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quinta-feira, 25 de junho de 2026

ASTOLFO SEABRA DE CARVALHO E O RETRATO DAS CARÂNCIAS DE TUNTUM EM 1960

 Por Jean Carlos Gonçalves

Astolfo Seabra de Carvalho, primeiro presidente da Câmara Municipal de Tuntum-MA. Eleito em 1958.

"CÂMARA MUNICIPAL DE TUNTUM

ESTADO DO MARANHÃO

MENSAGEM 

Câmara municipal de Tuntum, do Maranhão, na pessoa de seu presidente, abaixo assinado, tem a súbita honra de registrar a passagem do jorna lista José Linhares, pelo Distrito de Santa Filomena, dêste Município. É a primeira vez que Santa Filoimena tem a satisfação de hospedar um profissional de imprensa e o faz na pessoa dêste arrojado municipalista, jóvcm incansável pelo ideal progressista e renovador, que faz dos municípios brasileiros o seu próprio lar.

José Linhares, dinâmico diretor ele o jornal "O Governo", "Jornal que divulga o que sabe, porque sabe o que divulga", ora percorre os municípios maranhenses e, como um bom médico a esculta detalhadamente o seu cliente - no caso, as autoridades municipais e o seu povo em geral, se informando de suas necessidades, servindo, ao mesmo tempo de nossos· intérpretes, junto aos poderes Federal e Estadual, através das colunas elo seu vibrante jornal.

Com sua permanência entre nós, pôde constatar o nosso sofrimento ante a necessidade reinante em nosso município, de várias realizações, o que me leva, aproveitando a oportunidade que me é dada, através das coluna de "0 Govêrno" apelar, em meu nome e de meus pares ao governos Federal e Estadual no sentido de ser criada no município uma agência postal telegráfica, pequeno ramais piçarrados que ligue os povoados e distritos à Estrada de São Luís a Brasília; um pôsto-médico para prestar assistência à população do município que vive ao desamparo; criar uma verba para construções de pequenos açudes nas zonas mais necessárias bem como os povoados de S . Pedro, Marajá, Maribondo e Rosendo, além de auxílio para a conclusão elo açude de Santa Filomena, que já está com sua construção bem avançada. Também há necessidade da criação de Grupos Rurais nos povoados importantes como Nazaré, Belém, S. Miguel, S. Lourenço, Veneza e S. Bento.

Na certeza de que o bravo jornalista diretor de "0 Govêrno" transmitirá o apêlo ora feito, aproveito a oportunidade para, em meu nome e no ele meus pares, desejar-lhe o mais completo êxito na sua cruzada, municipalista.

Santa Filomena, Distrito do Município de Tuntum, 11 de janeiro de 1960 .

ASTOLFO SEABRA DE CARVALHO

Presidente da Câmara Municipal de Tuntum."

(Jornal O GOVERNO, publicação de 04 de julho de 1960, p 10. Entrevista concedida em 11 de janeiro do mesmo ano)


Uma breve análise do documento histórico

O documento, datado de 11 de janeiro de 1960, constitui uma importante fonte histórica para compreender a realidade socioeconômica e política do município de Tuntum no início da década de 1960. Redigido pelo presidente da Câmara Municipal, Astolfo Seabra de Carvalho, o texto revela as principais carências enfrentadas pela população local e a forma como os líderes municipais buscavam apoio dos governos estadual e federal para promover o desenvolvimento da região.

A mensagem foi escrita por ocasião da visita do jornalista José Linhares ao distrito de Santa Filomena. O tom elogioso empregado pelo presidente da Câmara demonstra a importância atribuída à imprensa como meio de dar visibilidade aos problemas dos municípios do interior.

O jornalista é apresentado como um "municipalista", isto é, alguém comprometido com a defesa dos interesses dos municípios brasileiros. Sua atuação é comparada à de um médico que examina cuidadosamente seus pacientes, ouvindo autoridades e moradores para identificar suas necessidades. Essa metáfora evidencia a expectativa de que a imprensa pudesse servir de ponte entre as comunidades interioranas e os centros de decisão política.

O documento oferece um diagnóstico bastante claro das dificuldades enfrentadas pelo município. Entre as reivindicações apresentadas destacam-se:

 

Instalação de uma agência postal e telegráfica;

Construção de estradas piçarradas ligando povoados e distritos à rodovia São Luís–Brasília;

Criação de um posto médico;

Construção de pequenos açudes para abastecimento de água;

Conclusão do açude de Santa Filomena;

Implantação de escolas rurais (Grupos Rurais) em diversos povoados.

 

Essas solicitações revelam um município ainda marcado por grandes limitações em infraestrutura, comunicação, saúde, educação e abastecimento hídrico. O texto demonstra que muitos serviços considerados básicos atualmente ainda eram escassos ou inexistentes em grande parte do território tuntuense.

A insistência na construção de açudes indica que o acesso à água era uma preocupação central da população. O Maranhão central, especialmente em áreas sujeitas a períodos de estiagem, dependia dessas obras para garantir o abastecimento humano e a produção agropecuária.

A referência ao açude de Santa Filomena, já em fase avançada de construção, sugere que a comunidade via nessa obra uma esperança concreta de melhoria das condições de vida locais.

Outro aspecto relevante é a solicitação de Grupos Rurais em povoados importantes do município. A demanda demonstra a expansão populacional dessas localidades e a crescente necessidade de escolarização das crianças.

A educação aparece como elemento fundamental para o progresso social, revelando que as lideranças locais compreendiam a escola como instrumento de desenvolvimento e integração das comunidades rurais.

O documento também evidencia a forte dependência financeira e administrativa dos municípios brasileiros em relação aos governos estadual e federal. A Câmara Municipal não apresenta soluções próprias para os problemas apontados, mas dirige um apelo às esferas superiores de governo.

Isso reflete a limitada capacidade de investimento dos municípios do interior na época, que dependiam de recursos externos para realizar obras e implantar serviços públicos.

 

Diante do exposto podemos concluir que a mensagem da Câmara Municipal de Tuntum, assinada pelo então presidente Astolfo Seabra de Carvalho, constitui um valioso testemunho histórico sobre as condições do município em 1960. O texto revela uma sociedade em processo de desenvolvimento, marcada por carências estruturais, mas também por expectativas de progresso. Ao registrar as demandas por estradas, saúde, educação, comunicação e abastecimento de água, o documento permite compreender os desafios enfrentados pelas comunidades rurais tuntuenses e o papel desempenhado pela imprensa e pelas lideranças locais na busca por melhorias. Mais do que um simples pedido de auxílio, a mensagem representa um retrato das prioridades e aspirações do jovem município de Tuntum em um período de transformação e modernização do interior brasileiro, especialmente, com a Construção de Brasília.

 Até breve!!!


sexta-feira, 19 de junho de 2026

O Alicerce Intelectual: O Magistério que Construiu Tuntum

 Por Remy da Mata*


    Tuntum consolidou-se e se destaca como um polo econômico de destaque entre os 217 municípios do Maranhão. Hoje, ao observarmos a pujança do nosso agronegócio, a força da pecuária e a moderna infraestrutura do nosso comércio varejista — que nos coloca como referência regional logo após Presidente Dutra — é natural admirarmos o presente. Contudo, para compreender a verdadeira alma dessa evolução, é imperativo olhar além dos indicadores econômicos e retroceder ao alicerce invisível sobre o qual nossa cidade foi erguida: o magistério feminino.

    Se hoje colhemos o sucesso no coração do Maranhão, é porque houve, nas décadas de 50, 60 e 70, uma sementeira de dedicação. Em tempos em que os recursos educacionais eram escassos ou inexistentes, nossas professoras não apenas alfabetizavam; elas institucionalizaram o saber e moldaram o caráter de uma geração.

As Pioneiras da Educação
Professora Terezinha Almeida
    Nomes como Terezinha Almeida, Raimunda Granjeiro, Nazaré Gregório, Ditinha Saraiva, Mariinha Torres, Teresa Moraes, Dona Dulce, Maria Ducarmo, Norma, Olinda Ribeiro Galvão, Filomena Arruda, Albaniza, Francisca Ferreira, Maria Branca, Marina Dó, Zélia Moreira, Inez Jacinto, Francisca Bezerra, Maria Oneide, compõem o panteão de gigantes que transformaram a precariedade de salas improvisadas em um templo de conhecimento. A elas, junta-se o notável Professor Bonfim, caprichoso cultor da nossa língua portuguesa, cuja didática deixou marcas profundas.
Prédio da Escola Reunida Isaac Martins, 1959.
Fonte: IBGE.
    A partir de 1969, essa força docente se fortaleceu com a chegada de novas educadoras — como Belinha Carvalho, Maria da Luz, Zélia, Izabel Andrade, Aparecida Teixeira, Marina Batista, Pedrina Brito e Linocy Cunha — e com o trabalho missionário e pedagógico das Freiras Franciscanas: Irmãs Nazaria, Loreto, Gualberta e Inês. Somadas às professoras(o) Almir Lacerda, Mazinha Ferreira, Libania Cunha, Salete Seabra, Brauniene Medeiros, Lourival Tavares e Albertina, que abraçaram o ofício, essas mulheres formaram a primeira "infraestrutura" de Tuntum.

O Legado de Permanência
    Enquanto a infraestrutura física constrói o presente, a educação constrói a permanência. Ao lecionarem, elas incutiram em seus alunos não apenas a escrita e a leitura, mas valores de civismo, ética do trabalho e a audácia de sonhar com um futuro melhor. Elas alteraram a mentalidade de toda uma comunidade, pavimentando o caminho para o protagonismo que Tuntum exerce hoje.

    Para quem, como eu, dedica-se ao estudo e à valorização das personalidades que edificaram nossa terra, fica uma lição clara: o sucesso de Tuntum é fruto do capital intelectual semeado por essas pioneiras. A história de Tuntum é feita de mãos fortes e visões audazes, frequentemente femininas, que entenderam que nenhum desenvolvimento é sustentável sem o lastro do conhecimento.

Um Apelo à Memória
    Tuntum é uma cidade que madruga, eficiente, afetiva e transparente. Que os nossos gestores e legisladores não esqueçam de olhar para o passado para melhor projetar o futuro. Cada esquina de nossa cidade guarda uma história, e cada história é um pedaço do nosso coração.

      Homenagear Terezinha Almeida, Raimunda Granjeiro, Professor Bonfim e todos os seus contemporâneos não é apenas um ato de gratidão; é um exercício de reconhecimento da nossa própria força, valorização dos atuais professores é de salutar importância.

    Que o legado dessas gigantes do passado, com o giz na mão, a lousa repleta de ensinamentos, com os olhos no horizonte, visualizando o nosso futuro, continue a ser a nossa maior bússola.
Remy da Mata

__________
*José Remy Alves e Silva, o Remy da Mata, natural de Tuntum e filho da união das tradicionais famílias da Mata e Benvinda. É escritor de Alto Solimões - Crônicas I e II, Miscelâneas, Inspiração e Crônicas Maçônicas. Atualmente, está aposentado como Superintendente da Infraero no Amazonas, estado que reside atualmente.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

DESCRIÇÃO E SIMBOLOGIA DO BRASÃO DA ATLEA

 Por Jean Carlos Gonçalves

    O brasão da Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes – ATLEA

    O brasão da Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes – ATLEA foi concebido com elementos que representam a identidade cultural, histórica e intelectual de Tuntum, reunindo símbolos ligados ao conhecimento, à produção literária, à educação e ao patrimônio local. A seguir, uma interpretação institucional de suas cores e elementos:

    Descrição Heráldica e Simbólica do Brasão da ATLEA

A Coroa Dourada
    Posicionada na parte superior do brasão, a coroa simboliza a excelência, a dignidade e a nobreza do saber. Representa o reconhecimento do valor da cultura, da educação e das artes como patrimônios superiores da sociedade. O dourado remete à luz do conhecimento, à sabedoria e às conquistas intelectuais.

O Escudo
    O escudo constitui o elemento central do brasão e representa a proteção e a preservação da memória histórica, literária e cultural de Tuntum. É o símbolo da missão da Academia de guardar, valorizar e difundir o legado intelectual do município.

A Cor Azul
    Presente na pena, no livro e na faixa superior, o azul simboliza:
  • Conhecimento e inteligência;
  • Verdade e justiça;
  • Serenidade e equilíbrio;
  • Educação e desenvolvimento humano.
    A escolha dessa cor reforça o compromisso da Academia com a formação intelectual e a produção do saber.

A Cor Branca
    Utilizada nas letras, no mapa e no livro, o branco representa:
  • Pureza de propósitos;
  • Ética e integridade;
  • Paz e harmonia;
  • Universalidade do conhecimento.
    Expressa o ideal acadêmico da busca pela verdade e pelo aprimoramento humano.

A Cor Marrom (Campo Central)
    O fundo marrom do escudo simboliza:
  • As raízes históricas de Tuntum;
  • A terra que sustenta sua população;
  • A ligação com o território e suas tradições;
  • A memória dos pioneiros que construíram a identidade local.
    É uma referência à história, à ancestralidade e ao pertencimento.

O Livro Aberto
    O livro aberto representa:
  • O conhecimento acessível a todos;
  • A educação como instrumento de transformação social;
  • A pesquisa, a leitura e o ensino;
  • A transmissão do saber entre gerações.
    Simboliza ainda a própria produção intelectual dos acadêmicos e educadores.

A Pena de Escrita
    A pena é um dos mais tradicionais símbolos das academias de letras. Representa:
  • A literatura e a criação intelectual;
  • A escrita como instrumento de preservação da memória;
  • A pesquisa histórica e científica;
  • O compromisso dos acadêmicos com a palavra escrita.
    Sua posição sobre o livro reforça a união entre conhecimento e produção cultural.

O Mapa de Tuntum
    Ao centro do brasão encontra-se a silhueta do município de Tuntum, símbolo da razão de existir da Academia. Representa:
  • A identidade territorial;
  • A valorização da história local;
  • O compromisso com a memória coletiva do povo tuntuense;
  • O reconhecimento do município como espaço de produção cultural e educacional.

A Faixa com o Nome da Academia
    A inscrição “Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes” identifica oficialmente a instituição e expressa seus três pilares fundamentais:
  • Letras;
  • Educação;
  • Artes.
O Lema em Latim
    “Maior Litterarum, Educatio et Artis”

    Pode ser interpretado como uma exaltação da grandeza das letras, da educação e das artes, sintetizando os ideais que orientam a Academia.

   O uso do latim segue a tradição das academias e instituições culturais, conferindo solenidade, permanência e universalidade à sua missão.

O Ano de Fundação – 2025
    Registrado na lateral direita, o ano marca o nascimento institucional da Academia, tornando-se referência histórica para as futuras gerações de acadêmicos e estudiosos.

O Fundo Geométrico
    A trama geométrica que envolve o escudo simboliza:
  • A multiplicidade dos saberes;
  • A integração entre diferentes áreas do conhecimento;
  • A construção coletiva da cultura;
  • A expansão contínua da educação e das artes.
    Sugere uma rede de conexões intelectuais que une passado, presente e futuro.

Os dois círculos em preto
    Os dois círculos pretos que envolvem o brasão da Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes simbolizam a proteção, a unidade e a permanência dos valores institucionais. O círculo externo representa a defesa do patrimônio histórico, cultural e educacional de Tuntum, enquanto o círculo interno delimita o espaço do saber, da criação intelectual e da produção artística. Juntos, formam um símbolo de continuidade, expressando a missão da Academia de preservar a memória coletiva e promover o conhecimento como legado permanente para as futuras gerações.

Síntese Institucional 
    O brasão da ATLEA representa a união entre memória, conhecimento, educação, literatura, arte e identidade tuntuense. O mapa de Tuntum, o livro aberto e a pena constituem o núcleo simbólico da instituição, enquanto as cores e demais elementos expressam os valores de sabedoria, ética, cultura, pertencimento e compromisso com a preservação e difusão do patrimônio intelectual do município. Trata-se de um emblema que traduz visualmente a missão da Academia: cultivar as letras, promover a educação, incentivar as artes e preservar a história de Tuntum para as gerações.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

Morre aos 87 anos o historiador italiano Carlo Ginzburg

Por Lilia Schwarez*
Existem historiadores que explicam a história a partir dos grandes acontecimentos e estruturas. Outros, seguem as pistas deixadas por pessoas comuns. O historiador italiano Carlo Ginzburg, que acaba de nos deixar, pertence a esse segundo grupo.

Nascido em 1939, na cidade deTurim, Ginzburg revolucionou a escrita da história ao desenvolver a chamada micro-história: uma forma de investigação que parte de casos aparentemente pequenos para iluminar grandes questões.

Seu livro mais conhecido, “O Queijo e os Vermes” reconstrói a trajetória de Menocchio, um moleiro do século XV que vivia em Friuli na Itália e foi perseguido pela Inquisição. Ginzburg mostrou como é possível trabalhar com arquivos da repressão a partir do conceito de dialogia: reconhecendo como mesmo em posições desiguais é possível recuperar vozes perdidas e diversas. A partir dos interrogatórios da Inquisição, o historiador revelou um universo intelectual complexo, mostrando que a cultura popular não era uma receptora passiva das ideias das elites. Basta ler “História Noturna” para conhecer um ritual do sabá executado por homens na calada da noite.

Ginzburg criou também o “paradigma indiciário”. Inspirado na atividade de caçadores, psicólogos (como Freud) e detetives (como Sherlock Holmes), Ginzburg argumenta que o conhecimento muitas vezes nasce da interpretação de vestígios: um gesto, uma palavra, um ato falho, uma imagem. Como um investigador, o historiador aprende a ler sinais, indícios, pistas.

Exímio crítico de arte, em seu livro sobre Piero de la Francesca desmontou a tela da “Anunciação” a partir de um detalhe de cor presente na figura do filho morto do mecenas que financiou a obra. Com muita sofisticação.

Além de ter tido o privilégio de conhece-lo pessoalmente, considero a obra de Ginzburg uma das minhas maiores referências. Ele era um historiador erudito, inovador, curioso dono de uma metodologia original e muito divertido. Além de uma pessoa gentil, atenta e sempre muito inteligente. “Deus está nos detalhes” dizia ele. A história também …

Vai fazer muita falta. Mas seus livros continuarão ensinando — junto com ele.

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*Antropóloga, historiadora, membra da Academia Brasileira de Letras, professora da USP e de Princeton.

domingo, 14 de junho de 2026

Jornal do Maranhão : Semanario de Orientação Catolica - Jornal a serviço da Familia e do Povo (MA) - 1954 a 1971

Por Jean Carlos Gonçalves

       Em minhas pesquisas tenho encontrado algumas fontes históricas importantes e interessantes acerca do passado do Maranhão e, especialmente, de Tuntum.

   Graças ao advento na internet e a consequente digitalização de acervos documentais, se tornou mais acessível algumas fontes escritas, as quais seria quase impossível de acessar ou ter que fazer longas viagens e, por conseguinte, gastos que indiscutivelmente inibiria a vontade e tentativa de (re)construir uma representação sistêmica dos tempos idos.

    Então, numa dessas investidas à rede, encontrei: O Jornal do Maranhão: Semanário de Orientação Católica (publicado entre 1954 e 1971), que é um objeto de estudo fascinante para compreender a história política, social e religiosa do Maranhão em meados do século XX.

    Para além de sua função estritamente doutrinária , o periódico atuou como um termômetro das intensas transformações que a Igreja Católica e a sociedade brasileira enfrentaram nesse período.

   Como o próprio subtítulo indica(va) ("Jornal a serviço da Família e do Povo"), o semanário nascia com uma missão clara: moldar a opinião pública maranhense sob a ótica dos valores cristãos tradicionais. Em seus primeiros anos (década de 1950), o foco era fortemente voltado para: a defesa da moral da família católica, o combate ao avanço do comunismo e das ideias seculares e a formação religiosa dos fiéis locais.
     O recorte temporal do jornal (1954–1971) abrange um dos momentos mais cruciais da história da Igreja: o Concílio Vaticano II (1962-1965). Esse evento propôs uma modernização e uma maior abertura social para a Igreja no mundo inteiro.

     No Maranhão, sob a liderança de figuras eclesiásticas marcantes (como Dom João José da Mota e Albuquerque e, posteriormente, o alinhamento com correntes da Igreja progressista do Nordeste), a linha do jornal começou a refletir essa transição. O foco, que antes era majoritariamente voltado para o moralismo e a liturgia, passou a dar mais espaço para: a justiça social e os direitos dos trabalhadores rurais, as denúncias das desigualdades socioeconômicas crônicas do estado e a educação de base (fortemente influenciada pelos movimentos de educação popular da época).
         A fase final do jornal coincide com os anos mais duros do regime militar no Brasil. A imprensa católica maranhense, assim como em outras partes do Nordeste, viu-se em uma posição delicada. Se por um lado o jornal defendia a ordem cristã, por outro, o avanço da repressão contra movimentos sociais e setores progressistas da própria Igreja forçou o semanário a adotar tons mais críticos — ou a sofrer as consequências da censura da época.

       O encerramento de suas atividades em 1971 não foi um fato isolado; refletiu o sufocamento de diversos canais de debate e as profundas reestruturações internas pelas quais a Arquidiocese e a mídia regional passavam naquele início de década de 1970.

     Hoje, as edições digitalizadas do Jornal do Maranhão (disponíveis em acervos como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional) são fontes primárias valiosíssimas. Elas revelam não apenas a história da Igreja no Maranhão, mas os costumes da época, os anúncios comerciais da capital, a dinâmica política local e como o cidadão comum maranhense consumia informação e fé em um período de transição global.

     Na edição de domingo, 20 de outubro de 1963, encontrei uma lista de novos assinates do períodico, com nomes de personalidades muito conhecidas e outros que vou precisar da ajuda de vocês para (re)conhecer. Assim sendo, compartilho abaixo e aguardo a gentileza da avaliação ou retorno sobre os nomes que seguem.


       Até breve!


quinta-feira, 11 de junho de 2026

30 anos do adeus do poeta e escritor Olímpio Cruz (1909-1996)

Por Rubem Milhomem*

 Olímpio Martins da Cruz (20 de outubro de 1909 a 11 de junho de 1996) foi a primeira celebridade cultural da história da Barra. O primeiro poeta a ser reconhecido e festejado ainda em vida. Não só porque escreveu obras de excelência, mas porque sua literatura foi além da literatura. No tempo dele não havia internet, lacração de rede social nem dancinha de Tik Tok - influencer era quem tinha cérebro e contribuía decisivamente para a vida pública.

   Cruz foi quem traduziu o espírito do seu tempo e construiu na sua poesia e na sua prosa a identidade moderna da nossa terra, que se descobriu orgulhosa de si mesma e de seus valores. Foi a geração dele que deu à Barra o título de “Princesa do Sertão” (que muito antes era de outras cidades do Maranhão - e muitíssimo antes era de outras cidades do Ceará, mas não só).
   Ele foi o primeiro grande poeta a dedicar sua escrita a temas sobre Barra, seu cotidiano, sua história, sobre o jeito de ser e viver dos cordenses. Sua inspiração por excelência foram os sertões e as selvas, os sertanejos e os indígenas. Em síntese, o mundo no qual ele vivia e efetivamente conhecia. Entre realismo e romantismo, entre denúncia social e puro ufanismo, entre universalismo e bairrismo, colocou a Barra e suas contradições nos livros - para de lá nunca mais sair.
 Cruz dominou como poucos a temática indígena porque trabalhou décadas no SPI, depois renomeado como Funai. Daí vieram livros como “Clamor da Selva”, “Lendas indígenas” (escrita em parceria com Maria de Lourdes Reis) e “Vocabulário de quatro dialetos indígenas do Maranhão” (não houve o crédito no livro e aqui temos de fazer o registro histórico - a obra teve a decisiva colaboração de Nazaré Buritirana, que foi professora na aldeia indígena do Ponto e foi a primeira pessoa a colocar em texto de língua portuguesa, em anotações que fazia em cadernos, a linguagem indígena dos Guajajara e Canela). Cruz recebeu a Medalha Nacional do Mérito Indigenista, na categoria Pacificador, honraria concedida a vultos como Cláudio e Orlando Villas-Boas.
 Ele escreveu a obra definitiva sobre o Massacre de Alto Alegre em 1901 (“Cauiré Imana, o Cacique Rebelde”) porque tinha amplo acesso aos depoimentos orais de sobreviventes e seus descendentes e também a experiência de pesquisa jornalística de quem integrou a redação dos jornais “O Norte” (desde os 13 anos de idade) e “O Limiar” - foi assim que mostrou com isenção que para 111 cristãos mortos (jamais esquecidos porque a história é contada pelos vencedores) houve o assassinato de mais de 300 indígenas Guajajara (dos quais ninguem fala), deixando em aberto a inquietante pergunta sobre quem afinal massacrou quem. Em outro livro importante (Puturã) abordou o Massacre da Aldeia Chinela em 1913, no qual foram mortos mais de 150 indígenas Canela - um prenúncio do futuro Massacre do Sítio dos Arrudas em 1963.
  Cruz discorreu com autoridade sobre o homem sertanejo porque ele próprio foi um - de origem humilde, nascido na Fazenda Soledade, na região de Tuntum, que era povoado da Barra. Sua família não era de fazendeiros, mas de agricultores. Seus pais Zeferino Martins da Cruz e Vicência Craveiro, e seu único irmão Inácio, eram pessoas da roça. Há um poema autobiográfico no qual ele conta que saiu do interior e foi para a cidade, a Barra, a mando dos pais para estudar, mas não estudou - no sentido de que não teve formação acadêmica. Cruz tinha vasta cultura e sólida bagagem literária, mas era autodidata. Teve vida difícil e contava que quando menino chegou a buscar água no rio Corda com a lata na cabeça para encher os potes das donas de casa que lhe pagassem alguns trocados. Seu primeiro contato com a literatura foi lendo restos de folhas de jornais que achava nas ruas. Dessa formação pessoal vieram obras, publicadas ou não, como "Relatório Sertanejo”, “Vaqueiros e Arreios” e “Espinheiros Floridos”, por exemplo.
   Cruz influenciou gerações de poetas, com suas dezenas de livros de originalidade ímpar, poesia doce e inegável apelo às raízes cordenses - colocando abaixo a ideia de que somente gente erudita poderia ser poeta, a exemplo do que concebia a geração anterior à dele, como aquela de Olimpio Fialho. Desse contexto vieram obras como “Canção do Abandono”, "Cinzas do Tempo", “Trovas brancas”, “Retalhos de versos”, “Cantigas de outono”, “Rimas e flores”, entre outras. E assim foram incontáveis os seus discípulos numa longa linhagem cuja relevância foi mais ou menos até os livros do poeta Efe Brandes.
   Cruz tinha tudo para dar errado, pois do ponto de vista formal, fez a poesia da Barra do século 20 - aquela dos sonetos cheios de palavras difíceis e frases indiretas que desafiam a capacidade de leitura da mais destemida das criaturas. O problema dos sonetos é que os autores, literalmente contando sílabas, e devotadamente submissos à ditadura das rimas, em geral colocam a forma do poema acima da mensagem. Daí resulta não raro uma arquitetura sofisticada com pouca densidade de conteúdo. Cruz, porém, escapou dessa armadilha estilística por uma razão básica - tinha o que dizer e falava do que conhecia. E disse e falou. Falou e disse. Salvando os sonetos do cemitério do hermetismo. Ufa.
   Quem ainda não leu, leia. A poesia de Cruz tem música suave, ritmo cantante, métrica precisa, lirismo e conteúdo que alimentam a alma. São versos em valsa em poemas para declamação, pois no tempo dele se declamam poemas em saraus e eventos diversos. Poeta na época dele era figura ilustre que subia ao palco para discursar em tertúlias e vesperais, em festas cívicas e sociais, em bailes iluminados com petromax e serestas palpitantes nas quais borboleteavam os casais.
   Entre os autores clássicos da Barra, à altura dele, em termos literários, só esteve Maranhão Sobrinho - que quase ninguém leu, nem ontem, nem hoje, sejamos sinceros (uma pena - Kissyan Castro fez uma biografia monumental sobre ele). E Sobrinho nunca escreveu sobre a Barra - tem três livros póstumos publicados que na realidade são coletâneas de nítida inspiração européia. Cruz foi quem botou o povo na poesia e fez a poesia ir ao povo. Assim, em mais de um sentido, foi o primeiro poeta popular da Barra.
    Cruz escreveu as letras da “Canção Cordina”, do “Hino de Barra do Corda”, do “Hino do Cordino Esporte Clube” e do “Hino da Escola Pio XI”, cujas músicas foram do maestro maior Moisés da Providência Araújo - o genial e genioso índigena Guajajara, filho de Caetano da Providência, irmão de Ananias da Providência (outro grande músico de quem pouco se fala). Cruz influenciou o teatro, a exemplo de obras suas encenadas pelo grupo do ator e diretor Antônio José Ribeiro. Não há área cultural ou histórica que não tenha alguma repercussão da biografia de Olímpio Cruz. Ele foi inclusive vereador e presidente da Câmara de Vereadores da Barra (seu filho Nonato Cruz foi o único vereador cassado pelo Golpe de 1964). Na política Cruz teve embates, alianças e desalianças com personagens famosos como Perdigão Freire e Galeno Brandes.
   Cruz é patrono da Academia de Letras da Barra e foi membro fundador do Grêmio Cultural Maranhão Sobrinho e do Grêmio Machado de Assis, todos na terra cordense. Foi também membro da Academia de Letras de Brasília e da Academia Maranhense de Trovas.
Tive a honra de conhecer pessoalmente Olímpio Cruz. Ele foi meu padrinho de batismo e meu tio, casado com a tia Maria Gato, irmã da minha mãe Neuzinha Gato. Pai dos meus primos Nonato (falecido), Dalva, Dinalva, Lindalva e Olímpio Júnior - além de Rosilda, minha madrinha de batismo, que trabalhou décadas com ele, foi criada por ele e que se considera filha adotiva dele com todo louvor. Morei na casa dele por algum tempo no número 54 da Quadra 6 do Guará I, quando vim da Barra para o DF. Era um homem afável, terno, gentilíssimo. Como além de famoso era muito agregador, sua residência era uma verdadeira embaixada da Barra no DF - todo conterrâneo passava por lá para alguma visita, algum almoço, algum café. Sempre tinha a conversa comprida e animada.
   Lembro de seus últimos dias de vida. Esteve sereno até o fim. Margeando algum lugar entre o céu e a terra, dizia ver muitas crianças correndo pela casa - não havia crianças na casa. Certa vez passou um tempo considerável sozinho no portão como se conversasse com alguém e quando voltou falou com alegria que tinha acabado de receber a visita de Galeno Brandes, que havia morrido antes dele. Que tal? Olímpio Cruz partiu muito bem acompanhado. Pelos vivos e pelos mortos. Dele se pode dizer verdadeiramente - foi o homem, ficou a obra. Esse, aliás, é o conceito de quem é imortal. Palmas.



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*Rubem Milhomem é escritor e poeta, mora em Brasília (DF)
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Notas da Redação:
- As fotos em mosaico são do acervo do Rubem Milhomem;
- Na sexta-feira (12), é a vez do poeta Francisco Brito, afilhado do Olímpio Cruz, poeta maior de Barra do Corda.

MAIS QUE COPA DO MUNDO - GUERRAS E CONFLITOS DA GEOPOLÍTICA SEMPRE TABELARAM COM A COPA DO MUNDO

 















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FONTE:https://www.uol.com.br/flash/c=d5115574715f98b69e5e3356da1fb72a20260611 - [Acesso em 11/06/2026, às 10h:43min]