Por Jean Carlos Gonçalves.
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sexta-feira, 22 de maio de 2026
JOSIMAR, O CINEASTA DA MATA DO JAPÃO
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Recordando Vanduy Morais: Um Ano de Saudade Eterna
Por Jean Carlos Gonçalves.
Há um ano, no dia 21 de maio de 2025, perdemos a presença física de um homem que
foi exemplo de coragem, determinação e amizade: Raimundo Vanduy Morais.
Ex-vereador e o mais jovem presidente da Câmara Municipal de Tuntum, Vanduy
deixou um legado que vai muito além das palavras, um legado vivido em cada ato
de sua vida.
Nascido
em 29 de junho de 1944, no simples e acolhedor povoado Pedra de Fogo, em
Presidente Dutra-MA, depois morou no povoado Mato Verde no município de Tuntum. Aos 15 anos aprendeu e se tornou um excelente alfaiate. Posteriormente se fez professor, leigo é verdade, mas o obstinado Vanduy era inquieto e sempre buscou estudar, se qualificar. Nos idos de 1970 foi para Caxias-MA, cursar o supletivo ginasial. Em seguida regressa ao município e conclue o 2º grau na cidade de Tuntum, onde também exerceu o magistério no Ginásio Comercial e no Ginásio Bandeirantes. A partir de então, passa à vida pública mais intensa e colhe os resultados de quem assume o protagonismo de sua própria vida. Passou em alguns concursos públicos e exerceu o serviço público como: funcionário da Associação
de Crédito e Assistência Rural-ACAR (posterior EMATER); agente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE; servidor do Banco
do Estado do Maranhão e Banco do Brasil, onde se aposentou. Cada uma dessas etapas
revela a fibra de um homem incansável, que soube honrar o trabalho e lutar por
seus ideais.
Candidato a vereador pelo MDB em 1972, no grupo político capitaneado por José Pinheiro Coelho e sua esposa Rita Maria Saraiva Pinheiro (primeira e única mulher a ser prefeita em Tuntum), Vanduy rapidamente conquistou o respeito e a confiança da população, tornando-se presidente da Câmara no biênio 1973-1974 e primeiro secretário no biênio 1975-1976. Sua jovem liderança marcou um breve tempo de renovação, esperança e trabalho, quando contava apenas 28 anos. Entretanto, após o trágico acidente de 13 de maio de 1974, que ceifou a vida de seis pessoas, inclusive a de José Pinheiro, seu grande incentivador, Vanduy passou a mirar outras possibilidades. Assim, priorizou os concursos públicos, deixando a política partidária após o término de seu mandato.
Ao lado
da esposa Necília Nogueira Silva Morais, Vanduy construiu uma família forte e unida, com os
filhos Alan, Fabiano, Káty, Omar e a "filha mais velha" (do coração), Lindalva, que
guardam viva a memória desse homem que tanto fez pelos seus, pelos amigos, pelo
povo.
Em nossa trajetória de amizade (15 anos aproximadamente, possível através de nosso amigo comum, Fabrício Coelho), tive várias demonstrações de sua grandeza. Uma das mais marcantes ocorreu em 10 de abril de 2018, quando o mundo assistiu a maior enchente da história de Tuntum e Vanduy, que soube através dos vídeos e fotografias que produzi das inundações, dos prejuízos materiais e do sofrimento dos atingidos, sem perder tempo, pediu-me o número de uma conta bancária para segundo ele, “fazer uma humilde doação”, atitude que rendeu dezenas de cestas básicas, as quais organizei e entreguei pessoalmente às famílias que avaliei como mais necessitadas naquele momento. Prestei contas de tudo e quando apresentei os comprovantes dos gastos, o meu amigo foi enfático:
“Meu querido, sei que és de boa índole e Tuntum já me deu muito, bem mais do que eu acho que merecia. Consegui aí trabalho para sustentar a minha família, ganhei novas oportunidades e, sobretudo, fiz muitos amigos. Só te peço uma coisa: não conte a ninguém”.
Hoje quebro a promessa que fiz de não divulgar seu gesto de generosidade. Perdoe-me!
A declaração evidencia a grandeza de alma do grande Vanduy Morais, o qual o destino permitiu que vivesse mais 52 anos e alguns poucos dias, pois era para ter feito aquela viagem do fatídico acidente de maio de 1974, mas como ele mesmo me relatou, foi dispensado por Zeca Coelho para priorizar a ida de outra pessoa, conforme https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/05/13-de-maio-de-1974-o-mais-tragico.html. Infelizmente partiu tragicamente vítima de um AVC, em um momento inesperado,
próximo à sua residência em São Luís-MA, pois do alto de seus 80 anos, estava em pleno gozo de suas faculdades
mentais e isso era evidente pela sua invejável memória, cujas lembranças dos fatos históricos e do cotidiano dos tempos idos, generosamente compartilhou conosco. A sua
ausência física deixa uma imensa saudade, mas também o exemplo de um homem que
nunca se esquivou das responsabilidades e nunca deixou de amar sua terra, de
cultivar novas amizades e fortalecer as existentes.
Neste
primeiro ano de sua partida, a lacuna é impreenchível, ocasião em que reverenciamos
sua trajetória de vida, o seu esforço pessoal para cuidar de sua família,
educar seus filhos, da ternura para com os netos, do afago aos amigos, suas conquistas. Que a lembrança de Vanduy Morais seja
sempre um farol a iluminar os caminhos daqueles que acreditam na força do
trabalho, do respeito e da amizade.
Sua
história permanece viva em cada coração que o conheceu e amou. Seu legado é indelével.
Um Ano de Saudade! Vanduy, o caminho que
ficou.
Hoje faz um ano, amigo,
Que a tua cadeira ficou vazia,
Mas tua risada ficou no abrigo
Das histórias que a memória ainda guia.
Oitenta anos de estrada vivida,
De mãos que souberam ajudar,
De vida contada, bem vivida,
De lições que ninguém vai apagar.
Não te choro como quem perde tudo,
Te guardo como quem ganhou demais.
Se a morte levou teu corpo mudo,
Teu jeito ficou e não sai jamais.
O tempo não apaga, só transforma:
A dor vira saudade mansa,
E a saudade, em cada forma,
Mostra que o afeto não cansa.
Descansa em paz, meu velho amigo.
Se o céu tem conversa, fala por dois.
E se um dia a gente se reencontrar com abrigo,
Vai ser com o mesmo abraço de antes.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
HÁ 62 ANOS LUÍS GONZAGA DA CUNHA ERA REINTEGRADO AO CARGO DE PREFEITO MUNICIPAL DE TUNTUM-MA
Por Jean Carlos Gonçalves.
O prefeito Luís Gonzaga da Cunha ao lado (à esquerda) da porta-bandeira.O prefeito Ariston Arruda Leda um pouco atrás e à esquerda de Luís Gonzaga. O caso do município de Tuntum está encerrado: pela madrugada de recém passada, seguiu para essa localidade o Dr. Araújo Neto Procurador Geral do Esado, para reempossar nos cargos de prefeito e vice-prefeito, ali, os Srs Luís Gonzaga da Cunha e Joquim de Morais, respectivamente.Vê-se, por aí, que êsses cidadãos criminosamente caluniados, quando se lhes atribuiram atividades subversivas; e, mais ainda que o documento em que havia renunciado aos seus mandatos não passou de uma farsa a que o forçaram pressões e ameaças a que não puderam resistir. (CORREIO DO NORDESTE, p. 3, 1964)Vitoriosos no pleito eleitoral de 06 de outubro de 1963, o prefeito Luís Gonzaga da Cunha e o vice-prefeito Joaquim Morais, receberam posse de seus cargos em 31 de janeiro de 1964.Dois meses depois, na noite do 31 de março para as primeiras hora do 1º de abril foi deflagrado o movimento que destituiu da Presidência da República, João Goulart.
Prefeito de Tuntum Luís Gonzaga da Cunha (1964-1969) Uma junta governativa das Forças Armadas assumiu o governo do Estado Brasileiro até que em 15 de abril daquele ano, por via indireta, era dada a posse a General Castelo Branco à Presidência da República.Enquanto isso no Maranhão, já havia se concretizado um racha na base do governador Newton Bello. Um grupo de dissidentes: Cid Carvalho, Ivar Saldanha, Lister Caldas, Eurico Ribeiro, Mattos Carvalho, Luis Coelho e Alberto Aboud, dentre outros, formaram as ditas Oposições Coligadas.Como reação, o grupo situacionista passou a adotar iniciativas com o objetivo de retaliar os deputados "rebeldes", e, uma das primeiras ações foi tentar minar as bases eleitorais do Deputado Federal Eurico Ribeiro, que tinha em Tuntum, Presidente Dutra e Dom Pedro, os seus principais redutos eleitorais.Em Tuntum, na eleição municipal de 06 de outubro de 1963, Eurico Ribeiro apoiou o candidato apontado pelo seu tio e prefeito Ariston Arruda Leda, Luís Gonzaga da Cunha, fazendo ferrenha oposição ao candidato apoiado pelo governador do estado Newton Belo, empresário Edésio Gomes Fialho, que foi derrotado nquele pleito.Nesse contexto emerge a figura do deputado estadual Ariston Gomes da Costa, que integrava a base do governo estadual na Assembleia Legislativa. Com histórico de rivalidades entre as famílias Gonzaga da Cunha e Gomes da Costa, desde quando, residentes em Santa Filomena, então povoado do município de Tuntum, tiveram sérios conflitos, que culminou com a morte de Abdon Costa, primo do deputado Ariston. Este aproveitou o ensejo para se vingar pessoal e politicamente de Luís Gonzaga.No dia 09 de abril de 1964 o Deputado Ariston Costa chega em Tuntum com um grupo de policiais e, segundo relatos, que foram noticiados pelo Correio do Nordeste, o parlamentar capitaneou uma verdadeira devassa na cidade de Tuntum, inclusive invadindo instituições públicas, violando residências. Nesse enredo, forçaram o prefeito Luís Gonzaga e o vice Joaquim Morais, além de vereadores como Júlio Dantas e José Borges Aráujo, o Zé Corelo, a assinarem papéis em branco que foram utilizados pelo o próprio Ariston Costa, que datilografou as suas renúncias, sob o pretexto de que se tratavam de elementos subversivos, pois eram adeptos da doutrina comunista e o deputado se apresentava em Tuntum em nome da "Revolução" de 31 de março, ou seja, estava cumprindo uma missão em nome dos militares. Cabe ressaltar que a justificativa para o Golpe de 1964 foi justamente o discurso do anticomunismo para legitimar a ação dos generais das Forças Armadas, e, assim, evitar que o Brasil se alinhase ao bloco soviético que se digladiava com o bloco capitalista liderado pelos EUA, durante a Guerra Fria. O problema é que Ariston agiu em causa própria sem o conhecimento do Governo Militar.
| Recorte do jornal Correio do Nordeste, edição domingo de 07 de junho de 1964, p.6. |
segunda-feira, 18 de maio de 2026
INTERPRETANDO O ARTIGO "PELO MARANHÃO" DE PEDRO OLIVEIRA - 1915
| Um historiador examinando uma fonte histórica escrita. |
Em nossa última publicação, O MARANHÃO E A MATA DO JAPÃO EM 1915, compartilhamos o artigo intitulado "Pelo Maranhão", de autoria do intelectual passagense Pedro Oliveira, e, como julgamos o texto de grande valor histórico, faremos agora uma análise interpretativa da matéria que publico novamente abaixo, e, em seguida, levantamos alguns pontos que avaliamos relevantes, conforme anunciamos na postagem anterior.
PELO MARANHÃO
O Maranhão é, incontestavelmente,
uma terra de esperanças.
Foi
grande e próspero nos tempos passado, teve filhos que lhe glorificaram o nome e
braços que lhe impulsionaram as indústrias.
Hoje
permanece immovel ante a febre de progresso que agita muitas outras
circumscripções da Federação Brasileira. Entretanto, amanhã poderá continuar a
sua marcha evolutiva, porque não lhe faltam filhos dos mais ilustres e terras
das mais soberbas e férteis.
Basta
que os Governos se empenhem, sincera e resolutamente, na resolução dos magnos
problemas de que depende o futuro e a grandeza do valoroso Estado, e que são: -
a multiplicação dos meios de transporte, a construcção de porto de São Luiz, a
colisação das terras desabitadas e a divulgação e aperfeiçoamento do ensino nas
diversas localidades do interior.
Destes
serviços, o mais urgente é, sem dúvida, o que se refere ao transporte.
Quem
já viajou pelos sertões maranhenses soffrendo as ríspidas provações de uma
longa e erma travessia; quem observou a morosidade e crueza da conducção de
algodão em dificultosos comboios; quem contemplou o desfilar lento e caçando
numerosas boiadas que descem do alto sertão para as feiras do Arary, Itapecurú
e Vargem Grande, ou para os portos da Gambarra, do Ambude, da Inveja, etc.;
quem já sentiu de perto os queixumes dos lavradores e criadores contra o
abandono que se vêem, não pode deixar de reconhecer a necessidade do
estabelecimento de vias férreas, principalmente nas zonas, não atravessadas pelos
rios.
A
estrada de ferro de São Luiz a Caxias, pouca utilidade apresentará por
enquanto. Os gêneros produzidos pelos municípios as margens do Itapecurú,
transportam-se facilmente para a capital, por meio de embarcações a vapor, que,
em qualquer época do anno, chegam até a cidade de Caxias. De modo que essa
estrada era, para todas as razões, adiável.
Do
que o Maranhão precisa, e sem demora, é uma linha ferrea, que partindo de
qualquer ponto do Itapecurú, vá desbravar as mattas do Japão e desvendar as variadas
riquezas que se estendem desde as altura de Barra do Corda até as fertilíssimas
terras do Tocantins.
Além
de grandes minas ainda inexploradas, há em todo o interior do Estado innemeras
regiões de terras desconhecidas, e cujo povoamento só mais tarde se podem
effectuar.
Destaca-se,
entre outras, a zona do Japão que se alonga pelos municípios de Caxias, Codó,
Barra do Corda e Picos. É um vasto carrasco, entrecortado de exuberantes mattas
densas, tabocaes e campos adequados para a criação de gado. Terreno mais ou
menos plano, apenas levemente encrespado na volumosa faixa que avança para
Picos e Barra do Corda, continua inculto na sua quase totalidade. Contudo,
contam-se povoados florescentes, como os de Santo Antônio, Curador e alguns
outros, que attestam a superioridade das terras do Japão. É ahi que se oculta a
importante lagoa da Matta, que é desconhecida dos maranhenses.
Sabe-se
que um velho e arrojado caçador daquella baudas, depois de dura caminhada
através do carrasco, conseguiu encostar, pouco depois de 1890, num dos recantos
da famosa lagoa, em cujos arredores, além de muita caça, existe grande
quantidade de gado bravios, provavelmente, oriundos de rezes que se perderam em
épocas remotas e que para ali se dirigiam, impellidas pela sede.
Quando
os índios das Aldeias Altas e Trizidella, incomodados com a presença dos
primeiros povoadores da actual cidade de Caxias, deixaram as margens do
Itapecuru, estabeleceram-se, pela primeira vez em torno dessa lagôa, segundo a
narrativa de um de seus descendentes, que morou no município de Caxias.
Pelo
volume inextinguível de suas aguas, pela fartura de peixes e pela fertilidade
dos terrenos contigios, a lagôa da Matta, hoje despovoada, será, certamente,
para o futuro, um grande centro de lavoura e criação. Tem um colossal
sangradouro – o rio Codó, que a põe em perene comunicação com o Itapecurú.
Na
zona do Japão, encontra-se alguns terrenos alagadiços, nos quaes se pode
cultivar, proveitosamente, a canna de assucar.
Existe
ainda, uma grande quantidade de maniçoba brava, muito leitosa, conforme
experiências feitas nas proximidades de Picos, pelo esforçado agricultor
Delfino Calvo.
E
como estas, muitas outras terras, egualmentes ubérrimas, jazem em completo
abandono, á espera de braços e ferramentas que as revolvam e de vias de
transporte que as ponham em contacto com os centros commerciaes do futuroso
Estado nortista.
Multipliquem-se
os meios de transporte, e o systema rotineiro empregado na lavoura será, pouco
a pouco, substituído pelos processos scientificos adoptados na agricultura dos
Estados progressistas.
Faça-se
a linha férrea do Tocantins e o Maranhão terá dado um salto gigantesco passo
para a debelação da crise financeira que lhe vem, de há muito, amortecendo as
energias vitaes.
Para a consecução de tão indispensável quão urgente melhoramento, torna-se preciso que a representação maranhense se decida a trabalhar nesse sentido, com perseverança e calor, a fim de que se torne uma realidade essa sonhada estrada de penetração, que até agora tem vivido a vida lethargica dos projectos e estudos mystificadores.
Pedro Oliveira
FONTE: JORNAL
DO BRASIL– Domingo, 21/03/1915; Ano:
1915; Edição: 00080. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_03&Pesq=Mata%20do%20Jap%c3%a3o&pagfis=2887.
[Acesso em:
15/05/2026].
Interpretando a fonte histórica...
1. Um Maranhão entre o passado glorioso e o atraso presente
Logo no início, Pedro Oliveira afirma que o Maranhão era uma “terra de esperanças”. Essa expressão revela um sentimento ambíguo: ao mesmo tempo em que o autor reconhece que o estado vivia um período de estagnação econômica, ele acredita no potencial de recuperação e crescimento.
O texto lembra que o Maranhão já havia sido rico e importante no passado, especialmente durante os séculos XVIII e XIX, quando a produção agrícola — principalmente algodão e arroz — impulsionava a economia maranhense. Porém, em 1915, o autor observa que o estado permanecia “immovel” diante do progresso de outras regiões brasileiras.
Para Pedro Oliveira, o progresso dependia de quatro elementos principais:
- ampliação dos meios de transporte;
- construção do porto de São Luís;
- ocupação das terras consideradas “desabitadas”;
- expansão e melhoria da educação no interior.
Grande parte do artigo é dedicada à defesa da construção de uma ferrovia ligando o interior do Maranhão à região do Tocantins.
Pedro Oliveira descreve as dificuldades enfrentadas pelos sertanejos:
- longas viagens pelos sertões;
- transporte lento do algodão;
- deslocamento difícil das boiadas;
- isolamento dos produtores rurais.
Na visão do autor, sem estradas e ferrovias, o Maranhão continuaria economicamente atrasado.
4. O “sertão” como espaço de riqueza
O texto apresenta uma visão típica do pensamento desenvolvimentista do início do século XX: o interior é tratado como um território rico, fértil e cheio de recursos naturais, mas “abandonado”.
Pedro Oliveira descreve a chamada “zona do Japão”, localizada entre municípios como:
- Caxias
- Codó
- Barra do Corda (no qual os atuais os territórios de Tuntum, Santa Filomena, Presidente Dutra e parte de Graça Aranha se inseriam em 1915)
- Picos (atual Colinas)
Segundo ele, a região possuía:
- matas densas;
- campos para criação de gado;
- terras férteis;
- lagoas abundantes;
- potencial agrícola;
- possíveis riquezas minerais.
O texto também menciona os indígenas das regiões de Aldeias Altas e Trizidela. Entretanto, a abordagem reflete a mentalidade dominante da época: os povos indígenas aparecem apenas como parte do passado da ocupação territorial.
Pedro Oliveira não discute os direitos indígenas nem os impactos da expansão econômica sobre esses povos. Pelo contrário, o avanço das ferrovias e do povoamento é tratado como inevitável e positivo.
Outro aspecto importante é a defesa da substituição das práticas agrícolas tradicionais por métodos considerados “científicos”.
O autor acreditava que melhores transportes, maior integração econômica, contato com centros comerciais, permitiriam modernizar a agricultura maranhense.
Essa ideia estava alinhada ao pensamento positivista e modernizador da Primeira República, que valorizava técnica, ciência e produtividade.
7. Crítica política
O texto também possui um tom de cobrança política. Pedro Oliveira responsabiliza os governos e os representantes maranhenses pela falta de investimentos e pela lentidão dos projetos.
Quando fala da ferrovia do Tocantins, ele denuncia os “projectos e estudos mystificadores”, criticando promessas que nunca saíam do papel.
Essa crítica demonstra que muitos projetos de integração do interior brasileiro já eram discutidos há décadas, mas enfrentavam:
- falta de recursos;
- interesses políticos;
- abandono estatal.
8. Conclusão interpretativa
O artigo de Pedro Oliveira é um importante documento histórico porque revela:
- o pensamento das elites intelectuais maranhenses em 1915;
- a preocupação com o atraso econômico do Maranhão;
- a crença no progresso através da infraestrutura e da modernização;
- o interesse pela ocupação econômica do sertão;
- a valorização das riquezas naturais do interior maranhense.
Ao mesmo tempo, o texto também mostra limites típicos da época:
- visão utilitária da natureza;
- apagamento dos povos indígenas;
- ideia de desenvolvimento baseada apenas na exploração econômica.
Assim, “Pelo Maranhão” não é apenas uma defesa das ferrovias: é um retrato das esperanças, projetos e contradições do Maranhão no início do século XX.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
O MARANHÃO E A MATA DO JAPÃO EM 1915
"Pedro José de Oliveira é uma das figuras mais notáveis de Passagem Franca. Fez escritor. Comerciante em São Luís, além de jurista. Um dos fundadores da Faculdade de Direito do Maranhão, hoje da UFMA. Foi prefeito de São Luís. É patrono de nossa cadeira 31 (APAGEFRAN).
PELO MARANHÃO
O
Maranhão é, incontestavelmente, uma terra de esperanças.
Foi grande e próspero nos tempos
passado, teve filhos que lhe glorificaram o nome e braços que lhe impulsionaram
as indústrias.
Hoje permanece immovel ante a
febre de progresso que agita muitas outras circumscripções da Federação
Brasileira. Entretanto, amanhã poderá continuar a sua marcha evolutiva, porque
não lhe faltam filhos dos mais ilustres e terras das mais soberbas e férteis.
Basta que os Governos se
empenhem, sincera e resolutamente, na resolução dos magnos problemas de que
depende o futuro e a grandeza do valoroso Estado, e que são: - a multiplicação
dos meios de transporte, a construcção de porto de São Luiz, a colisação das
terras desabitadas e a divulgação e aperfeiçoamento do ensino nas diversas
localidades do interior.
Destes serviços, o mais urgente
é, sem dúvida, o que se refere ao transporte.
Quem já viajou pelos sertões
maranhenses soffrendo as ríspidas provações de uma longa e erma travessia; quem
observou a morosidade e crueza da conducção de algodão em dificultosos
comboios; quem contemplou o desfilar lento e caçando numerosas boiadas que
descem do alto sertão para as feiras do Arary, Itapecurú e Vargem Grande, ou
para os portos da Gambarra, do Ambude, da Inveja, etc.; quem já sentiu de perto
os queixumes dos lavradores e criadores contra o abandono que se vêem, não pode
deixar de reconhecer a necessidade do estabelecimento de vias férreas,
principalmente nas zonas, não atravessadas pelos rios.
A estrada de ferro de São Luiz a
Caxias, pouca utilidade apresentará por enquanto. Os gêneros produzidos pelos
municípios as margens do Itapecurú, transportam-se facilmente para a capital,
por meio de embarcações a vapor, que, em qualquer época do anno, chegam até a
cidade de Caxias. De modo que essa estrada era, para todas as razões, adiável.
Do que o Maranhão precisa, e sem
demora, é uma linha ferrea, que partindo de qualquer ponto do Itapecurú, vá
desbravar as mattas do Japão e desvendar as variadas riquezas que se estendem
desde as altura de Barra do Corda até as fertilíssimas terras do Tocantins.
Além de grandes minas ainda
inexploradas, há em todo o interior do Estado innumeras regiões de terras
desconhecidas, e cujo povoamento só mais tarde se podem effectuar.
Destaca-se, entre outras, a zona
do Japão que se alonga pelos municípios de Caxias, Codó, Barra do Corda e
Picos. É um vasto carrasco, entrecortado de exuberantes mattas densas, tabocaes
e campos adequados para a criação de gado. Terreno mais ou menos plano, apenas
levemente encrespado na volumosa faixa que avança para Picos e Barra do Corda,
continua inculto na sua quase totalidade. Contudo, contam-se povoados florescentes,
como os de Santo Antônio, Curador e alguns outros, que attestam a superioridade
das terras do Japão. É ahi que se oculta a importante lagoa da Matta, que é
desconhecida dos maranhenses.
Sabe-se que um velho e arrojado
caçador daquella baudas, depois de dura caminhada através do carrasco,
conseguiu encostar, pouco depois de 1890, num dos recantos da famosa lagoa, em
cujos arredores, além de muita caça, existe grande quantidade de gado bravios,
provavelmente, oriundos de rezes que se perderam em épocas remotas e que para
ali se dirigiam, impellidas pela sede.
Quando os índios das Aldeias
Altas e Trizidella, incomodados com a presença dos primeiros povoadores da
actual cidade de Caxias, deixaram as margens do Itapecuru, estabeleceram-se,
pela primeira vez em torno dessa lagôa, segundo a narrativa de um de seus
descendentes, que morou no município de Caxias.
Pelo volume inextinguível de
suas aguas, pela fartura de peixes e pela fertilidade dos terrenos contigios, a
lagôa da Matta, hoje despovoada, será, certamente, para o futuro, um grande
centro de lavoura e criação. Tem um colossal sangradouro – o rio Codó, que a
põe em perene comunicação com o Itapecurú.
Na zona do Japão, encontra-se
alguns terrenos alagadiços, nos quaes se pode cultivar, proveitosamente, a
canna de assucar.
Existe ainda, uma grande
quantidade de maniçoba brava, muito leitosa, conforme experiências feitas nas
proximidades de Picos, pelo esforçado agricultor Delfino Calvo.
E como estas, muitas outras terras,
egualmentes ubérrimas, jazem em completo abandono, á espera de braços e
ferramentas que as revolvam e de vias de transporte que as ponham em contacto
com os centros commerciaes do futuroso Estado nortista.
Multipliquem-se os meios de
transporte, e o systema rotineiro empregado na lavoura será, pouco a pouco,
substituído pelos processos scientificos adoptados na agricultura dos Estados
progressistas.
Faça-se a linha férrea do
Tocantins e o Maranhão terá dado um salto gigantesco passo para a debelação da
crise financeira que lhe vem, de há muito, amortecendo as energias vitaes.
Para a consecução de tão indispensável quão urgente melhoramento, torna-se preciso que a representação maranhense se decida a trabalhar nesse sentido, com perseverança e calor, a fim de que se torne uma realidade essa sonhada estrada de penetração, que até agora tem vivido a vida lethargica dos projectos e estudos mystificadores.
Pedro Oliveira
A nossa próxima postagem será uma análise interpretativa desta valiosa fonte histórica. Portanto, aguarde!!!
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quarta-feira, 13 de maio de 2026
A Relevância Histórica da Abolição oficial da Escravidão no Brasil
13 de Maio de 1974: o mais trágico acidente automobilístico da história de Tuntum-MA
Por Jean Carlos Gonçalves.
| Imagem meramente ilustrativa para fins desta publicação. |
Vanduy, 80 anos, estava em pleno gozo de suas faculdades mentais, pois tinha uma memória invejável. Infelizmente nos deixou uma semana após aquela nossa conversa pelo Whatszaap e por ligação direta, vítima de um AVC, ocorrido num logradouro público próximo a sua residência em São Luís-MA.
O conteúdo de nosso diálogo mais uma vez era sobre o tempos idos de Tuntum e o dia 13 de maio evoca muitas lembranças coletivas. Algumas agradáveis, outras tristes, aliás, trágicas e, mesmo ante aos dissabores compreendo que não se pode abdicar de lembrar. Pois reconhecemos que a morte e as tragédias assumem significados além da dor e do sofrimento. Para os existencialistas, como Albert Camus, o sofrimento não possui um significado pronto; o ser humano é quem constrói sentido diante do absurdo da vida. Outros filósofos, como Friedrich Nietzsche, entendiam que a dor pode fortalecer, amadurecer e revelar profundidades da existência que o conforto nunca mostraria. Na psicologia, especialmente em estudos sobre luto e resiliência, observa-se que algumas pessoas conseguem transformar experiências traumáticas em crescimento humano: valorizam mais os vínculos, desenvolvem empatia, mudam prioridades ou passam a enxergar a vida com maior profundidade. Isso não torna a tragédia “boa”, mas mostra que algo positivo pode nascer depois dela. Historicamente, tragédias coletivas também costumam gerar memória, união e consciência social. Muitas comunidades fortalecem sua identidade ao preservar a lembrança de perdas dolorosas. Monumentos, livros, homenagens e relatos históricos existem porque os vivos tentam dar sentido à ausência dos que partiram.
Amante da cultura, o também ex-professor de matemática do Grupo Escolar do Maranhão (Colégio Bandeirante), Vanduy se tornou um precioso amigo e interlocutor sobre a memória coletiva tuntuense, e, uma das temáticas mais provocadas por mim sempre foi o fatídico e mais trágico acidente automobilístico da história de Tuntum-MA.
O dia 13 de maio de 1974 permanece gravado na memória do povo de Tuntum como uma das datas mais dolorosas de sua história. Naquela manhã, um grupo de servidores municipais e professoras seguia viagem rumo a São Luís-MA, em missão ligada à administração pública e à educação. O destino, porém, foi interrompido por uma tragédia que abalaria profundamente toda a sociedade tuntuense.
Segundo Vanduy Morais, que à época além de vereador e presidente da Câmara Municipal, era responsável pelo emplacamento dos veículos do município, também deveria partir naquela madugada de segunda-feira, porém fora convencido por Zeca Coelho, a ficar e, aasim, priorizar a ida de senhoras que tinham pedências mais urgentes a resolver na Capital. O vereador concordou e aceitou serenamente a justificativa.
O ex-vereador Edino Gonçalves relatou que conversou com Zeca Coelho, juntamente com o também saudoso, Mestre Elias, até altas horas da noite que antecedeu a viagem. Gonçalves presenciou quando o primeiro-cavalheiro, convidou a Dona França para fazer a viagem, determinando que a Prefeita Rita Maria, permanecesse na cidade, o que não a agradou, contudo, aceitou. Edino, também relatou que o motorista oficial era o Dedé do Leó, mas em razão das pazes celada entre os irmãos Zeca Coelho e Luis Coelho Neto, o Coelho, que tiveram um pequeno desentendimento, também ficou acertado que Dedé não seria o motorista da viagem, o Coelho.
| Recebendo um mimo de meu dileto amigo e guardião da memória de Tuntum, Edino Gonçalves. |
| Professora Gilza Leda, foi convidada para fazer a viagem, mas decidiu ir noutro veículo dias antes. |
Entretanto, cerca de 5 quilômetros antes da cidade de Miranda do Norte, na BR-135, o veículo em que estavam colidiu violentamente com um caminhão. O impacto foi devastador e provocou a morte de seis ocupantes, além de deixar uma sobrevivente gravemente ferida.
As vítimas fatais foram:
- José Pinheiro Coelho, contador, filho de Alípio e Ana Rita Pinheiro e esposo da então prefeita Rita Maria Saraiva Pinheiro;
- Luís Coelho Neto, o Coelho, contador, irmão de José Pinheiro e motorista do veículo no momento do acidente;
- Marina Morais, professora e secretária do Ginásio Comercial;
- Maria do Socorro Saraiva, professora e esposa do padeiro Osano Saraiva;
- Aparecida Lima, professora e esposa de Antônio Soares Teixeira, o “Teixeirinha”, vice-prefeito (1977-1983), irmão do ex-prefeito Bento Teixeira;
- Aldaíres, costureira bastante conhecida na cidade.
A única sobrevivente foi a comerciante Dona Francisca Ferreira, conhecida popularmente como “França do Neném Barateiro”. Embora tenha sobrevivido ao acidente, carregou sequelas físicas e emocionais pelo resto da vida, vindo a falecer apenas em janeiro de 2023. Sua trajetória tornou-se símbolo vivo da dor e da resistência diante daquela tragédia.
Edino recebeu a notícia pelo rádio. A notícia correu, se espalhou como um um rastíliho de pólvora. Vanduy estava em sala de aula no Colégio Bandeirante. A informação é de que não havia sobreviventes. Morais saiu rápido para Presidente Dutra, onde encontrou a vereadora Maria Amélia Carneiro, a Maroca, que já munida de informações mais precisas lhe confirmou a tragédia.
O acidente causou enorme comoção em Tuntum. Em uma época em que as estradas eram precárias e os recursos de socorro limitados, notícias como essa se espalhavam rapidamente entre famílias e vizinhos, mergulhando a cidade em profundo luto. Muitas das vítimas eram pessoas bastante conhecidas e estimadas, ligadas à educação, à administração pública e à vida social do município.
Os corpos foram velados no auditório do antigo prédio da prefeitura, com excessão de Zeca, que fora velado em sua residência a pedido da jovem esposa, a prefeita Rita Maria. Vanduy afirmou que nunca tinha visto tanta gente num cortejo. Indubitavelmente, a cidade mergulhou numa profunda tristeza e comoção.
Mais de cinco décadas depois, o episódio ainda é lembrado por moradores antigos como o mais grave acidente automobilístico envolvendo munícipes tuntuenses. A tragédia marcou uma geração inteira e permanece como memória coletiva de um tempo difícil, quando sonhos foram interrompidos de maneira abrupta na estrada que levava à capital maranhense.
De modo algum, queremos aqui reduzir o impacto trágico do maior acidente automobilítico em solo tuntuense, que ocorreu em setembro de 2024, quando cinco pessoas da mesma família do povoado Ipu-Iru morreram após um veículo Celta colidir com um caminhão na BR 226. Entretanto, pela quantididade de vítimas, pelas circunstâncias e contexto histórico, o fatídico acidente de 1974 é muito lembrado e deve ser objeto de conhecimento das futuras gerações.
Recordar os nomes dessas vítimas, inclusive agora do meu saudoso amigo Vanduy Moroais e de tantos outros citadinos que viveram e ainda rememoram com consternação um fato tão marcante é também preservar a história de Tuntum e homenagear pessoas que faziam parte da construção social, educacional e humana do município. O 13 de maio de 1974 continua sendo uma data de silêncio, saudade e respeito na memória do povo tuntuense.



