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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

BELCHOR CARVALHO DE SOUZA: 97 ANOS DE VIDA, MEMÓRIA E CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA POLÍTICA DE TUNTUM

 Por Jean Carlos Gonçalves

Uma homenagem ao homem que fez parte dos primeiros passos da vida legislativa do município de Tuntum, Maranhão.

Belchor Carvalho de Souza, o único remanescente da primeira eleição de 03 de outubro de 1958, no município de Tuntum-MA.

Neste dia 9 de outubro de 2026, celebramos com alegria e profunda admiração os 97 anos de vida do senhor Belchor Carvalho de Souza, personagem da história política de Tuntum e testemunha de um dos períodos mais significativos da organização administrativa e institucional do município.

Nascido em 9 de outubro de 1929, na localidade São José, no município de Barra do Corda, no Maranhão, Belchor é filho de Pedro Alcântara Carvalho e Secundina Alves de Souza. Sua história está intimamente ligada à trajetória de uma numerosa família que construiu suas raízes no sertão maranhense. Sua mãe era filha da matriarca Carlota Carvalho, originária do município de São João dos Patos-MA, cuja descendência se tornou conhecida popularmente como os Carlota Carvalho ou simplesmente os Carlotas, denominação que atravessou gerações e permanece como referência da memória familiar.

Lista de parte da familia do CARLOTA CARVALHO. Belchor é o primogênito do casal Pedro de Alcântara Carvalho e Secundina Alves de Souza. 

Ainda na infância, sua família passou a residir no povoado Santa Rosa, fixando-se posteriormente no histórico povoado de São Joaquim dos Melos, no município de Tuntum. Foi nessa terra que Belchor viveu sua infância e juventude, construiu vínculos comunitários e constituiu família. Ali também se estabeleceram as bases de sua trajetória lavrador, posteriormente alfaiate, dentista prático por 65 anos, e, sobretudo, como cidadão e homem público.

Um pioneiro da Câmara Municipal de Tuntum

O ano de 1958 marcou uma nova etapa na vida de Belchor Carvalho de Souza. Naquele ano, Tuntum vivenciou sua primeira eleição municipal, realizada em 3 de outubro, ocasião em que a população escolheu seus representantes para a formação do governo municipal e da primeira Câmara de Vereadores.

Belchor ingressou na vida pública nesse contexto histórico e foi eleito vereador no pleito inaugural do município. Sua participação o inscreve entre os pioneiros da representação política tuntuense, em um momento em que as instituições municipais começavam a adquirir forma e a construir suas bases de funcionamento.

Em 31 de janeiro de 1959, data da instalação da Câmara Municipal de Tuntum e da posse dos primeiros vereadores, Belchor assumiu seu mandato e foi eleito vice-presidente da primeira Mesa Diretora do Poder Legislativo municipal.

Aquele dia, contudo, foi marcado por circunstâncias políticas extraordinárias. Em razão da disputa judicial envolvendo os candidatos à Prefeitura, Ariston Arruda Leda e Manoel Valente de Figueiredo, após denúncias de fraude nas eleições de outubro de 1958, o presidente da Câmara, Astolfo Seabra de Carvalho, assumiu interinamente o comando do Executivo municipal. Diante dessa situação, Belchor Carvalho de Sousa passou a exercer a presidência do Legislativo, contribuindo para a continuidade dos trabalhos da recém-instalada Casa.

A controvérsia eleitoral somente chegou ao seu desfecho em 7 de setembro de 1959, quando a Justiça Eleitoral decidiu em favor de Ariston Leda. Na mesma data, a Câmara Municipal deu posse ao prefeito reconhecido pela decisão judicial, e Belchor reassumiu a vice-presidência do Legislativo.

Cópia do Livro nº 01 de Atas das sessões da Câmara Municipal deTuntum, instituída em 31 de janeiro de 1959. Observe a assinatura de Belchor Carvalho de Souza como presidente.

Esses acontecimentos revelam que sua passagem pela Câmara ocorreu em um período de intensas mudanças e desafios institucionais. Mais do que ocupar um cargo público, Belchor participou de um capítulo inaugural da história política de Tuntum, quando os primeiros representantes eleitos precisaram lidar com as dificuldades próprias da organização de um município recém-emancipado.

Sua atuação política teve continuidade com uma nova eleição para vereador, em 1962. Dois anos depois, transferiu residência para Barra do Corda para ofertar melhor educação aos filhos e de onde concluiu seu mandato. Posteriormente, migrou para o estado de Goiás, no Planalto Central brasileiro, onde estabeleceu residência em Luziânia-GO e deu continuidade à sua trajetória de vida ao lado de sua digníssima esposa Adirce e família.

Belchor em primeira núpcias com Ana Raimunda de Souza, teve os filhos: Wauliçon, Daise, Waucilon, Wanilson, Wadilson, Laise e Ana Constância. Em segundo matrimônio com Adirce Rodrigues Dias com quem vive há 51 anos teve Belchor Júnior e Carlota Paulina.

Um homem vitorioso, uma história que merece ser lembrada

Aos 97 anos, Belchor Carvalho de Souza representa muito mais do que uma lembrança dos primeiros tempos da política tuntuense. Sua trajetória reúne elementos importantes da história social do Maranhão: as raízes familiares, a vida nos antigos povoados, a formação de comunidades, o ingresso na vida pública, as migrações internas e a busca por melhores condições de vida para si e para os seus.

No Planalto Central, enfrentou os desafios de uma nova realidade, trabalhou, criou os filhos e contribuiu para a formação de sua família. A educação dos filhos constitui uma das expressões mais significativas de sua vitória pessoal, pois representa a continuidade de valores, oportunidades e esperanças construídas ao longo de uma vida de dedicação.

Nesta data tão especial, é motivo de satisfação saber que Belchor chega aos 97 anos em pleno gozo de suas faculdades mentais, mantendo a lucidez, a voz firme e marcante, a cordialidade e o fino trato que caracterizam sua personalidade. Sua presença é motivo de alegria para familiares, amigos e para todos aqueles que reconhecem a importância de sua história.

Celebrar seu aniversário é também reconhecer o valor daqueles homens e mulheres que, mesmo sem ocupar permanentemente as páginas dos livros, participaram de acontecimentos fundamentais para a construção das instituições e da identidade de uma comunidade.

A memória de Belchor Carvalho de Souza merece ser preservada não apenas no âmbito familiar, mas também na história de Tuntum. Afinal, conhecer aqueles que participaram dos primeiros passos da vida política municipal é compreender melhor as origens de nossas instituições, os desafios de sua formação e o percurso histórico que nos trouxe até o presente.

Parabéns, senhor Belchor Carvalho de Sousa, pelos seus 97 anos de vida!

Que esta data seja celebrada com o carinho, o respeito e o reconhecimento que sua trajetória merece. Que sua lucidez, sua serenidade e sua cordialidade continuem sendo fontes de inspiração para as novas gerações.

Receba esta singela homenagem e nossa gratidão por sua contribuição à história política de Tuntum. Sua vida é um testemunho de perseverança, de compromisso com a família e de participação em um tempo decisivo para a construção do município.

Feliz aniversário! Noventa e sete anos de uma história que merece ser contada, registrada e preservada na memória de Tuntum e do Maranhão.

Um fraternal abraço, meu ilustre e querido amigo!


Jean Carlos Gonçalves.

Tuntum-MA, 09 de outrubro de 2026.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A BOIADA E NENÉM DE COLO

Por Américo Ribeiro*

Imagem meramente ilustrativa

Por volta de 1980, fui a Barra do Garças, numa Kombi, levar o soldado PM Santarém e sua família.

No retorno, ele me pediu que trouxesse a esposa de um boiadeiro e seu jovem cunhado.

No trecho até Iporá, ela me relatou o seguinte caso:

Seu marido entrava em Barra do Garças tocando uma boiada de 700 cabeças. Foi quando, na entrada da primeira ponte, a boiada se espantou com o barulho de um motoqueiro louco. Houve o “estouro da boiada”, que saiu arrebentando cercas e tudo o que tinha pela frente.

Um quilômetro rio Garças acima, a bendita boiada parou, assustada, no meio de um terreirão, debaixo de umas mangueiras.

Estava lá a boiada assustada, na pontinha dos cascos.

Boiadeiro experiente, com jeito, ia tomando posição para voltar o gado para a pista, quando notou uma mulher, uma senhora totalmente desesperada, com as mãos na cabeça, naquela tremenda aflição. Seu neném de um ano estava sentado dentro de um caixote, à sombra da mangueira, quando aquele mundo de gado o cercou.

O milagre aconteceu.

O boiadeiro, com anos de experiência, foi entrando, a cavalo, no meio do gado, que estava na pontinha dos cascos. Foi quando baixou-se e pegou a criança pelo braço, suspendeu-a bem alto e perguntou:

— O neném da senhora é esse aqui?

O gado é animal sagrado. Sagrado na Índia e sagrado onde quer que esteja. Nenhuma rês tocou no caixote onde estava a criança.

Casos assim eu costumo recontar para quem não é do ramo poder entender o comportamento do bicho bruto.

Bicho bruto, mas que sabe respeitar os seres indefesos, até mais que o próprio homem.


Escritor/cronista Américo Ribeiro

______________

Américo Ribeiro Brasil é escritor, cronista, autor de "Do que vi, senti e ouvi". Reside em Cocalzinho-GO há varias décadas. Nasceu em 19 de novembro de 1941, no então povoado de Tuntum, hoje cidade, sede do município de mesmo nome.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

ESTADO E ESCRAVIDÃO NO SERTÃO MARANHENSE EM 1856

 Por Jean Carlos Gonçalves.

Fonte: O Publicador Maranhense,
31 de dezembro de 1856, nº 298

"THESOURARIA DA FAZENDA 

Dia 16 de dezembro de 1856

Ao coletor da cidade de Caxias. Participando que segue para aquella cidade em uma das canoas do negociante José Pedro dos Santos, a mulata Saturnina escrava da fazenda nacional de S. Bernardo, situada na Comarca da Chapada; e ordenando que, logo que lhe seja apresentada a mesma escrava, a faça seguir, com as devidas cautelas, para a dita fasenda, na primeira viagem que houver pelo rio Alpercatas; bem assim que dependa a quantia necessária com a sua passagem e comendorias."

  Esse pequeno documento administrativo, datado de 16 de dezembro de 1856, é bastante revelador sobre a organização social, econômica e territorial do centro-sul do Maranhão durante o período imperial. Embora breve, ele permite diversas interpretações históricas. Vamos "dissecar" o texto? Para iniciar vejamos a transcrição atualizada do conteúdo:

Ao coletor da cidade de Caxias, participando que segue para aquela cidade, em uma das canoas do negociante José Pedro dos Santos, a mulata Saturnina, escrava da Fazenda Nacional de São Bernardo, situada na Comarca da Chapada; e ordenando que, logo que lhe seja apresentada a mesma escrava, a faça seguir, com as devidas cautelas, para a dita fazenda, na primeira viagem que houver pelo rio Alpercatas; bem assim que despenda a quantia necessária com a sua passagem e comedoria.
  Agora vejamos alguns pontos para uma análise interpretativa minuciosa do fragmento acima:

1. A presença da escravidão estatal
    O primeiro aspecto que chama atenção é que Saturnina não era propriedade de um senhor particular, mas sim da Fazenda Nacional de São Bernardo. Isso demonstra que o próprio Estado Imperial possuía escravos, empregados em fazendas públicas destinadas à produção agropecuária ou à manutenção de estabelecimentos governamentais.

 A expressão "escrava da Fazenda Nacional" evidencia que a escravidão não era apenas uma instituição privada, mas também integrava a estrutura administrativa do Império. O governo administrava pessoas escravizadas como patrimônio público, movimentando-as conforme suas necessidades.

2. A despersonalização do indivíduo escravizado
          Em todo o documento, Saturnina aparece apenas como um bem sob custódia administrativa. Não há qualquer menção aos seus desejos, sua origem, sua família ou às razões de seu deslocamento.
   Ela é tratada como um objeto de transferência entre repartições públicas, da mesma forma que se transportariam mercadorias ou documentos. O texto revela uma característica fundamental da sociedade escravista: a negação da autonomia e da condição plena de humanidade da pessoa escravizada perante a legislação da época.

3. A importância dos rios como vias de circulação
   O documento demonstra a relevância da navegação fluvial para a integração do interior maranhense.
       Saturnina é transportada:
  • inicialmente em uma canoa pertencente ao negociante José Pedro dos Santos;
  • posteriormente deveria seguir pela primeira embarcação disponível no rio Alpercatas.
   Isso evidencia que os rios constituíam as principais estradas da região. Em meados do século XIX, a precariedade das vias terrestres tornava os cursos d'água fundamentais para o transporte de pessoas, mercadorias, correspondências e animais.
   O documento também confirma a importância do rio Alpercatas como eixo de comunicação entre a região da Chapada (Grajaú) e outros centros administrativos do Maranhão.

4. A articulação entre o poder público e a iniciativa privada
    Outro elemento interessante é a utilização da canoa de um comerciante particular, José Pedro dos Santos.
 Isso sugere que o Estado dependia frequentemente da infraestrutura privada para executar suas atividades. Em regiões de fronteira agrícola e pecuária, onde os recursos públicos eram limitados, comerciantes, fazendeiros e negociantes desempenhavam papel fundamental na circulação de pessoas e bens.
   O documento revela, portanto, uma rede de cooperação prática entre autoridades imperiais e agentes econômicos locais.

5. A Fazenda Nacional de São Bernardo como polo de ocupação territorial
     A referência à Fazenda Nacional de São Bernardo, localizada na antiga Comarca da Chapada, é significativa para a compreensão do processo de ocupação do sul maranhense.
      As fazendas nacionais eram instrumentos de presença do Estado em áreas interioranas.
   As nossas pesquisas apontam que se localizava no atual município de Fernando Falcão (cabeceiras do rio Ourives) e pela sua grande extensão, possivelmente, se estendia até parte do sul/sudeste do município de Tuntum, no atual distrito de São Joaquim dos Melos. 
   Funcionavam como centros produtivos, pontos de apoio administrativo e mecanismos de controle territorial. Sua existência demonstra o interesse governamental em consolidar a ocupação de regiões ainda pouco integradas ao núcleo político da província.
   Nesse contexto, a movimentação de Saturnina pode ser interpretada como parte da gestão da mão de obra necessária ao funcionamento dessas propriedades.

6. O controle e a vigilância sobre a população escravizada
    A ordem para que Saturnina fosse conduzida "com as devidas cautelas" revela a preocupação constante das autoridades com fugas durante os deslocamentos.
   Essa expressão era comum em documentos da época e demonstra que a circulação de escravos exigia vigilância permanente. O receio de evasões estava presente em praticamente todas as operações de transporte de pessoas escravizadas.

Portanto, o documento de 16 de dezembro de 1856, embora curto e aparentemente rotineiro, oferece um retrato bastante expressivo da sociedade maranhense oitocentista. Ele evidencia:
  • a existência da escravidão administrada pelo próprio Estado;
  • a condição jurídica dos escravizados como propriedade;
  • a importância dos rios como principais vias de transporte;
  • a integração entre autoridades públicas e comerciantes privados;
  • o papel das fazendas nacionais na ocupação do interior;
  • e os mecanismos de controle sobre a população escravizada.
 Mais do que uma simples ordem de transporte, o texto constitui um testemunho das relações de poder, da organização territorial e da estrutura econômica que sustentavam a expansão e a administração do sul do Maranhão em meados do século XIX.

domingo, 20 de setembro de 2026

A AGRICULTURA FAMILIAR NO MUNICÍPIO DE TUNTUM-MA - UM BRVE HISTÓRICO

 Por Jean Carlos Gonçalves

Imagem meramente ilustrativa,

O que é agricultura familiar?

Trata-se de um modelo de produção rural em que a gestão e o trabalho são realizados principalmente por membros de uma mesma família, em pequenas propriedades (vide https://brasilescola.uol.com.br/geografia/agricultura-5.htm).

Quais são suas principais características?

  •  A administração do negócio e o plantio ocorrem de forma conjunta entre os familiares.
  • Diversidade de cultivos: Há foco na variedade de alimentos, como hortaliças, frutas, mandioca, feijão e criação de animais de pequeno porte.
  • Práticas sustentáveis: Costuma utilizar técnicas de menor impacto ambiental que respeitam o ritmo da natureza e preservam o solo (vide https://www.bbseguros.com.br/seguros/blog/campo/agricultura-familiar).
  • Qual a sua importância social e econômica?

  • Segurança alimentar: É a principal responsável por colocar comida fresca e diversificada na mesa da população.
  • Geração de empregos: Responde pela maior parte das ocupações no campo, fixando as pessoas na terra e reduzindo o êxodo rural.
  • Movimentação local: O dinheiro gerado circula na própria região, fortalecendo o comércio e a economia das pequenas cidades.  (vide https://www.embrapa.br/tema-agricultura-familiar).
  • Qual a trajetória histórica da agricultura familiar desde a formação do povoado Tuntum a partir de 1890 até os dias atuais?

    A agricultura familiar constitui uma das bases históricas da formação econômica e social de Tuntum. Desde o final do século XIX, quando famílias de diferentes regiões, especialmente do Ceará, de outras áreas do Nordeste e de municípios da região sul do Maranhão, passaram a ocupar e cultivar terras da região conhecida como Mata do Japão, a produção de alimentos esteve ligada à sobrevivência, à organização das comunidades e ao abastecimento do então povoado de Barra do Corda.

    Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, os agricultores cultivavam principalmente produtos destinados à alimentação das famílias e às trocas locais. Milho, arroz, algodão, feijão, mandioca, abóbora e batata-doce, etc., faziam parte desse sistema diversificado de produção. A mandioca tinha especial importância por sua resistência às condições climáticas e por permitir a fabricação de farinha, alimento fundamental na dieta sertaneja, especialmente, nos povoados São Lourenço, São Bento, São Joaquim dos Melos, Santa Rosa e localidades adjacentes na região do Alto Sertão tuntuense ou região das Areias. Na época, assim como Tuntum, todos esses povoados pertenciam ao município de Barra do Corda e, posteriormente, em 1943, passaram a fazer parte do território de Presidente Dutra. Com a emancipação política de Tuntum, em 1955, passam a integrar o território do novo município.

    Cabe ressaltar que, quando o pioneiro José Naziozeno dos Santos e sua família se estabeleceram entre o Brejo do Caboclo e o riacho Tuntum, no atual núcleo urbano, por volta de 1890, também foi precursor no cultivo de cana de açúcar e no processamento do produto com a instalação de engenho para a moenda e fabricação de rapadura, garapa e cachaça, utilizando-se de técnicas tradicionais e equipamentos rústicos, cuja produção servia para o consumo familiar e local, por isso, a cana pode ser considerada como uma das culturas da agricultura familiar. O Engenho do Caboclo Naziozeno é um dos mais conecidos e lembrados atualmente na cidade de Tuntum. 

    No início do século XX, Luís Coelho e família se fixaram no povoado Arroz, seguindo o exemplo dos Naziozenos, se destacando também no cultivo da cana de açúcar. Vários outros emigrados também se dedicaram a produção de cana de açúcar e seus derivados, a exemplo, de João da Mata que chegou com sua família em 1949. O mesmo era o pai de Manoel da Mata, herdeiro do empreendimento agrícola e mais destacado produtor e fabricante de cachaça da cidade, falecido há poucos anos.

    A partir das décadas de 1930 e 1940, com o crescimento do povoado e a ampliação das relações comerciais, a agricultura passou a atender não apenas ao consumo doméstico, mas também às feiras das cidades próximas e aos mercados locais. O cultivo do arroz, do milho e do algodão ganhou destaque na economia regional, enquanto o feijão, a mandioca, a macaxeira, a abóbora e outras culturas continuaram importantes para a alimentação cotidiana.

    Nas décadas de 1950 e 1960, período que inclui a emancipação política de Tuntum (1955) e um vertiginoso crescimento demográfico, a agricultura familiar permanecia essencial para o abastecimento da população. Muitas famílias combinavam o cultivo de cereais com pequenas criações e o aproveitamento de produtos da natureza. A mandioca, por exemplo, podia ser transformada em farinha e goma; o milho era consumido verde ou seco; o feijão era utilizado em diferentes preparações; e a abóbora, o quiabo e o maxixe complementavam as refeições.

    Entre as décadas de 1960 e 1980, as transformações econômicas, a expansão da pecuária e as mudanças no uso da terra alteraram o espaço rural. Em algumas áreas, a criação de gado passou a ocupar terras antes destinadas às lavouras. Ainda assim, a agricultura familiar continuou presente, especialmente na produção de alimentos para o consumo próprio e para a comercialização em pequena escala.

    Em 1987, inaugurou-se a Barragem do rio Flores no vizinho município de Joselândia. O barramento foi responsável pela formação de um dos maiores lagos artificiais do estado, que atingiu uma extensa área do norte de Tuntum, deixando vários povoados submersos e obrigando milhares de lavradores e lavradoras a deixar a região, considerada uma das mais produtivas do município, o que impactou negativamente, desde então, a produção de arroz e milho, os produtos mais destacáveis.

    A partir das décadas de 1990 e 2000, novas mudanças ocorreram, relacionadas à modernização das atividades rurais, às políticas públicas, ao acesso ao crédito, às condições das estradas, à disponibilidade de água e às oscilações dos preços agrícolas. Essas transformações influenciaram as escolhas dos produtores, mas não eliminaram a diversidade das pequenas roças. O arroz, o milho, o feijão, a mandioca, a macaxeira, a abóbora, o milho e outras culturas continuaram associados à alimentação, à renda e aos conhecimentos tradicionais das famílias. Contudo, se observa mais nitidamente, a partir de então, uma maior inclinação do município para pecuária bovina como principal atividade econômica, muito embora várias políticas públicas de incentivo à agricultura familiar tenham sido implementadas, tais como: desapropriação de áreas improdutivas, instalações de núcleos de colonização com relativa infraestrutura, crádito e assistência tácnica. 

    Como o município de Tuntum possui uma área territorial expressiva, 3.369,119 km², se registra ao longo das últimas décadas a criação de dezenas associações de trabalhadores rurais, entretanto, não tem cumprido efetivamente a sua função social e várias delas foram parcial ou totalmente abandonadas. Por outro lado, registra-se destaque positivo para os assentamentos do Belém I e II, no Médio Sertão e os assentamentos PA Paca e PA Serra Grande, no noroeste do município.

    Em 2026, a agricultura familiar de Tuntum ainda pode ser compreendida como uma atividade que reúne produção de alimentos, geração de renda, preservação de saberes e manutenção de vínculos comunitários. Embora enfrente desafios como o alto custo da produção,  a necessidade de uma melhor infraestrutura e de assistência técnica, a valorização do trabalho, a agricultura familiar permanece importante para a economia e para a identidade rural do município.

    Entre as culturas que compõem esse universo, destacam-se:

    • Feijão: alimento básico, rico em proteínas vegetais, fibras e minerais, cultivado para o consumo e a comercialização.
    • Mandioca: utilizada na produção de farinha, goma e outros derivados, com grande importância alimentar e econômica.
    • Macaxeira: consumida cozida, frita ou como ingrediente de bolos e outras receitas.
    • Abóbora ou jerimum: empregada em ensopados, caldos, doces e acompanhamentos.
    • Milho: utilizado na alimentação humana e animal, além de integrar diversas receitas tradicionais.
    • Arroz: historicamente importante na alimentação e na produção agrícola regional.
    • Batata-doce, quiabo, maxixe, melancia, banana e outras hortaliças e frutas: cultivados conforme as condições ambientais e as escolhas de cada família.

    Assim, a história da agricultura familiar de Tuntum não se resume à produção de determinados gêneros agrícolas. Ela também representa a história do trabalho, da adaptação ao ambiente, da alimentação e da permanência de práticas culturais que atravessaram gerações. Estudar essas culturas é compreender como os agricultores contribuíram para formar o território, abastecer as comunidades e construir parte da identidade tuntuense.

    quarta-feira, 2 de setembro de 2026

    Nota do destino: Morre em Teresina a Professora e Historiadora Flávia de Souza Lima

     

    Professora e Historiadora Flávia de Souza Lima

    Faleceu na manhã desta terça-feira, dia 1º de setembro, em Teresina (PI), a Professora e Historiadora Flávia de Souza Lima, 48 anos, filha de uma sobralense. A notícia de seu falecimento causa comoção entre familiares, amigos, colegas de profissão e integrantes da comunidade acadêmica.

    Flávia possuía um vasto currículo na área da História, com destacada trajetória acadêmica e profissional. Era doutoranda e mestra em História Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de possuir graduação em História pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e formação técnica em Artes Plásticas pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI).

    Em sua trajetória profissional, atuava como professora substituta do curso de História da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) desde 2023. Também ministrou aulas no curso de Direito da Faculdade do Vale do Itapecuru (FAI), em Caxias (MA), entre os anos de 2012 e 2022.

    Flávia também lecionou Metodologia da Pesquisa Jurídica para alunos do curso de Especialização em Direito Processual da FAI, contribuindo para a formação acadêmica de estudantes de diferentes áreas.

    No campo da pesquisa, dedicava-se principalmente aos estudos relacionados à História Social, História e Gênero, Imprensa, Imagens Cômicas e Discurso Político, deixando uma importante contribuição para a produção e o ensino acadêmico.

    Sua trajetória foi marcada pela dedicação à educação, à pesquisa e à formação de novos profissionais, especialmente nas áreas de História e Ciências Humanas.

    Neste momento de dor e despedida, o Blog Sobral 24 Horas manifesta suas mais sinceras condolências aos familiares, amigos, colegas de profissão e a todos que tiveram o privilégio de conviver com Flávia de Souza Lima.

    Que Deus conforte o coração de todos e conceda força à família neste momento de profunda tristeza.

    Fonte: Sobral 24 horas.

    terça-feira, 1 de setembro de 2026

    HÁ 71 ANOS A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO MARANHÃO APROVOU A EMANCIPAÇÃO DE TUNTUM

     Por Jean Carlos Gonçalves

    Deputado Eurico Bartolomeu Ribeiro, autor da lei de criação do município de Tuntum-MA

    Fonte: Jornal do Povo, 02 de setembro de 1955.

    "TUM-TUM E MONTES ALTOS

    DOIS NOVOS MUNICÍPIOS CRIADOS

    A  Assembleia aprovou ontem em regime de urgência projetos de lei criando dois novos municípios: Montes Altos e Tum-Tum, o primeiro desmembrado de Imperatriz e o segundo de Presidente Dutra, projetos de autoria dos deputados [ILEGÍVEL, provavelmente Nunes Freire] e Eurico B. Ribeiro, respectivamente."

           Embora a nota se encontre praticamente ilegível, afirmo que, com base nos parcos conhecimentos como pesquisador em documentos escritos deteriorados, rasurados ou com grafia com vício de forma, acredito que consegui transcrever com certa precisão, (ou pelo menos o essencial) o primeiro parágrafo do texto informativo do Jornal do Povo, em sua edição do dia 02 de setembro de 1955. 

        Trata-se de uma publicação, um  dia após a Assembleia Legislativa do Maranhão aprovar projetos de lei, os quais apresentaram a proposta de emancipação política de dois novos municípios em 1º de setembro: Montes Altos e Tuntum. No caso específico de Tuntum a lei aprovada foi a 1362/55, que foi sancionada pelo Governador do Maranhão  no dia 12 de setembro de 1955. Data esta, escolhida pelos políticos da época para se comemorar o aniversário da municipalidade.

            O que mais desperta a atenção na breve nota, e, ao mesmo tempo, não menos instigante é a expressão "em regime de urgência", a qual nos leva  a refletir sobre as circunstâncias históricas em que tais leis foram aprovadas.

            Sabemos que em 1955 ocorreram eleições estaduais no Maranhão, um pouco mais de um mês, 03/10/1955, da aprovação dos projetos de emancipação supracitados, além de outros fatores. Desse modo, cabe indagar:

    • Por que tais propostas foram submetidas a votação em regime de urgência?
    • Quais os interessados na emancipação política de Tuntum?
    • Quais os personagens e sujeitos históricos envolvidos do processo?
    • Havia opositores ao projeto de emancipação? Quem eram? Por que se opunham?
    • A urgência para aprovação omitia os reais interesses ante a opinião pública? 
    • Ou a celeridade da matéria foi uma estratégia para evitar a oposição de quem em tese teria os seus interesses prejudicados, a exemplo da classe política de Presidente Dutra que teve o seu território reduzido em mais de 70% com o desmembramento de Tuntum?
    • Qual a relação do projeto de lei de criação do município de Tuntum com as eleições estaduais de 1955?

    Tais questionamentos deixo aqui para instigar a curiosidade ou fazer o exercício mental de investigar e compartilhar conosco informações relevantes sobre uma etapa importantíssima no processo histórico de emancipação política de Tuntum em 1º de setembro de 1955.

    Há exatamente 71 anos...

    Assim sendo, sugiro o texto: Processo de emancipação política de Tuntum-MA em https://ecosdetuntum.blogspot.com/2016/09/por-jean-carlos-goncalves-em-fins-da.html e aguardo por ti!

    Até breve!!

    Uma história que começou aqui: Dr. João Batista Rodrigues de Andrade retorna à escola de sua infância

    Por Jean Calos Gonçalves

    Dr. João Batista Rodrigues de Andrade
    Fonte: Moura Snap, 2026.

    O Centro Educa Mais Isaac Martins, em Tuntum, viveu nesta última sexta-feira 29/08/2026, um daqueles momentos que ultrapassam os limites de uma atividade escolar e se transformam em experiência de memória, inspiração e pertencimento. Em sua terra natal, o renomado advogado Dr. João Batista Rodrigues de Andrade, atualmente com 74 anos, retornou à escola onde, ainda menino, aprendeu as primeiras letras, no início da década de 1960, para conversar com os jovens estudantes sobre os caminhos que podem conduzir à realização de sonhos.

    A visita teve um significado especial. Décadas depois de deixar os bancos escolares de Tuntum, João Batista Rodrigues de Andrade voltou ao antigo espaço de sua formação para compartilhar com uma nova geração um pouco de sua trajetória de vida. Ainda pré-adolescente, partiu para Teresina, no Piauí, onde cursou o ginasial. Posteriormente, seguiu para o Rio de Janeiro e, mais tarde, estabeleceu-se definitivamente em São Paulo, onde se formou em Direito e construiu uma carreira profissional de reconhecido êxito. 

    Mais do que narrar uma trajetória profissional, o advogado falou aos estudantes sobre estudo, disciplina, vocação, escolhas, formação acadêmica, profissão e perseverança. Sua presença na escola que marcou os primeiros passos de sua vida intelectual revestiu-se, assim, de um forte caráter simbólico: aquele menino que um dia aprendeu ali as primeiras letras retornava agora como profissional experiente para dizer aos jovens que o conhecimento pode abrir caminhos e transformar destinos.

    Fonte: Moura Snap, 2026.

    Ressalte-se que o Dr. João Batista é o primeiro tuntuense a concluir o curso de Bacharel em Direito na Universidade de São Paulo-USP (1980), o mestrado em Direito Processual Penal. 1983, e, ainda, o primeiro conquistar o título de doutorado em Direito Civil, em 1985. (Leia sobre sua trajetória em: https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/08/joao-batista-rodrigues-de-andrade.html).

    Fonte: Moura Snap, 2026.
    O encontro foi articulado pelo professor Jean Carlos Gonçalves, que há pelo menos uma década mantém diálogo e relação de amizade intelectual com o Dr. João Batista. Professor e articulador da iniciativa, Jean Carlos levou à equipe gestora do Centro Educa Mais Isaac Martins a proposta de proporcionar ao ilustre ex-aluno esse reencontro com sua antiga escola e, aos estudantes, a oportunidade de ouvir uma história de vida marcada pelo estudo, pela determinação e pela conquista profissional.

    Prof. Jean Carlos Gonçalves, vice-presidente da ATLEA
    Fonte: Moura Snap, 2026.

    A iniciativa contou com a acolhida dos jovens estudante e da equipe escolar, liderada pelo gestor geral Anderson Coelho, que compreendeu a importância do momento e contribuiu para que o encontro se concretizasse. Dessa forma, a escola abriu suas portas não apenas para receber um antigo aluno, mas para celebrar sua própria memória e aproximar diferentes gerações em torno da educação.

    Anderson Coelho - Gestor Geral do CEM Isaac Martins
    Fonte: Moura Snap, 2026.
    O momento contou também com a participação da Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes – ATLEA, representada por seu presidente, Professor Emerson de Araújo, que foi convidado a fazer uso da palavra. Sua presença conferiu ao encontro uma dimensão ainda mais significativa, aproximando a escola de uma instituição dedicada à valorização das letras, da educação, das artes e da memória cultural de Tuntum.

    Prof. Emerson Araújo, presidente da ATLEA
    Fonte: Moura Snap, 2026.
    Em sua participação, o Professor Emerson destacou a relevância de iniciativas que aproximam a comunidade escolar de personalidades cuja trajetória está vinculada à história do município. Como gesto de apreço e valorização da cultura e da produção intelectual, presenteou o Dr. João Batista com alguns de seus livros, deixando também exemplares para o acervo da escola e outros para serem sorteados entre os estudantes.

    Prof. Emerson entrega exemplares para o Prof. Anderson Coelho
    Fonte: Moura Snap, 2026.

    O gesto representou mais do que a simples entrega de livros. Simbolizou a crença de que livros, memórias e histórias de vida também são instrumentos de formação. Ao deixar suas obras na escola e colocá-las ao alcance dos estudantes, a ATLEA contribuiu para prolongar os efeitos daquele encontro para além da palestra, estimulando a leitura e aproximando os jovens da produção literária e cultural de sua própria terra.

    A palestra foi marcada por uma conversa serena, espontânea e recheada de informações e experiências. O Dr. João Batista falou aos jovens com a autoridade de quem percorreu diferentes caminhos e enfrentou desafios, mas também com a simplicidade de quem reconhece na escola de sua infância uma das raízes de sua própria história.

    Fonte: Moura Snap, 2026.
    A participação dos estudantes demonstrou o interesse despertado pelo encontro. Especialmente ao final da palestra, vários jovens formularam perguntas ao convidado, estabelecendo um diálogo franco sobre escolhas profissionais, universidade, mercado de trabalho, vocação e projetos de vida. O momento revelou que, quando a experiência de vida encontra a curiosidade juvenil, a escola se transforma em espaço privilegiado de diálogo entre passado, presente e futuro.

    Fonte: Moura Snap, 2026.

    Ao término, o Dr. João Batista foi convidado pelos estudantes para uma sessão de fotografias e vídeos, protagonizada pelos jovens integrantes do Clube de Mídias e Jornalismo do Centro Educa Mais Isaac Martins. As lentes dos estudantes registraram não apenas a presença de uma personalidade, mas um reencontro carregado de significado: o antigo aluno diante da escola que um dia o acolheu e os jovens de hoje diante de alguém que lhes apresentava, através da própria história, a possibilidade de construir novos caminhos.

    A presença da escola, do palestrante, dos professores, da ATLEA e dos jovens estudantes fez daquele encontro uma verdadeira celebração da educação, da memória e da cultura. A iniciativa mostrou que preservar a história de uma comunidade também significa reconhecer aqueles que dela partiram, acompanharam diferentes caminhos e retornam para compartilhar suas experiências com as novas gerações.

    O encontro ficará como uma das experiências marcantes deste ano letivo do Centro Educa Mais Isaac Martins. Afinal, há visitas que são apenas visitas, e há reencontros que se tornam memória. O retorno de João Batista Rodrigues de Andrade à escola onde aprendeu as primeiras letras pertence à segunda categoria.


    Entre as paredes de uma antiga escola, um menino do passado encontrou os jovens do presente para lhes falar sobre o futuro. E, naquele encontro, a educação mostrou novamente que sua verdadeira grandeza está em ajudar cada geração a descobrir que sempre é possível ir mais longe.