntum celebrava São Raimundo Nonato no início do século XXI. A música passa, assim, a cumprir também uma função de memória cultural.

    Essa perspectiva é particularmente significativa porque os Festejos possuem uma longa trajetória e continuam provocando reflexões sobre memória, identidade e transformação cultural. Estudos e registros locais já destacaram a importância da festa como uma manifestação capaz de reunir o sagrado e o profano, a devoção religiosa e as práticas sociais, a tradição e as novas formas de celebração.

    Nesse contexto, a iniciativa de Mizael Teixeira, além de sua atuação artística, ganha uma dimensão ainda mais significativa por se tratar de um artista da terra que atualmente exerce a função de Secretário Municipal de Cultura de Tuntum. Sua posição aproxima duas dimensões que nem sempre caminham juntas: a criação artística e a gestão cultural. Ao compor e interpretar “Festejos de Tuntum”, Mizael não apenas canta sobre sua cidade; ele participa da construção de uma narrativa sobre ela.

    A produção da GS Produções, produtora de propriedade do também tuntuense Geovane Santana, com a gravação de Danilo, demonstra, por sua vez, que Tuntum possui profissionais e talentos capazes de produzir conteúdos que valorizam a cultura local. Trata-se de uma produção genuinamente tuntuense: um artista tuntuense, músicos tuntuenses, personagens tuntuenses, cenário tuntuense e uma festa que pertence à memória coletiva do município.

    Por isso, “Festejos de Tuntum” merece ser compreendida para além de sua dimensão musical. Ela é uma manifestação de pertencimento. É uma homenagem ao padroeiro, mas também uma homenagem à cidade. É uma celebração da fé, mas igualmente uma celebração da cultura. É entretenimento, mas também registro. É música, imagem e memória.

    E talvez seja essa a maior riqueza da obra: Mizael Teixeira canta os Festejos de São Raimundo Nonato, mas, ao fazê-lo, canta também uma parte da própria alma de Tuntum.

    Em uma cidade cuja história ainda necessita ser melhor documentada e preservada, iniciativas como essa possuem um valor que ultrapassa o momento de seu lançamento. Porque aquilo que hoje parece apenas uma música ou um videoclipe poderá amanhã constituir-se em fonte de memória para compreender como Tuntum se via, como celebrava suas tradições e como representava sua própria identidade.

    “Festejos de Tuntum” é, nesse sentido, mais do que uma canção: é um pedaço da cidade transformado em som, imagem e sentimento.