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quarta-feira, 3 de junho de 2026

III PARTE – O ALGODÃO NO MARANHÃO

 Por Moema de Castro Alvim*


    Até meados do século XX, o algodão foi o produto econômico mais importante do Maranhão. Nos séculos anteriores foi utilizado na fabricação de roupas de colonos e de escravos. A partir da segunda metade do século XVIII, em decorrência da Revolução Industrial na Inglaterra, ocasionando grande desenvolvimento na fabricação de tecidos para atender a grande demanda europeia, houve uma corrida para os centros produtores da malvácea. O algodão brasileiro, pelos preços razoavelmente baixos teve uma grande procura, sendo produzido nas lavouras nordestinas, principalmente do Maranhão, considerado um dos melhores. Como consequência houve uma importante acumulação de capital, representando um fator determinante das diferentes fases do desenvolvimento do estado.
   O ciclo econômico do algodão, essencialmente em nosso estado, iniciou-se e desenvolveu-se no modelo mercantilista, com a utilização da mão-de-obra escrava, constituída por negros africanos, cuja aquisição foi financiada pela Companhia do Comércio do Maranhão, criada em 1682 para promover a Colônia, com base na monocultura.
   No século seguinte (1755), no governo de D.José I, foi criada a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão que assentou as bases e definiu a nossa vocação agrícola para fornecimento de produtos para a Coroa e outros mercados europeus.
    Em 1895 existiam 27 unidades fabris, sendo 17 pertencentes a Sociedades Anônimas e 10 a particulares. Desse total, 10 fabricavam e teciam; 1 só de fiação; 1 de cânhamo, 1 de tecidos de lã e sedas e 1 de meias. Além da indústria têxtil, havia 1 de fósforo, 1 de chumbo e pregos, 1 de calçados, 1 de produtos de cerâmicas, 4 de pilar arroz, 2 de pilar arroz e fabricar sabão, 1 só de sabão e 2 de açúcar e aguardente.
  A 1ª a ser instalada fora a Companhia Industrial Caxiense, em 1887, com capital de 1000 contos de reis, incorporada pelo dr. Francisco dias Carneiro e era munida de 130 teares manipulados por 250 operários, produzindo tecidos crus e tintos.
  Em 1889 foi instalada a União Caxiense, investimento de 850 contos de reis, 220 teares e 350 operários, fabricando tecidos crus. O dr. Dias Carneiro também participava deste empreendimento com mais dois empresários, Antônio Joaquim Ferreira Guimarães e Manuel Correia Bayma do Lago.
  Mais tarde, Caxias contou com a Fábrica Sanharó, com investimento de 150 contos de reis, 26 teares, 60 operários, fabricando panos de algodão.
   Em São Luís a 1ª fábrica foi aberta em 1890. Era a Companhia de Fiação e Tecidos Maranhenses, na Camboa do Mato, às margens do Rio Anil. Investimento inicial de 1.200 contos de reis, 300 teares produzindo tecidos em geral, riscados grossos e finos e fios em novelos.
    A Companhia de Fiação e Tecidos Cânhamo, foi instalada em 1891 com capital de 900 contos de reis, 105 teares para fabricar tecidos de cânhamo ou juta.
 A Companhia Progresso Maranhense, instalada em 1892, empregava 160 operários que trabalhavam em 150 teares, fabricando panos de algodão.
  A Companhia Fabril Maranhense Santa Isabel, começou com um capital de 1.77 contos de reis, 450 teares manipulados por 600 operários que fabricavam riscados e domésticos de algodão.
   Em 1893 foi inaugurada a Companhia de Fiação e Tecidos Rio Anil, com investimento de 1.600 contos de reis, 172 teares, 60 máquinas de fiação e 18 de branqueamento, 209 operários fabricavam morins e madapolões. Eram seis sócios nesse empreendimento: Antônio Cardoso Pereira, Francisco Xavier de Carvalho, Manuel José Francisco Jorge, José Francisco Viveiros, Jerônimo Tavares Sobrinho e o escocês Henry Arlie, cônsul da Grã-Bretanha.
      Ainda nesse ano foi instalada em São Luis a Fábrica de Tecidos de Malha Ewerton, empregando 30 operários que fabricavam meias e tecidos para camisas.
 Em Codó foi instalada a Companhia Manufatureira e Agrícola, com um investimento de 100 contos de reis, 150 teares, fazendas, fios e cordas e empregando 250 operários.
  Em 1894 foi inaugurada, em São Luis, a Companhia Industrial Maranhense, com capital de 250 contos de reis, empregando 50 operários que fabricavam fios, punhos e linhas de pesca.
  A Companhia de Lanifícios Maranhenses Santa Amélia, com investimento de 600 contos de reis, instalada em 1892, começou a funcionar em 1895. Fabricava tecidos de lãs, sedas e algodão, em 22 teares manuseados por 50 operários. Foi arrematada pelo empresário Cândido Ribeiro que morreu na década de 1930, antes da fábrica atingir o auge, entre as décadas de 50 e 60. Fabricava riscados e brins e funcionou até 1966.
  Algumas fábricas não resistiram à crise resultante da I Guerra Mundial encerrando essas atividades, diversificando-as para o babaçu, a essa época, no auge do seu beneficiamento para exportar para os países em guerra. A extração da borracha, no Amazonas, atraia levas de nordestinos, principalmente maranhenses, em busca de uma atividade mais promissora.
   Em 1921, após o fim do conflito, a indústria têxtil maranhense contava com um capital investido na ordem de 8.028 contos de reis, 3.537 operários 2.336 teares e 71.608 fusos, com uma produção estimada em 11.776 metros de tecidos.
   Desde o Período Colonial até o século XX, o Brasil centrou sua atividade econômica no cultivo de produtos primários, para exportação. O Maranhão não chegou a participar dos grandes ciclos econômicos, pelos percalços enfrentados, devidos, principalmente, às oscilações do mercado importador. Diferente dos ciclos da cana-de-açúcar, do ouro e do café, o algodão era cultivado quase que exclusivamente para suprir o mercado interno. 
    Esse modelo agroexportador permaneceu até a ruptura do modelo econômico, vigente até a República Velha, em 1930 e mantido pelas classes dominantes, principalmente dos latifundiários e exportadores de matéria-prima para abastecer mercados estrangeiros. O mercado interno diversificou-se com a fabricação de cachaça, produtos farmacêuticos, chapéus, calçados, utensílios domésticos, e outros bens de consumo. Foi só a partir desse período que houve realmente uma estruturação econômica em todo o Brasil.
    Entre 1921-45 essa produção alcançou 4 milhões e meio de metros de tecidos, ocupando 3.871 operários.
  A tecnologia e os equipamentos de procedência inglesa, movidos a vapor ainda operavam na década de 1960, quando a última fábrica foi fechada. Os teares e fusos obsoletos fabricados no século anterior foram utilizados em nossas fábricas até os anos 50.
  A fraca competição de outros estados nordestinos, devida a escassez da matéria-prima e a restrição da mão-de-obra decorrente das novas leis trabalhistas, o não favorecimento de investimentos para renovação dos equipamentos, resultaram na estagnação da nossa indústria têxtil. A concorrência com as fábricas do Sudeste e do Sul com mercado mais promissor, foi uma das causas da decadência do nosso parque fabril, somados à falta de atualização técnica, escassez de mão-de-obra qualificada e impossibilidade material de renovação e modernização do maquinário. Acrescente-se a essa situação caótica para os empresários, os elevados custos dos encargos sociais, que tiveram de arcar, depois da Revolução de 30 com a criação do Ministério do Trabalho, que ocasionou grandes conquistas e tranquilidade para o trabalhador, com contrato assinado na carteira profissional, redução da jornada de trabalho, férias remuneradas, licença-maternidade.
   O Maranhão experimentou um período de intensa redução da produção e dos investimentos que aos poucos foram direcionados para a fabricação de fibras nas novas fábricas do Sudeste.
Foram pouco expressivos os resultados desses tímidos financiamentos até 1970, devidos os elevados índices de obsolescência do parque fabril no tocante à fiação e tecelagem de algodão. A partir dessa década, houve o deslocamento do eixo agrícola das regiões da Baixada, Itapecuru, Mearim para o sul, com a ocupação das chapadas, resultante da política de valorização das terras agrícolas. O BNDS implantado nos anos 80, deu um novo alento para o setor têxtil, nos grupos preferenciais de financiamento. Nesse período, o algodão teve um novo surto, declinando em 1985, quando foi substituída pelo cultivo da soja e atividades pecuárias.
    Atualmente há poucas fábricas de fiação que apesar de demonstrar relativo dinamismo empresarial não traduzem a potencialidade estadual para o setor e, principalmente quando a produção de algodão voltou a assumir posição de relevo no setor primário maranhense. Em Paço do Lumiar funciona uma fábrica de malhas.
  A cultura do algodão em nosso estado contribuiu para o desenvolvimento econômico, propiciando acúmulo de capitais gerando divisas, abertura de mercado para produtos não agrícolas, contribuindo na diversificação da economia, além de fornecer matéria-prima para a indústria. Esse aporte de recursos foi, durante a Monarquia, malbaratado pelas elites que não foram capazes de reformar seu maquinário, mantendo equipamentos obsoletos e até inadequados às nossas condições ecológicas e climáticas. Não conseguimos competir sequer com o mercado interno, do Sul e Sudeste.
    Em 2013 a colheita de algodão na Maranhão, segundo dados do IBGE, atingiu 4,083 kg/ha, conseguindo ocupar o 1° lugar em produtividade no país, colocando-o acima da média nacional de 3.615kg/ha. Foi a 4ª maior safra, abaixo de Mato Grosso, Bahia e Goiás. O prognóstico sobre a produção agrícola nacional para 2014, é de um quadro praticamente inalterado no Maranhão. O rendimento deverá avançar 4.089kg/ha, resultado de uma produção de 76.009 t, numa área colhida de 18.588 ha.
     Atualmente a nossa produção algodoeira é de 75,1 mil toneladas, com previsão para os próximos anos, de um crescimento mais acentuado. Não estamos mais na relação dos maiores produtores como Mato Grosso, Bahia e Goiás, mas ainda estamos em vantagem em relação aos outros estados nordestinos.
    Antes de concluir esta rápida pesquisa, quero fazer um tributo às tecelãs da Baixada, principalmente de São Bento, Bequimão, Perimirim, pelas bonitas, macias e confortáveis redes saídas dos seus teares, Também são conhecidas as redes de linha feitas em Pastos Bons, São João dos Patos e adjacências.
  Além do algodão, o Maranhão continua a cultivar arroz, milho, mandioca, feijão, cana-de-açúcar e na região de Balsas, a soja. Há fábricas de óleo de babaçu; cerâmicas, pisos, móveis, calçados, malharias, refrigerantes, cachaça, sabão, farinha, doces, papel, vestuário, uniformes, artesanato, estruturas metálicas, serralherias, fibra de vidro. Em relação ao extrativismo, além do babaçu, exploram-se tucum, fibra de buriti, madeira em toras, carvão vegetal, lenha, castanha de caju, pequi, açaí, cera de carnaúba, óleo de copaíba, de rícino, mutamba, água mineral, polpas de frutas. Princípios ativos extraídos do jaborandi, fava d´anta. Do solo extraem-se: calcários, gesso, bauxita, enxofre, sal marinho, gipsita, granito, mármore, urânio, ouro, cobre, diamante, opala.
     Na década de 1960 foram instaladas fábricas para beneficiamento do babaçu, a COPISA, em Pinheiro e uma de celulose em Coelho Neto, com recursos da SUDENE e da SUDAM, que infelizmente não prosperaram.
     Grandes fábricas foram instaladas na década de 80 como a ALUMAR, a Vale do Rio Doce. Na virada do milênio, a Suzano Papel e Celulose. Também de gás natural.
   Não esqueçamos a Pecuária, a Pesca e a coleta de mariscos, nossa promissora indústria naval e muitas outras atividades, em fase de projeto como a Refinaria Premium para derivados de petróleo.
Moema de Castro Alvem

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Farmacêutica, Mestra em Parasitologia, com especialização em Entomologia, Malacologia e Análises Clínicas. Acadêmica, fundadora da Academia Pinheirense de Letras, Artes e Ciêmcias-APLAC. Falecida em 2014, a admirável intelectual era proprietária da renomada livraria Papiros do Egito, lcalizada no Centro Histórico em São Luís-MA.
Texto publicado em 2014.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

II PARTE: O ALGODÃO NO MARANHÃO

 Por Moema de Castro Alvim*

Antiga fábrica de beneciamento de algodão em São Luís-MA, no início do século XX.

   As primeiras referências sobre o algodão no Maranhão remontam ao Período Colonial, tendo sido feitas na época em que os franceses invadiram e se apossaram da ilha de Upaon-Açu, atualmente Ilha de São Luis, e plantavam a malvácea, segundo Diogo de Campos Moreno.
   Além de cultivarem, faziam escambo com os chefes das várias aldeias da tribo Tupinambá, espalhadas pela ilha. Alguns historiadores dizem que esse número se aproximava de trinta. Além de usarem o algodão, enviavam para a França. Provavelmente era o algodão amarelo. Também Simão Estácio de Sá se refere a essa cultura em seu livro: Relação Sumária das Cousas do Maranhão, considerado o primeiro marqueteiro das nossas riquezas naturais, como forma de atrair seus patrícios para a América Portuguesa.
   Também Francisco Dias Deiró, cúmplice de Bequimão na malograda Revolta, sugeriu à Câmara que não permitisse as exportações desse produto. Nessa época com 150 a 400 varas de algodão, comprava-se um escravo para a lavoura, multiplicando as colheitas e levando a Colônia a padecer com a falta do produto.
   Em 1682 foi criada uma companhia de gestão privada, em substituição à Câmara Municipal, gerando conflitos de interesses, culminando com a Revolta de Beckman, e reprimida energicamente com o enforcamento de Bequimão e seu cúmplice. Somente em 1688, o governador Gomes de Freire de Andrade atribuiu um valor, em réis, ao novelo e vara do algodão, confirmado pelo rei.
   Em 1693, Antônio Albuquerque de Carvalho taxou as exportações, impostos esses que destinados ao pagamento dos soldos dos soldados.
  Em 1703, o Senado da Câmara proibiu a exportação em caroço e rama, deixando para consumo local. A primeira resolução, anulada em 1699 foi revogada, em 1757, pelo gov. Gonçalo Pereira Lobato que proibiu sumariamente a exportação, atribuindo preços ao produto: o novelo passaria a valer entre 20 e 25 réis e um rolo por 10$000, usados como moeda-corrente. Permutava-se o nosso algodão por ouro em pó ou em barras com Goiás e Minas Gerais. Em 1724 o algodão já era falsificado, isto é, os fardos continham além da pluma, pequenas pedras, folhas, pedaços de troncos e outras sujeiras, o que aumentava a pesagem, exigindo-se, a partir daí que os custos do transporte fossem arcados pelo lavrador e a obrigatoriedade de uma marca por meio da qual se saberia a procedência de algodão e, consequentemente o nome do proprietário.


  As primeiras áreas cultivadas ficavam no Itapecuru, Alto Mearim, Coroatá, Codó, Tutoia, Barreirinhas, Brejo e durante os primeiros anos do reinado de d. José, na região de Cumã, atual Regiões da Baixada e Litoral Norte, onde se situam Viana, Guimarães, Pinheiro, Cururupu, Alcântara. As espécies mais cultivadas eram o “peruviano” e outros, conhecidos por crioulo, governo e quebradinho. Só mais tarde foram introduzidas sementes de Sea-Island, Upland e outras dos Estados Unidos, empregando-se, ainda no plantio, o sistema rotineiro, sendo de preferência escolhidos os terrenos mais elevados, propícios às espécies arbóreas que duram oito anos ou mais e atingem entre 5 e 7 m de altura.
  Inicialmente o algodão foi cultivado com o objetivo de suprir a necessidade de fabricar tecidos que pudessem ser utilizados para acondicionar produtos e usados como vestimenta dos escravos. Os integrantes da elite não utilizavam o produto da terra, preferindo importar os tecidos da Europa.
   No contexto da economia colonial, o algodão surge como mais um produto agrícola que se estabeleceu na base do trabalho escravo, inicialmente usando a mão-de-obra indígena, substituída pelos negros trazidos da África, em grandes propriedades, caracterizadas pela monocultura voltada para o comércio exterior.
Por essa época a moeda circulante era o algodão em novelos, fios e rolos de panos.


   Em 1755, no reinado de D. José e por sugestão do seu primeiro-ministro, Sebastião de Carvalho, mais tarde Marquês de Pombal, foi criada a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, cuja produção foi incrementada através da disponibilidade de grandes recursos financeiros. Com a proibição da escravização dos silvícolas, houve necessidade de buscar braços mais vigorosos para aumentar a produção. Recorreu-se à mão-de-obra escrava, importando milhões de negros da África, auferindo grandes lucros para a Metrópole. Desse modo, a região foi integrada ao grande sistema comercial mantido por Portugal, mudando também, a fisionomia étnica da região. Cada negro colhia até duas arrobas diariamente. Os algodoais sofriam já as investidas do bicudo, também de aves, ratos, lagartos, percevejos ou pulgões e gafanhotos. A prensagem também era feita pelos escravos, comprimindo o algodão com os pés. Só mais tarde foram introduzidas as prensas de madeira ou bolandeiras puxadas por animais, substituídas pelas hidráulicas, melhorando a qualidade do produto. Até 1826 o descaroçamento era feito em maquinetas de madeira. Nesse ano foi instalada a primeira grande descaroçadora, na fazenda Barbados em Itapecuru, pelo proprietário o escocês Alfred Hall. Em 1831 já havia dezenas nas principais vilas da Província.
     Em 1820 com a queda da cotação do algodão no mercado europeu, houve esperas e falências de muitos negociantes que se entregaram a luxos desmedidos, fazendo grandes compras à longo prazo. Também, nessa época foi criado o cargo de inspetor de algodão, visando a melhoria da qualidade do produto.
    As exportações do algodão, em maior volume, tiveram relação direta com a crescente demanda industrial europeia. A primeira remessa deu-se em 1760, totalizando 651 arrobas de plumas de algodão arbóreo, perene, de fibras mais longas. Em 1778, outras colônias como Piauí e Ceará, se tornaram importantes produtoras. Com a morte de d. José, o banimento da corte do Marquês de Pombal, d. Maria que substituiu o pai no trono lusitano, mandou publicar um alvará extinguindo todas as indústrias manufatureiras do Brasil que competiam, com vantagem, com as de Portugal. Após a liberação o Maranhão voltou a ser um grande produtor-exportador, entre 1796 e 1806. Com a invasão francesa em território português, a arroba do algodão voltou a cair, subindo novamente em 1808 com a abertura dos portos brasileiros às nações estrangeiras.

    O primeiro e mais importante mercado consumidor foi a Inglaterra, aumentando, consideravelmente, o comércio em decorrência da Guerra da Independência dos EUA, para atender a grande demanda consequente da Revolução Industrial Inglesa. Com isso o Maranhão teve o seu primeiro surto econômico, havendo necessidade de construir a Praça do Comércio na Praia Grande, centro de ebulição econômica e cultural de São Luis. Pelas casas comerciais exportavam-se os produtos maranhenses, principalmente o arroz e o algodão. Em contrapartida, entravam produtos europeus como tecidos, móveis, azeite português, cerveja da Inglaterra e outras novidades do Velho Continente. Esse fluxo comercial tornou São Luis a terceira cidade mais populosa do país, abaixo apenas do Rio de Janeiro e de Salvador.
      O algodão maranhense cultivado no Vale do Itapecuru era considerado superior no mercado exportador, tendo sido classificado em 1° lugar na Exposição de 1867. Esse tipo de algodão era mais alvo, mais resistente com fibras iguais, prestando muito bem para fabricar tecidos de meia durabilidade e finura média, quer para chitas.
  Com uma área territorial de aproximadamente 333.000km², terras férteis, clima ideal e condições favoráveis de escoamento, o Maranhão tornou-se, em pouco tempo, um grande mercado exportador. As primeiras máquinas descaroçadoras eficientes, com dois cilindros, só entraram no fim do século XVIII.
       Entretanto com a recuperação da produção norte-americana, a entrada no mercado de algodão mais barato do Egito e da Índia, aliadas à abolição da escravidão, fizeram com que as nossas exportações despencassem de 30% em 1825, para 2,3% em 1880. No fim do século XIX, esse setor começou a entrar em decadência. Com o preço reduzido, o algodão começou a apodrecer nas lavouras e abarrotar os galpões e depósitos, transformando antigos lavradores em industriais. A produção agrícola foi aos poucos superada pela indústria têxtil que além de matéria-prima à mão, encontrou mercado consumidor, concorrendo para a expansão geográfica das cidades, pelo surgimento de novos bairros periféricos, geralmente ao redor das fábricas. Em 1880 estima-se que a exportação tenha sido de 2.630 toneladas, sendo cerca de 2.000t foram consumidas pelas fábricas de fiação e tecelagem.
    A Balaiada, conflito que se espalhou entre caboclos e escravos foragidos das fazendas das regiões do Itapecuru e Mearim paralisou a produção, reduzindo- pela metade e causando grandes prejuízos não só aos lavradores como à economia da Província.
      O estabelecimento de uma ativa indústria de tecidos de algodão, no fim do período monárquico e princípio do republicano, com 10 fábricas de fiação e tecidos de lã, e mais algumas, diversificando o nosso parque industrial como as de produção de fósforo, sabão, de pilar arroz, chumbo, calçados, gerando a ilusão de uma nova e grande ascensão da lavoura . Em breve, no entanto, se dissiparam as esperanças. Os teares adquiridos por esses inexperientes industriais, não passavam de sucatas das fábricas têxteis inglesas. Convém registrar a falta de assistência técnica para orientar os plantadores que ainda o faziam de modo primitivo e rudimentar, a ausência de infraestrutura para a construção das fábricas, carência de operários e técnicos especializados, ficando-se à mercê dos técnicos ingleses que permaneciam pouco tempo aqui, queixando-se do clima, da alimentação, da falta de diversões. Até a determinação do pH da água usada para lavagem do algodão, era feita na Inglaterra.
     Com todos esses óbices, na virada do século, o número de fábricas instaladas subiu para dez, não só na capital, mas em municípios como Caxias e Codó. Na esteira desse processo houve necessidade de aumentar o número de equipamentos descaroçadores, para separar as ramas ou plumas que eram enfardadas e remetidas para os mercados consumidores. Essa atividade era realizada em vilas e povoados, perto dos centros produtores, e não muito distante das fábricas, absorvendo grande contingente de mão-de-obra para esse mister.
    Foram abertas quatro fábricas de prensar os caroços de algodão, para extração do óleo e obtenção da torta, para consumo de ruminantes. . No primeiro quinquênio do século XX as exportações atingiram 25 toneladas, decrescendo nos anos posteriores, em decorrência da dinâmica econômica mundial. Os principais fatores dessa falência começaram com a quebra da Bolsa de Nova York, elevação dos juros dos empréstimos, geralmente feito em libras esterlinas, a ausência de investimentos, o baixo padrão de qualidade do algodão, ocorrendo a completa desativação na década de 1960.

PRINCIPAIS FÁBRICAS TÊXTEIS INSTALADAS NO MARANHÃO
EM SÃO LUIS
   O primeiro projeto para a criação de uma instituição onde se ensinasse as técnicas de cultivo, manejo, transporte e avaliação do produto, assim como seu uso na fabricação de tecidos e extração do óleo das sementes por máquinas movidas a vapor, data de 1873, com a fundação da Casa dos Educandos, por vários motivos, não deslanchou.
  • 1891 – Companhia de Fiação e Tecidos Cânhamo, com capital de 900 contos, operando 105 teares, com o objetivo de fabricar tecidos de juta, também chamado estopa ou aniagem, para ensacar produtos.
  • 1892 – Companhia Progresso do Maranhão, com 160 operários manipulando 150 teares, para produção de panos de algodão.
  • Companhia Fabril Maranhense – Santa Isabel. Capital inicial 1.700 contos, 600 operários para trabalhar em 450 teares, produzindo riscados e domésticos de algodão.
  • 1893 - Companhia de Fiação e Tecidos Rio Anil. Capital inicial de 1.600 contos, 172 teares, 60 máquinas de fiação e 18 de branqueamento, produzindo morins e madapolões, com 209 operários.
  • 1893 – Fábrica de Tecidos de Malhas Ewerton, com 30 operários produzindo meias e tecidos para camisas.
  • 1894 – Companhia Industrial Maranhense, com capital inicial de 250 contos, com 50 operários. Destinada à manufatura de fio, punho de rede e rede de pesca.
  • 1895 - Companhia de Lanifícios Maranhenses com capital de 600 contos, 22 teares e outros equipamentos com 50 operários para fazer todos os produtos de lã e seda. Fundada desde 1892, mas suas atividades só começaram três anos depois, produzindo riscados e brins. Mais tarde foi arrematada pelo industrial maranhense Cândido Ribeiro que nomeou a rua onde foi construída a fábrica.

EM CODÓ


1892 - Companhia Manufatureira e Agrícola de Codó. Capital de 1000 contos, fazendas, com 250 operários, produzindo fios, punhos e redes de pesca.

EM CAXIAS

1883 – Companhia Industrial Caxiense foi a 1ª a ser instalada no Maranhão. Era uma indústria de fiação e tecelagem.
1889 – União Caxiense.
1891 – Fábrica Sanharó.
1892 – Companhia Manufatora de Caxias.

RESUMINDO: respaldada em dados de Fran Paxeco in Geografia do Maranhão, 1923 e repassados pela Prof. Lílian Leda:
A primeira fábrica no Maranhão foi a Companhia de Fiação e Tecidos Maranhenses de João Antônio Coqueiro. Mais tarde, em 1883 foi criada a Indústria Caxiense. Em São Luis, organizou-se a Camboa (companhia de Fiação e Tecidos Maranhense). Em 1890 inaugurou-se a Fabril que reuniu as Fábricas de São Joaquim e Santa Isabel. Em 1891, foi instalada a Cânhamo que trabalhava com a juta. Em 1893, a Companhia de Fiação e Tecidos Rio Anil, que fabricava morins.
Nesse mesmo ano estabeleceram-se, em Caxias, a Sanharó e a Companhia Manufatureira Caxiense.
As Fábricas São Luis de Fiação Santa Amélia que fabricavam brins e riscados, pertenceram a Cândido Ribeiro & Cia e iniciaram suas atividades entre 1894 e 1895.
Em Codó foi instalada a Manufatureira Agrícola, completando o Parque Têxtil.

- Companhia de Tecidos Maranhenses – 1888-89, localizava-se na Camboa. Faliu em 1894.
- Companhia de Fiação e Tecidos de São Luis – 1894. Localizava-se na rua São Pantaleão, ao lado da Cânhamo.
- Companhia Lanifícios Maranhenses – Rua as Crioulas. Mais tarde passou a chamar-se Santa Amélia, integrando o Grupo Cotonífico Cândido Ribeiro. Faliu em 1969.
- Companhia Progresso Maranhense – 1892. Localizava-se no prédio onde até bem pouco tempo funcionava o SIOGE. Teve vida efêmera,
- Companhia Manufatureira e Agrícola de Codó – 1893.
- Companhia Fabril Maranhense – 1893 – Rua Senador José Pedro, no local onde funciona um depósito da Lusitana, perto do edifício do Ministério da Fazenda.
- Companhia de Fiação Rio Anil – 1893. Localizava-se no Anil onde atualmente funciona o CINTRA. Faliu em 1969.
- Companhia de Fiação e Tecidos Cânhamo - 1891. Rua São Pantaleão atual CEPRAMA. Faliu em 1969.
- Companhia Industrial Caxiense – 1880.
- Companhia de Fiação e Tecidos – 1889. Era instalada à Avenida Pedro II.
- Companhia de Fiação e Tecidos. 1889 – Caxias, Faliu em 1950.
- Sanharó – Trizidela, Caxias.
- Companhia industrial Maranhense – 1894. Rua dos Prazeres.
- Fábrica de Tecidos e Malhas Ewerton – 1892. Rua de Santana.
- Fábrica São Thiago. Antigo prédio da CINORTE.
- Cotonière Brasil Ltda. Década de 1930.

Este tema terá continuidade, numa III Parte para abranger as atividades fabris do século XX.
Moema de Castro Alvim.
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Farmacêutica, Mestra em Parasitologia, com especialização em Entomologia, Malacologia e Análises Clínicas. Acadêmica, fundadora da Academia Pinheirense de Letras, Artes e Ciêmcias-APLAC. Falecida em 2014, a admirável intelectual era proprietária da renomada livraria Papiros do Egito, lcalizada no Centro Histórico em São Luís-MA.

domingo, 31 de maio de 2026

O ALGODÃO NO MARANHÃO - PARTE I

 Por Moema de Castro Alvim*


ETIMOLOGIA
  Os vocábulos algodão em português e algodón, em espanhol, são derivados do árabe, pois a planta foi introduzida na Península Ibérica pelos árabes, a partir da primeira metade do século X, com mudas trazidas da Síria. Do mesmo étimo cotón, registrado no século XII, dando cotton, em inglês. A planta é denominada algodoeiro. A palavra árabe se impôs em algumas línguas modernas, por força do comércio que realizavam com o produto têxtil, em fibras, fios ou tecidos no Ocidente.

INTRODUÇÃO


   Fibra produzida pelo algodoeiro, planta da família das Malváceas, do gênero Gossypium. As fibras crescem em quantidade razoável, aderidas às sementes e encerradas numa cápsula, também chamada capucho, que se abre ao amadurecer.
   Atualmente a fibra do algodão é a mais utilizada na indústria têxtil, pois além de ser mais barata, não requer tratamento químico oneroso e também por ser lavável e mais resistente do que a lã.
  A semente do algodão é utilizada para extração de óleo comestível e pela farinha, torta ou borra que resulta da moagem de seu resíduo e é usada na alimentação do gado e como fertilizante.

HISTÓRICO

  A origem da cultura do algodão remonta à Pré-História. Escavações de ruinas revelaram que essa planta já era cultivada e seu produto aproveitado pelo homem para confecção de tecidos entre 3.500 e 2.500 a.C., na Índia; Huaca Prieta, no Peru; gruta de Coxcatlán no México.
   A planta, de acordo com documentos antigos, é originária da Índia. Através do Irã e da Ásia Ocidental expandiu-se rumo ao Turquestão e Transcaucásia; também para a parte oeste da Ásia Menor.
  Quanto à China, há divergências acerca da antiguidade do uso do algodão. Em documento de 2.200 a.C., há informações sobre tecidos feitos com fibras de algodão. Há referência a um Gossypium Nanking, o que explica que naquele país surgisse a ideia de sua origem e aproveitamento. Há historiadores que afirmam que os chineses teriam recebido a planta da Índia, seu mais provável habitat, onde era conhecido pelo nome de karpasi, muito antes da Era Cristã, por menção feita nos códigos de Manu, no século VII a.C.. Heródoto e outros historiadores da Antiguidade fazem referências a ele.
   Consta que também foi cultivado na Grécia e em Malta nos últimos tempos que precederam a era cristã.
  O fato mais coerente é de que algodão é conhecido desde 3.000 anos a.C.. Quinze séculos antes da nossa Era, já era cultivado na Índia e se fabricavam tecidos com suas fibras. Mil anos mais tarde, os chineses teciam panos de algodão, Nessa época não era conhecido pelos europeus, que usavam lã, como fibra têxtil comum. Os gregos e depois os romanos o conheceram através das expedições de Alexandre da Macedônia (século IV a.C.) em suas guerras na Ásia e seu uso foi extremamente restrito durante longo tempo. Em sua marcha para o Oeste chegou, no século V a.C., ao Alto Egito onde produziu sua melhor espécie, a de fibras longas. Há notícia de que os tecidos eram ali conhecidos desde os tempos remotos (sendo já aperfeiçoada a técnica de tecelagem de linho) e afamados os panos de linho, 2.000 anos a.C.. As faixas de algodão que envolviam as múmias das 18° à 20° dinastias e que se acham atualmente no museu têxtil de Lyon, na França, são mais finas do que os modernos tecidos mecânicos. Na Europa o algodão foi introduzido pelos árabes quando dominaram a Península Ibérica, tendo sido cultivado inicialmente em Valência, na Espanha, por volta de 970 e logo depois, no oeste europeu onde a arte de fiação e da tecelagem da fibra era feita de forma rudimentar. Desde o começo da Idade Média, tornou-se conhecido em praticamente toda a Europa. Há também, quem assegura que os algodoeiros plantados na Europa, tiveram duas rotas: Valência, na Espanha e Sicília, na Itália, também ocupada pelos árabes, do século IX ao XI. Dali atingiu os Bálcãs, introduzido pelos turcos.

O ALGODÃO NO CONTINENTE AMERICANO

  Na época dos descobrimentos, os navegadores espanhóis, portugueses e italianos já se achavam familiarizados com o algodão. Surpreenderam-se, no entanto, ao constatar que os nativos não só cultivavam algumas espécies de algodoeiro, mas sabiam extrair-lhes a fibra, fiar e tecer por processos primitivos. Se os espanhóis que colonizaram a América já o encontraram, acredita-se que a planta tenha sido introduzida por migrações pré-históricas.
Cristóvão Colombo encontrou o algodão na ilha Guanahani e, nas expedições feitas na América Central e de uma região meridional, do México ao Peru e em várias outras áreas os espanhóis encontraram algodoeiros. Em ruinas de escavações pré-históricas do Arizona, foram encontrados tecidos e fio de fibras. Era difundido entre as civilizações Asteca, Maia e Inca. No Peru foram encontrados tecidos artísticos de algodão em alguns túmulos, presumindo-se terem sido fabricados em data anterior ao período incaico, sendo um indício do algodoeiro, naquela região.


CARACTERÍSTICAS BOTÂNICAS


       Os algodoeiros em estado selvagem chegam a atingir 7m de altura. Anuais ou perenes, apresentam caule ereto herbáceo ou lenhoso com quatro a cinco ramos vegetativos, intra-axilares na parte inferior; os ramos frutíferos, são extra-axilares e estão na parte superior da planta. A raiz principal é cônica, pivotante enquanto as secundárias, em pequeno número pequeno, são grossas e superficiais.
  As folhas são grandes, pecioladas, cordiformes, com consistência coriácea, em algumas variedades; podem ser recortadas com 3, 5, até 7 lóbulos. As flores são hermafroditas, axilares, isoladas ou não, nas cores creme, quando recém-abertas, tornando-se róseas e púrpuras, com mancha púrpura na base interna. A abertura se dá a cada 3-6 dias. Os frutos verdes são chamados maçãs; após a abertura, capulhos ou capuchos. As cápsulas são deiscentes com 3 a 5 lojas, cada uma encerrando 6 a 10 sementes, envolvidas numa fibra felpuda, chamada lintes, geralmente branco; mas existem variedades em que são castanho ou verde.
      A evolução se dá de 120-150 dias para as espécies de fibras curtas e de 150-180 para as longas.
      Os botânicos discordam na classificação do algodoeiro. Alguns admitem a existência de oito seções sendo as mais importantes a Herbácea e a Hirsuta. Quase todas as variedades cultivadas no Brasil pertencem ao Gossypium hirsutum. As variedades anuais da espécie são cultivadas no Sul, Sudeste, Centro-Oeste e em zonas do Meio-Norte e Nordeste. Faz parte dessa espécie o mocó ou Seridó, variedade perene, xerófila, de valor excepcional, encontrada por acaso em estado silvestre e atualmente cultivada nas áreas mais secas do Nordeste. Produz a melhor fibra brasileira e uma das melhores do mundo. Possui em média 36 a 38 mm de comprimento e é muito forte e sedosa. A linhagem mocó-paraiba produz fibras de 45mm, fato excepcional, além de ser resistente ao bicudo. Com o Seridó fabricam-se os melhores tecidos de algodão. Outra variedade cultivada no Nordeste é o rim de boi – G. barbadense - espécie perene, de fibra curta, áspera e inferior.
As fibras são classificadas, pelo comprimento, em quatro tipos: inferiores (menos de 22mm); curtas (22 a 28mm); médias (28 a 34mm) e longas, com mais de 34mm.
    São também classificadas e biológicas ou orgânicas, quando não são usados pesticidas no controle das doenças que afetam o algodão, utilizado na fabricação de lenços, echarpes, quimonos. Nas espécies geneticamente modificadas utilizam-se menos de 80% desses produtos.

TIPOS DE ALGODÃO
   O algodoeiro cultivado há séculos na Índia, China e países vizinhos é uma variedade asiática, não cultivada em outras regiões, apresentando fibra curta e diferente dos algodoeiros do hemisfério ocidental. O algodão das Antilhas é da variedade Sea Island, que produz uma fibra longa e resistente, sementes negras facilmente descaroçáveis. Entretanto é muito vulnerável aos ataques do bicudo (Anthonomus grandus) e outras pragas como a lagarta rosa, a broca de haste, o pulgão, o percevejo de renda, ácaros, fungos e bactérias e até vírus.
    Uma variedade bastante parecida com o Sea Island é o algodão egípcio, nativa na América Central e atualmente cultivada no Egito. Essa variedade também se cultiva no sudoeste dos EUA e na América do Sul.
   Os colonizadores ingleses encontraram na região leste dos EUA um tipo de algodão chamado Upland, de fibras mais longas do que a Sea Island. A grande quantidade de sementes e sua forte aderência às fibras impediram que essa variedade se difundisse no passado. Contornado esse problema tornou-se a mais cultivada no mundo.

CULTIVO DO ALGODÃO


   O algodoeiro, arbusto perene de origem e aclimado ás regiões subtropicais semiáridas, foi modificado pelo homem que criou variedades anuais adaptadas a condições climáticas e latitudes diversas.
    O algodoeiro é uma planta de clima quente que não suporta o frio. O período vegetativo é longo, variando entre cinco e sete meses, dependendo da intensidade de calor recebido, daí ser imprescindível períodos longos e quentes de verão e bastante úmidos. Na maturação, quando as cápsulas se rompem, a chuva se torna prejudicial. Um clima quente com duas estações (seca e chuvosa) oferece as condições naturais propícias ao cultivo do algodoeiro.
    Com o objetivo de dar ao algodoeiro um clima mais favorável, tem sido plantado nos desertos e semidesertos, como o Egito e o Sudão, fornecendo-lhe a água necessária, através de vários processos de irrigação.
    O algodoeiro é uma planta exigente quanto aos tipos de solos, exigindo a renovação dos mesmos mediante o uso de fertilizantes, a rotação de culturas ou simplesmente, permitindo o descanso dos solos por certo período.
    Durante a fase de crescimento, o algodoeiro está exposto a inúmeras adversidades, como a carência ou excesso de chuva e, principalmente pelo ataque da lagarta rosada e do bicudo.
   O cultivo do algodão demanda mão-de-obra numerosa. Nas propriedades de médio porte e nas grandes, o emprego de maquinário especializado atenua esse problema, principalmente na fase do preparo do solo e plantio. A colheita demora várias semanas, pois nem todas as cápsulas se abrem ao mesmo tempo, o que obriga os trabalhadores a percorrer os algodoais várias vezes, para colher as cápsulas maduras.


DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DO ALGODÃO



  A quase totalidade das regiões algodoeiras está situada entre 25° e 30° de latitude Sul. Entretanto há grandes zonas produtoras fora desses limites. Na Ásia, as zonas algodoeiras da China e da Rússia, estão situadas em latitudes mais elevadas.
    No continente americano os principais países produtores são: os Estados Unidos, o México o Brasil, o Peru e a Argentina. Nos EUA, a maior área algodoeira estende-se pelos estados do Sul, da faixa atlântica até o Texas. Em escala menor as zonas algodoeiras se concentram no Novo México, Arizona e Califórnia. No Brasil, os estados do Nordeste e São Paulo constituem as duas principais áreas produtoras.
    Na Ásia, a faixa algodoeira se estende desde a Turquia até as áreas de solos ricos da China. Também no Usbequistão onde foram implantados projetos de irrigação. Na Índia a principal zona de cultivo fica no Decan e na China, ficam localizadas ao longo dos vales fluviais e no litoral do país.
  Na África, uma zona algodoeira, mais ou menos contígua, estende-se do delta do Nilo até Moçambique. Nos demais países como Sudão, Uganda, Quênia, Tanganica, os algodoais se apresentam em áreas isoladas. Outros países como a República do Congo e a Nigéria merecem algum destaque.
    Na Europa o algodão é encontrado apenas na Bacia do Mediterrâneo, destacando-se a Grécia e a Espanha.

PRODUÇÃO INDUSTRIAL

   A entrada do algodão na economia começou com a manufatura de tecidos no século XVIII. Na Inglaterra, em 1738, John Kay iniciou a era das grandes invenções, com a sua lançadeira mecânica. James Hargreaves, em 1767 inventa a fiadora contínua. Em 1771, Richard Arwright surgiu com a sua roda de fiar ou fuso mecânico. Com seu invento, formou uma bem sucedida indústria têxtil e, a seguir, Edmond Cartwright com o tear automático. Nos EUA, em 1791, Eli Whitney inventou a máquina de descaroçar algodão. Esse engenho descaroçava 660 kg de algodão em uma hora, tarefa que um escravo levava dois dias para executar. Mais tarde apareceu a máquina a vapor.
 Graças a essas inovações, houve um extraordinário impulso à utilização do algodão, no decorrer do século XIX. Em 1801, a indústria de vestuário consumia na Europa, 78% de lã, 18% de linho e apenas 4% de algodão. Um século mais tarde, as proporções eram: 20% de lã, 6% de linho e 74% de algodão.
O algodão desempenhou papel importante na transformação das estruturas econômicas, políticas e sociais da América do Norte.
  A maior parte do algodão produzido no mundo é utilizada pelos próprios países produtores. Os excedentes exportáveis, no entanto, mantem importantes indústrias têxteis que não cultivam o algodão, tais como a Inglaterra, Alemanha, França, Itália, assim como o Japão e o Canadá. Os principais países exportadores são os EUA, Egito, Brasil, Paquistão, Sudão e Peru.

O ALGODÃO NO BRASIL


    Quando os portugueses chegaram ao Brasil, o algodão já era cultivado, fiado e tecido pelos silvícolas que confeccionavam as suas redes e algumas peças de indumentária. Empregavam, também, em tochas incendiárias, presas às setas. Era o algodão perene – G. barbadense var. brasilense, também chamado crioulo, inteiro ou rim de boi. Em tupi a palavra amandyn significa que dá novelo ou algodão. Em carta datada de maio de 1.500, e dirigida a D. Manuel, o Venturoso, Pero Vaz de Caminha, o escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, referiu-se a índios, mulheres e meninos atados de panos. Gabriel Soares de Sousa faz referência a essa planta em seu famoso livro.
    A cultura do algodão teve desenvolvimento lento no Brasil. Era o que se chamava “ lavoura de pobre”. A agricultura não se desenvolvia, principalmente diante das ordenações da Metrópole contra as manufaturas, sendo o mercado de panos atendido pela Inglaterra através de Portugal.
     Na época colonial, o algodão era cultivado na região norte, principalmente na Bahia, Pernambuco e Maranhão, inicialmente para suprir as necessidades locais e, gradualmente para fornecer para outros países. O algodão começou a ser exportado no século XVI, contribuindo para que a Índia perdesse o monopólio dos tecidos de algodão. No século XVIII, a cultura algodoeira tomou grande impulso no Pará, Maranhão, Ceará, Pernambuco e Bahia. Em 1778 foram despachados para Lisboa os primeiros fardos de algodão, de Fortaleza, através da Bahia. Já no ano de 1805 saiu o primeiro navio totalmente carregado do produto. No começo do século XIX as exportações anuais chegavam a 600 kg. A lavoura do algodão continuou crescendo até 1822, quando se verificou a queda de preços nos mercados europeus. Até a independência, os Estados Unidos, como colônia, dependiam do Reino Unido que lhes impunha condições no mercado de algodão. Depois os EUA pretenderam tomar a posição da Inglaterra, elevando os preços e desenvolvendo suas indústrias de fiação e tecelagem, o que levou o Reino Unido a incrementar a produção algodoeira no Egito, no Sudão e na Índia. A Guerra Civil dos EUA ou Guerra da Secessão, que durou de 1861-65, com a queima das grandes algodoais nos estados sulinos, desorganizou a produção norte-americana, mudando a estrutura rural, agravada pela abolição da escravidão. Na oportunidade a produção brasileira, estimulada pelos altos preços cresceu de maneira expressiva. A partir daí aumentou o interesse do Reino Unido pelo algodão brasileiro levando à expansão dos algodoais no Nordeste em direção ao Sul até o Paraná e para o centro de Goiás. O cultivo do algodão cresceu para atender a demanda mundial e de maneira tão rápida que só o estado do Ceará exportou entre os anos 1864-65, 1.000kg de algodão, atingindo mais de 8 toneladas entre 1871-72.
   O algodão trouxe grande prosperidade para os plantadores brasileiros que naquela época utilizavam o braço escravo. Ao invés de incrementar as suas lavouras, desperdiçaram as riquezas ganhas sem esforço e permitiram que os norte-americanos recuperassem a antiga preponderância.
  Essa bolha econômica estourou, após a guerra, quando os EUA retomaram as exportações, principalmente para os ávidos e insaciáveis teares das fábricas têxteis inglesas.
Quando se deu a Abolição da Escravidão, em 1888, todos os cultivadores abandonaram o algodão no Nordeste e desde esse tempo o produto foi cultivado em pequena escala, para suprir as necessidades locais e fornecer matéria-prima para as dezenas de fábricas têxteis implantadas no fim do século XIX. O Nordeste fornecia para as indústrias do Sul e Sudeste, graças às fibras longas exigidas pelos bons tecidos.
   Até 1875, o Brasil continuava a ocupar o 3° lugar entre os países exportadores de algodão. Nas últimas décadas do século XIX a produção decresceu e em algumas regiões desapareceu completamente, devido à corrida para a extração da borracha na Amazônia, passando o Brasil a ocupar o 6° mercado exportador.
   Assim como ocorreu com o açúcar, depois de uma primeira fase áurea no mercado mundial, declina, passando a ser considerado apenas um mercado de emergência, para suprir o mercado externo quando por uma deficiência de suprimentos eleva os preços e permite a competição de produtos de custo elevado.
   A 1ª Guerra Mundial (1914-18) que no início provocou pânico no comércio externo do produto, influiu consideravelmente na industrialização do Brasil; e as fábricas de tecidos, com grandes encomendas a partir de 1915, exigiram maior volume do algodão em pluma, a tal ponto que vários cafeicultores chegaram a derrubar seus cafezais para cultivarem área o ouro branco.
   Essa guerra confirmou a antiga assertiva que somos apenas um mercado para suprir emergências. O comércio de algodão subiu vertiginosamente, estimulado pelo alto nível dos preços da guerra, ocorrendo em 1922 o ponto culminante das nossas exportações, quando nosso país exportou quase 40.000 ton., baixando para 10.000 em 1928. E novamente se assiste a mesma situação anterior, diminuição das exportações, compensadas, todavia, pelo consumo interno, para fornecer o algodão para alimentar nossa incipiente indústria têxtil.
   Atualmente a produção de algodão no mundo é em torno de 20 milhões de toneladas, cabendo ao Brasil uma cota de 700.000 ton. e o 5° lugar no mercado exportador.
    O Brasil tem duas grandes zonas algodoeiras: uma no Nordeste, alongando-se do Rio Paraguaçu, na Bahia ao Ceará, invadindo o Piauí e o Maranhão. Outra em São Paulo, prolongando-se para o norte do Paraná e no Triângulo Mineiro. Há uma terceira zona, no setentrião mineiro e centro-sul baiano e outras pequenas áreas isoladas, com grande potencial até o Acre por seu clima quente, com uma estação úmida, seguida de uma estação seca, favorável ao cultivo do algodão. No Nordeste usam-se as expressões herbáceo e arbóreo para designar espécies anuais e perenes, respectivamente.

SUB-PRODUTOS DO ALGODÃO


  Além da fibra retirada das cápsulas do algodoeiro, as sementes começaram a ser exploradas a partir da década de 1970. Elas contém, em média, 17 a 23% de óleo e 15 a 21% de substâncias azotadas.
    - Línters, espécie de penugem obtida por um processo secundário de deslinteração e utilizada para encher colchões, travesseiros e almofadas; também para tecer certos tipos de tapetes e na produção de celulose, matéria-prima de aplicação variadíssima na indústria têxtil (rayon e algodão artificial), na indústria de verniz e outras. O línter, matéria básica para a fabricação de absorventes e para fins cirúrgicos. Na indústria bélica é usado na preparação de pólvora, pois dele se obtém explosivos energéticos.
 - Óleo do caroço de algodão – após a desodorização do óleo obtido pelo esmagamento das sementes, é usado e recomendado na alimentação humana. Também das sementes se extraem alguns óleos para usos industriais, inclusive para lubrificação. No Brasil as primeiras fábricas de óleo apareceram no século XX.
  - Tortas e resíduos – a torta do caroço do algodão resulta do processo de extração do óleo e é destinada à alimentação de animais ruminantes estabulados ou não. Nutritiva, apresenta altos teores de nitrogênio, cálcio, ferro, magnésio, enxofre, manganês, fibra, proteínas, fósforo. É também, empregada como adubo em terras empobrecidas, pela agricultura intensiva do algodão. Usada como matéria-prima na fabricação de sabão.
      Continua no próximo texto.


Moema de Castro Alvim

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Farmacêutica, Mestra em Parasitologia, com especialização em Entomologia, Malacologia e Análises Clínicas. Acadêmica, fundadora da Academia Pinheirense de Letras, Artes e Ciêmcias-APLAC. Falecida em 2014, a admirável intelectual era proprietária da renomada livraria Papiros do Egito, lcalizada no Centro Histórico em São Luís-MA.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

ANIVERSÁRIO E LEGADO: A INSPIRADORA TRAJETÓRIA DO PROFESSOR ANTONIO DOS REIS

 Por Jean Carlos Gonçalves.

    O percurso de vida do Professor Antonio dos Reis Barros Teixeira confunde-se com a própria história recente da educação pública de Tuntum. Homem de origem simples, forjado no trabalho, na disciplina e no compromisso com a coletividade, construiu uma trajetória marcada pela responsabilidade, pela competência administrativa e, sobretudo, pela convicção de que a educação é instrumento de transformação humana e social.

  Filho de Osvaldo Araújo Teixeira e Maria Barros Teixeira, o Professor Dos Reis, nasceu em 27 de maio de 1970 no povoado Canafístula, município de Passagem Franca-MA. Migrou com a família para o município de Tuntum em 1978 se estabelecendo no povoado Alto do Coco, que dista 18 Km da cidade. Logo, iniciou os estudos, desde cedo ciente que seria o seu principal instrumento de ascensão social, tanto que em 1984, com apenas 14 nos toma a sua primeira grande decisão: com o consentimento de seus pais, deixa o aconchego de sua família para morar na cidade de Tuntum com o objetivo de prosseguir os estudos e trabalhar como comerciário no estabelecimento do destacado comerciante Antonio Marcolino, o Toim Barata.

  Sabe-se que é natural um adolescente enfrentar dificuldades por deixar a residência dos pais, entretanto, na vida se encontra pessoas iluminadas, que são como faróis que nos guiam pelo caminho, por vezes íngremes. Em Tuntum, Dos Reis foi muito bem acolhido na residência do cidadão Anacleto Moreira de Sousa, o seu Senhor ou Senhozão, antigo morador do povoado Alto do Coco e vizinho de sua família, que tinha uma casa na cidade, na qual também já moravam alguns filhos daquele anfitrião que além de grande, como denuncia a sua alcunha, era gigante de coração. Desse modo, Antonio dos Reis permaneceu de 1984 até 1996, usufruindo da convivência e hospitalidade, praticamente se tornando mais um da família de seu Senhor.

    Então, o jovem Antonio dos Reis, em jornada intensa, trabalhando durante o dia e estudando a noite, acumulou experiências e aprendizados, com os quais pode exercitar e desenvolver suas potencialidades e, assim, ganhar notoriedade pelo seu desempenho profissional e estudantil.

  Determinado, disciplinado, responsável e afeto aos números, se tornou desde cedo, um excelente matemático, o que despertou a admiração do patrão, dos colegas de trabalho, dos clientes e, sobretudo, confiança em si mesmo para continuar mirando o seu foco, fortalecendo a sua caminhada em busca de crescimento pessoal e profissional, afastando de toda sorte, a suposta fragilidade que aquele menino sertanejo, franzino, de baixa estatura, pudesse deixar transparecer aos olhos de qualquer desavisado.

  Naquele ano de 1984, seu primeiro ano estudando na sede do município a 5ª série do ensino fundamental, foi acolhido pela saudosa educadora Valdete Gonçalves Dias, vice-prefeita (1983-1988). Proprietária e Diretora da Escola São Raimundo Nonato.

  Trabalhando como comerciário conseguiu concluir em 1991o curso secundarista de Técnico em Contabilidade, no colégio Comercial, de propriedade da Professora Linoci Braúna Cunha, que agregou muito valor a sua vida profissional, inclusive, devido ao seu desempenho, a Professora Linoci lhe ofereceu a primeira oportunidade de trabalho no magistério. Ainda em 1991 conseguiu aprovação no concurso público para o cargo de coordenador geral do censo demográfico no município de Tuntum (Agente Censitário Municipal-ACM), razão pela qual decidiu deixar o emprego de comerciário para assumir o novo cargo que era temporário, mas em face do novo desafio tomou a decisão de contribuir com o serviço público.

   Em 1992 concluiu o magistério a nível de segundo grau e no mesmo ano foi aprovado para o cargo de Professor no primeiro concurso público história da rede estadual do Maranhão, do qual tomou posse em 1994, sendo lotado na então Unidade Integrada Estado do Maranhão, hoje Centro Educa Mais Estado do Maranhão. Contudo, a partir de 1993 já estava ativo como professor contratado da rede municipal de ensino. Além disso, teve a grande experiência de trabalhar como estagiário no antigo Banco do Estado do Maranhão em 1995 e até meados de 1996.

   Em 2001 concluiu o curso de Licenciatura Plena em Matemática pela Universidade Estadual do Maranhão - UEMA e, logo em seguida, a Especialização em Metodologia para o Ensino da Matemática pela FATEPI de Teresina-PI. No início do mesmo ano 2001 lhe foi confiada a gestão escolar da Escola Municipal Assis Chateaubriand, no bairro Vila Cearense.

   Em 2002, é aprovado pela segunda vez no concurso público para o cargo de professor da rede estadual do Maranhão e lotado, no então, Centro de Ensino Estado do Maranhão.

   Ainda em 2003 é convidado a gestão Cleomar Tema é convidado a integrar a equipe técnica da SEMED, até o final de 2008.

  O reconhecimento por sua competência e seriedade levou o então prefeito Francisco das Chagas Milhomem da Cunha, o Chico Cunha, a convidá-lo, em 2009 para assumir a Secretaria Municipal de Educação do Município de Tuntum. À frente da pasta, demonstrou elevado espírito público, capacidade de liderança e compromisso administrativo, sendo posteriormente mantido no cargo pelo prefeito Cleomar Tema Carvalho Cunha, permanecendo como Secretário Municipal de Educação até 2016, quando, por decisão pessoal, encerrou seu ciclo na gestão municipal.

  Durante esse significativo período, o Professor Antonio dos Reis coordenou importantes políticas públicas educacionais que contribuíram diretamente para a melhoria dos indicadores educacionais do município e para a ampliação das oportunidades de aprendizagem para milhares de estudantes. Sua atuação foi decisiva na organização estrutural da rede municipal de ensino, destacando-se a colaboração para implantação do Plano de Cargos, Carreira e Salários dos Professores, do Sistema Municipal de Educação e do Conselho Municipal de Educação.

  Sob sua liderança, importantes conquistas foram alcançadas: a criação da Biblioteca Pública Municipal Raimundo Lourenço; a captação de recursos junto ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE para construção de escolas-modelo, creches, quadras poliesportivas e unidades do programa Escola Digna; além da aquisição de mobiliários, ônibus escolares, lanchas escolares e até poços semiartesianos destinados às escolas da zona rural. Foram ações que extrapolaram a dimensão administrativa e alcançaram diretamente a dignidade de estudantes, professores e comunidades inteiras.

    Em um dos períodos mais difíceis da história contemporânea, durante a pandemia da Covid-19, novamente sua experiência e senso de responsabilidade se fizeram indispensáveis. Em 2021, diante dos inúmeros desafios enfrentados pelo Centro Educa Mais Estado do Maranhão, entre eles o ensino remoto, as dificuldades estruturais causadas pela reforma do prédio escolar e os impactos humanos provocados pela pandemia, sua presença na gestão administrativa e financeira da instituição revelou-se fundamental. Sua disciplina, organização, equilíbrio e compromisso profissional foram pilares essenciais para o êxito da equipe gestora naquele contexto de tantas incertezas. Desse modo, não tenho dúvidas que na minha condição de gestor geral, convidar o Professor Antonio dos Reis para assumir a gestão administrativa e financeira foi um de nossos maiores acertos.

   Hoje, após três décadas de relevantes serviços prestados à educação e ao serviço público, o Professor Antonio dos Reis alcança uma das mais honrosas etapas de sua caminhada: aguarda legitimamente sua aposentadoria, levando consigo o reconhecimento de gerações de alunos, colegas e amigos que testemunharam sua integridade e dedicação.

   Esposo de Alvanete, pai de Tiago e Mateus, homem de família e educador por excelência, agora a integra também o seleto quadro de imortais da Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes, ocupando a cadeira que tem como patrono(a) a Educadora Valdete Gonçalves. Tal honraria não representa apenas um reconhecimento institucional, mas a consagração de uma vida dedicada ao saber, à educação e ao desenvolvimento de sua terra.
Mateus, Antonio dos Reis, Alvanete e Tiago

   Parabenizar o Professor Antonio dos Reis Barros Teixeira é, portanto, reconhecer a grandeza de uma trajetória construída com trabalho, ética, sensibilidade humana e compromisso coletivo. Sua história permanece como inspiração para todos aqueles que acreditam que a educação continua sendo o mais poderoso caminho para transformar destinos e construir um futuro mais digno para as próximas gerações.

    Diante do exposto, nós que fazemos o Blog Ecos de Tuntum e em nome da Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes-ATLEA, felicitamos o nosso ilustre e digno confrade. Que tenha vida longeva e feliz para que continue a nos brindar com sua ativa presença, contribuindo, protagonizando com a Educação de nosso município de Tuntum.

Nossas congratulações!!! Feliz aniversário!!!

Jean Carlos Gonçalves.
Adm. do Ecos de Tuntum e atual vice-presidente da ATLEA.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

JOSIMAR, O CINEASTA DA MATA DO JAPÃO

 Por Jean Carlos Gonçalves.

Josimar Cineasta

“Josimar Gonçalves, faz cinema com as unhas!”
(Cineas Santos)

   Há alguns anos atrás assistindo a um programa de entrevistas me chamou muito atenção a expressão metafórica acima proferida pelo apresentador, o intelectual piauiense Cineas Santos, numa emissora de TV de Teresina. Muito utilizada no Brasil para se referir a alguém que realiza um trabalho grandioso mesmo dispondo de poucos recursos materiais e financeiros.
O poeta Salgado Maranhãofalando sobre Josimar Cineasta para o jornalista Cineas Santos.
     
       No caso de Josimar Gonçalves, a expressão ressalta sua capacidade de produzir filmes praticamente de forma artesanal, como os seus longa-metragens com apenas, pasmem, UMA câmera, sustentado mais pela criatividade, persistência e paixão pela cultura popular do que por grandes investimentos ou estruturas profissionais. Disto, verdadeiramente nunca usufruiu. Portanto, evidencia que o cineasta: trabalha com equipamentos simples e limitados; conta com apoio voluntário da própria comunidade; aprende de maneira autodidata técnicas de filmagem e edição; supera dificuldades financeiras e ausência de incentivo cultural; transforma a realidade do sertão maranhense (da Mata do Japão) em arte cinematográfica.

   A frase também possui um sentido de admiração e reconhecimento, pois sugere que, mesmo diante das adversidades, Josimar consegue realizar algo que normalmente exigiria grandes equipes, tecnologia avançada e recursos elevados. Assim, “fazer cinema com as unhas” significa fazer cinema com esforço, improviso, coragem e profundo compromisso cultural.

    No contexto de sua trajetória, a expressão reforça ainda a ideia de resistência cultural: um homem simples do interior do Maranhão que, movido pelo sonho e pela valorização de sua gente, conseguiu transformar histórias locais em obras cinematográficas reconhecidas dentro e fora da região.

   Em março de 2019 apresentei, o Josimar Cineasta, aqui no Ecos de Tuntum https://ecosdetuntum.blogspot.com/2019/01/josimar-goncalves-o-cineasta.html.

      Natural do povoado Socorro, no município de Governador Eugênio Barros, Josimar Gonçalves Costa nasceu em 6 de agosto de 1971, filho de Manoel e Zulmira, retirantes cearenses. Desde a infância, viveu em meio às dificuldades do sertão maranhense, em uma época em que a comunidade ainda não possuía energia elétrica. Foi ouvindo rádios como a Nacional de Brasília e a Pioneira de Teresina que despertou sua imaginação e o sonho de trabalhar com dramaturgia, cinema e fotografia.

     Ainda menino, teve os primeiros contatos com a fotografia por meio de uma câmera adquirida por um irmão mais velho, passando a atuar em eventos da comunidade como fotógrafo. Na década de 1990, mudou-se para São Paulo, onde enfrentou dificuldades e trabalhou em diversas funções, mas continuou investindo em seu sonho artístico, realizando cursos e adquirindo equipamentos fotográficos.

    Em 2000, retornou ao povoado Socorro e, anos depois, iniciou sua trajetória cinematográfica. Seu primeiro filme foi É de mermo mermo (2010), gravado com uma câmera digital simples e sem edição. Em seguida, produziu Trumento I (2011), Trumento II (2012), Zé Budega (2013), O Prefeito Zé Budega (2014) e O Trumento do Pardal (2017). A partir de 2012, passou a dominar técnicas de edição de vídeo de forma autodidata, consolidando-se como cineasta popular da região. Seus dois últimos longa-metragens foram Rio Itapecuru em 2022 e Fogo Azul no ano passado.

    Por mim denominado “o Cineasta da Mata do Japão”, Josimar construiu sua obra inspirado no cotidiano, nos costumes e nas histórias do povo simples do sertão maranhense. Seus filmes misturam humor, ficção e fatos reais vividos pela comunidade, valorizando a cultura popular e os personagens anônimos do interior. Com apoio voluntário de moradores do povoado Socorro e adjacências, suas produções ultrapassaram as fronteiras do Maranhão, chegando inclusive a exibições em São Paulo para públicos nordestinos.

    Além do cinema, Josimar Gonçalves também se destaca como pesquisador da memória local, restaurador de documentos históricos e ativista cultural. Seu trabalho representa um importante instrumento de preservação da identidade e das tradições do centro-maranhense, tornando-o uma das figuras culturais mais relevantes do Maranhão. Ultimamente tem se dedicado em resgatar manifestações culturais praticamente esquecidas na região a exemplo das cantigas das festas de Reis, dança do lindô e do pagade pé de bode e suas músicas, inclusive, tem trabalhado em novas composições.



   Assim sendo, convido-lhes a conhecer as proezas de Josimar, o Cineasta, cujo trabalho é reconhecido por grandes artistas maranhenses e nacionais, como o poeta Salgado Maranhão, Zeca Baleiro, a catora e atriz Zezé Mota e tantos outros. Acompanhe o seu trabalho no canal: https://www.youtube.com/@JOSIMARCINEASTA2024/videos.


O cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro, renomado nacionalmente, elogiando e parabenizando o Josimar Cineasta.
MENINO SONHADOR
No sertão de Eugênio Barros
Onde o vento canta forte
Nasceu um menino simples
Batizado pela sorte
Transformando em melodia
Seu sofrer em brilho forte

Josimar Cineasta desde cedo
Fez da arte o seu caminho
Carregando nas palavras
A verdade do espinho
Mas também levando sonhos
Feito flor pelo caminho

Cantou, escreveu o Socorro
Que marcou geração
Homenageando o povo
Com respeito e gratidão
Para jamais morrer a história
Desse pedaço do Maranhão

Resgatou cultura antiga
Que o tempo quis apagar
Fez o Lindô renascer
No terreiro a balançar
E o Pagode Pé de Bode
Novamente ecoar

Também tem samba, reggae e
Forró, Bolero e carnaval
Quadrilha junina animada
No compasso regional
São trezentas composições
Um talento fenomenal

Mas nem tudo foi sorriso
Na estrada percorrida
Também canta a dor sofrida
Das batalhas desta vida
Da infância tão marcada
Pela luta endurecida

Naquele tempo distante
Nem energia existia
A escola era difícil
Mas não faltava ousadia
Estudava noite adentro
Sob a luz de lamparina

Caderno velho na mão
E esperança no olhar
Aprendeu desde menino
Que era preciso lutar
Pois quem vence a fome
Nunca deixa de sonhar

“Exercício da Prova”
Foi canção de emoção
Retratando a vida dura
Do sofrer do cidadão
Mas mostrando que a coragem
Vence toda escuridão

Hoje o povo reconhece
Seu valor de historiador
Porque guarda nas canções
A memória e o amor
De um Brasil que resiste
No peito do sonhador.

(Guardião da Mata do Japão)