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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

As lacunas documentais e os desafios para escrever a história de Tuntum - O caso da Escola Isaac Martins

Por Jean Carlos Gonçalves 

Escrever a história de um município como Tuntum constitui uma tarefa que ultrapassa a simples reunião de datas, nomes e acontecimentos. Trata-se de um trabalho de investigação que exige o confronto entre diferentes tipos de fontes — documentos oficiais, jornais, livros, registros cartoriais, fotografias, depoimentos, correspondências, arquivos escolares, documentos administrativos, mapas, objetos e outros vestígios do passado. No entanto, uma das principais dificuldades para a construção de uma história sistemática de Tuntum reside justamente na inexistência, carência, dispersão, deterioração e, sobretudo, nas dificuldades de acesso às fontes históricas capazes de esclarecer determinados acontecimentos relevantes da trajetória do município.

Essa realidade produz consequências significativas. Quando os documentos desaparecem, não são preservados, permanecem em arquivos de difícil acesso ou ainda não foram localizados pelos pesquisadores, determinados acontecimentos podem permanecer desconhecidos, parcialmente conhecidos ou sujeitos a interpretações construídas a partir de informações transmitidas oralmente. A memória coletiva, embora constitua uma fonte importante para a pesquisa histórica, está sujeita a esquecimentos, silenciamentos, deslocamentos de nomes, datas e acontecimentos e à incorporação de versões que, com o passar do tempo, podem adquirir aparência de verdade histórica.

Em Tuntum, essa situação pode ser percebida em diferentes aspectos de sua história política, educacional e social. Um exemplo particularmente significativo é a trajetória da Escola Isaac Martins, reconhecida como a instituição escolar mais antiga da cidade. Apesar de sua importância para a história da educação local, ainda existem lacunas documentais e informativas acerca de sua fundação, de suas primeiras atividades, das circunstâncias que determinaram a escolha de sua denominação, de seus primeiros responsáveis, de sua organização administrativa e de sua evolução ao longo das décadas. A ausência ou a dificuldade de localização de documentos capazes de responder a essas questões favorece o surgimento de versões divergentes e, muitas vezes, de informações reproduzidas sem a necessária comprovação documental.

Um caso emblemático dessa problemática encontra-se justamente na denominação Isaac Martins. É relativamente comum encontrar, entre moradores de Tuntum e até mesmo entre professores, servidores públicos e agentes políticos, a associação do nome da escola ao primeiro prefeito da história do município, Isaac da Silva Ribeiro. Entretanto, essa identificação não deve ser tomada como verdadeira sem que seja confrontada com as fontes históricas disponíveis.

O Dr. Isaac Martins dos Reis, por sua vez, foi juiz de Direito e personagem vinculado à história do Maranhão no século XIX (vide https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/08/128-anos-do-falecimento-do-dr-isaac.html). Trata-se, portanto, de uma pessoa distinta de Isaac da Silva Ribeiro, primeiro prefeito do município (1955-1959) e que assinou a ordem de serviço para a construção do prédio da "Escola Reunida Dr. Isaac Martins" em 28 de dezembro de 1956. A semelhança ou aproximação entre os nomes pode ter contribuído para a construção e a perpetuação da confusão, sobretudo quando os registros documentais sobre a origem da escola não estão disponíveis de maneira suficiente para esclarecer definitivamente a questão.

Página parcial do Livro de Decretos do prefeito Isaac da Silva Ribeiro -  Decreto de Lei Nº 03 de 28 de dezembro de 1956, um dia após a sua posse.
Por outro lado, há testemunhos de que a instituição da escola foi realizada quando Tuntum ainda era um povoado do município de Barra do Corda no início da década de 1930 e que a mesma funcionava num barracão de pau-a-pique no mesmo local onde foi construído o prédio, conforme a imagem abaixo, publicada em 1959 na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros pelo IBGE.


Todavia até o presente momento não encontramos nenhuma lei municipal de Barra do Corda ou outra fonte relacionada a fundação da instituição. Já na imagem do Decreto nº03/1955, observa-se nitidamente que o documento assinado pelo Prefeito Isaac Ribeiro sentencia: "Art. 01 - Ficam criadas, de interesse do serviço público, as seguintes escolas primárias municipais." Por enquanto é o que temos de evidência documental e, em que pese, supera as informações do histórico do agora Centro Educa Mais Isaac Martins, em seu Projeto Político Pedagógico, pois não há qualquer referência documental do texto sobre a origem da escola, que há mais de quatro décadas passou a pertencer a rede estadual de ensino. Não desconsideramos a memória oral, nem tão pouco a síntese textual em posse da gestão da instituição, mas sem documentos podemos incorrer em sérios equívocos. Portanto, precisamos investigar.

Esse exemplo demonstra como uma lacuna documental não representa apenas um problema acadêmico. A ausência de fontes pode interferir diretamente na maneira como uma comunidade compreende e transmite sua própria história. Uma informação inicialmente equivocada, quando repetida ao longo de gerações, pode transformar-se em memória coletiva e, posteriormente, ser reproduzida em discursos institucionais, materiais escolares, publicações e cerimônias oficiais, adquirindo uma aparência de legitimidade que somente a pesquisa histórica sistemática pode confirmar ou contestar.

Por essa razão, não se deve confundir memória com história, nem tradição oral com prova documental, embora ambas sejam fundamentais para a investigação do passado. A memória oferece pistas, testemunhos e interpretações construídas pelos sujeitos históricos; os documentos, por sua vez, permitem ao pesquisador confrontar essas narrativas com evidências produzidas em determinado contexto. O trabalho do historiador consiste justamente em colocar essas diferentes fontes em diálogo, identificando convergências, contradições, silêncios e lacunas.

No caso de Tuntum, portanto, escrever a história do município significa também enfrentar aquilo que ainda não sabemos. As lacunas documentais não devem ser preenchidas arbitrariamente por suposições ou versões repetidas pela tradição. Ao contrário, precisam ser explicitadas como parte da própria pesquisa histórica. Dizer que determinado acontecimento ainda não pôde ser comprovado documentalmente é, em si, uma atitude de rigor científico. A honestidade historiográfica exige distinguir aquilo que está comprovado por fontes daquilo que permanece como hipótese, memória, tradição ou interpretação.

É nesse sentido que a construção da história de Tuntum deve ser compreendida como um processo permanente de localização, preservação, crítica e interpretação das fontes históricas. Arquivos públicos e privados, registros escolares, documentos das antigas administrações municipais, jornais, cartórios, igrejas, associações, fotografias de famílias, acervos particulares e relatos de antigos moradores podem conter informações fundamentais para preencher capítulos ainda pouco conhecidos da trajetória do município.

Preservar essas fontes significa, portanto, preservar a própria possibilidade de conhecer o passado. Cada documento perdido representa não apenas a perda de um papel ou de uma fotografia, mas também a possibilidade de compreender melhor uma experiência, uma instituição, uma pessoa ou um acontecimento. Da mesma forma, cada documento localizado e devidamente preservado pode contribuir para corrigir versões equivocadas, esclarecer controvérsias e devolver à comunidade personagens e acontecimentos que permaneceram esquecidos.

A história de Tuntum ainda possui muitos capítulos a serem investigados. A tarefa de construí-los exige paciência, método e, sobretudo, disposição para reconhecer que existem perguntas para as quais ainda não dispomos de respostas definitivas. O desafio não está apenas em contar o que aconteceu, mas em demonstrar, por meio das fontes disponíveis, como podemos saber que determinado acontecimento ocorreu. Nesse processo, a dúvida não representa uma fraqueza da história; ao contrário, constitui o ponto de partida para a investigação.

Assim, diante das lacunas existentes, a construção de uma história de Tuntum exige um esforço coletivo de pesquisa e preservação da memória documental do município. Mais do que reunir acontecimentos, é necessário recuperar vestígios, confrontar versões, identificar personagens, localizar documentos e registrar testemunhos antes que desapareçam. Somente dessa maneira será possível substituir o conhecimento fragmentado e as versões transmitidas sem comprovação por uma narrativa histórica mais consistente, crítica e fundamentada nas fontes.

O caso da Escola Isaac Martins sintetiza, de maneira exemplar, esse desafio: quando a documentação não é preservada ou permanece inacessível, a memória ocupa o espaço deixado pelo documento; e, nesse espaço, podem nascer confusões que o tempo transforma em certezas. Investigar, documentar e preservar a história de Tuntum significa, portanto, não apenas conhecer melhor o passado, mas também impedir que o esquecimento e a repetição de versões não comprovadas determinem aquilo que as futuras gerações acreditarão ter acontecido.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

128 ANOS DO FALECIMENTO DO DR ISAAC MARTINS

 Por Jean Carlos Gonçalves

Dr Isaac Martins dos Reis

Há exatamente 128 anos silenciava-se a voz de um dos mais destacáveis filhos do Sertão maranhense da segunda metade do século XIX: Isaac Martins dos Reis.

Indubitavelmente, foi uma figura singular da história política e intelectual do Maranhão oitocentista, especialmente de Barra do Corda-MA. Inegavelmente uma das efemeridades do Maranhão oitocentista, por outro lado, apesar de breve, teve uma vida intensa, que protagonizou fatos marcantes nas duas últimas décadas daquele século.

Sua trajetória combina Direito, magistratura, educação, jornalismo, republicanismo e participação na organização constitucional do Maranhão.

Natural da então Vila de Loreto-MA, hoje sede do município de mesmo nome, em abril de 1854*, Isaac Martins era filho do piauiense proprietário e criador de gado Domiciano Martins dos Reis e Ana Joaquina de Jesus. 

Segundo, o Professor Galeno Edgar Brandes em seu livro "Barra do Corda na História do Maranhão", registra que Isaac Martins fora alfabetizado em idade adulta, depois de ouvir queixas de seu genitor após perder uma causa na justiça. O mesmo lamentara-se do fato de ter vários filhos e não havia um, sequer, letrado para defender os interesses da família. A partir disso, o próprio Isaac Martins, vendeu várias cabeças de gado de seu rebanho para investir na própria educação (Castro, 2019, p. 12).

Para tal empreendimento, deixa o seio familiar com destino a cidade de Caxias, centro de efervescência cultural do sertão maranhense, onde conhece as primeiras letras e realiza estudos elementares. 

Em 1879 é matriculado do curso de Ciências Jurídicas na Faculdade de Direito do Recife-PE. 

Antes mesmo de concluir o curso, em 1883 é nomeado Promotor de Justiça para de Barra do Corda, pelo governador da Província do Maranhão, Dr. José Manuel de Freitas.

(O Publicador Maranhense, 28 de março de 1883, Apud Castro, 2019)
Em decorrência das condições sanitárias da Vila de Barra do Corda e da epidemia de varíola nos anos de 1882 e 1883 que dizimou considerável número de pessoas, o Dr. Isaac Martins de saúde fragilizada, pede licença remunerada em pelo menos três ocasiões devido a "moléstias" (Castro, 2019, p.17). Num desses intervalos de tempo é que conclui o curso de Direito no Recife.

Em 1884 abre o seu próprio escritório de advocacia em Barra do Corda. No mesmo ano funda uma escola para atender os filhos sertanejos ativando ainda mais o seu engajamento social e político. Ainda naquele ano, pede exoneração do cargo de Promotor Público para pleitear, sem sucesso, o cargo de deputado provincial. No ano seguinte, solicita nomeação de Juiz Municipal de Órfãos do termo de Loreto, sua terra natal. Em 6 de março de 1886, é nomeado para o mesmo cargo para a Vila de Barra do Corda e em 11 de novembro do mesmo ano assume o cargo de Juiz Municipal.

Abolicionista e republicano convicto numa conjuntura em que o Império já cambaleava, fundou em 1888, ao lado de Frederico Figueira, Dunshee de Abranches e Antônio Rocha Lima, o periódico, O Norte, em Barra do Corda, quando naquele contexto tornou-se um dos principais núcleos de propagação das ideias republicanas no interior maranhense e o jornal, um instrumento de difusão das novas ideias políticas que prenunciam a derrocada da Monarquia no Brasil.

Com a instauração do regime republicano ascende à magistratura, sendo nomeado juiz de Direito da Comarca de Riachão em 1889. Em fevereiro do ano seguinte é transferido novamente para Barra do Corda.

Em 1891, egresso na vida política pelo Partido Republicano compõe a diretoria da Assembleia Constituinte de 1891 na condição de 1º Secretário. 
Fotografia parcial da página do Livro da Comissão Constituinte do Maranhão em 1891

Em 1892 é o Dr Isaac Martins é afastado da magistratura em retaliação pelo governador nomeado Manoel Belfort Vieira, em razão daquele não reconhecer a autoridade do Chefe do Excutivo estadual. nomeado pelo Presidente da República, Floriano Peixoto. Sempre fiel aos seus ideais, em coerência com suas convicções e pautado no princípio de que "somente por eleição e nunca por aclamação poderia haver investidura num cargo eletivo". (Filho, Domingos Vieira, 1971, Apud. Castro, 37), não reconheceu a investidura de Belfort Vieira.

Com não era afeto a conchavos, nem tão pouco cortejar os poderosos, permaneceu avulso até seus último dias.

Em de julho de 1898 em viagem a São Luís contrai uma enfermidade que ceifaria a sua vida, às 9h da manhã do 13 de agosto seguinte, quando  contava apenas 44 anos.
Assim, silenciou-se a voz do intrépido sertanejo Isaac Martins do Reis:  juiz, promotor, educador, jornalista, abolicionista, republicano, deputado constituinte em 1891, o:

"DEPUTADO FEDERAL DR ISAAC MARTINS DOS REIS, O GRANDE LÍDER DO REPUBLICANISMO DOS SERTÕES MARANHENSES."

O enunciado supracitado li pela primeira vez no pátio do colégio Unidade Integrada Isaac Martins em agosto de 1987, quando em primeiro dia de aula na nova escola, pois minha família tinha chegado recentemente na cidade.
Obviamente do alto dos meu dourados 8 anos não tinha dimensão da grandeza de tão ilustre filho do Sertão maranhense representava.
Hoje, tomado de um forte saudosismo afirmo que agora com bem mais clareza de sua relevância histórica, estabeceremos um contínuo esforço para que o protagonismo de Isaac Martins não seja ignorado por aqueles que virão.

__________
*Há controvérsias acerca da exata data de nascimento de Isaac Martins. A documentação da Faculdade de Direito do Recife registra: Isaac Martins Reis — 18 de abril de 1854 — Maranhão — filho de Domiciano Martins Reis. Entretanto, uma relação baseada no Livro de Certidões de Idade da Faculdade de Direito do Recife registra 10 de abril de 1854. Já a tradição biográfica local, baseada em fontes posteriores, indica 1º de abril de 1854, na Fazenda Santo Antônio, município de Loreto.
 
BIBLIOGRAFIA
BRANDES, Galeno Edgar. Barra do Corda na História do Maranhão. - São Luís-MA: SIOGE, 1994.
CASTRO, Kissyan. Isaac Martins; Série Barra-cordenses Ilustres. Notas bibliográficas pesquisa e edição de Kissyan Castro. Edições ABCL, 2019.

A SEMAS REALIZA COM SUCESSO O II FÓRUM DE MEIO AMBIENTE EM TUNTUM-MA

Por Amilson Dilacerda

Professora Rossana Lobo, o ambientalista Laércio Guedes, o Secretário da SEMAS Amilson Dilacerda, Secretária Adjunto Tayná Sousa, representante SEMAS de Grajaú-MA, Ágila Assunção e o Professor e geógrafo Fernando Fernandes.
Com o tema “Meio Ambiente e Futuro: escolhas que transformam”, a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Tuntum-MA-SEMAS realizou o 2º Fórum do Meio Ambiente de Tuntum, reunindo estudantes, professores, ativistas, autoridades e representantes da sociedade civil em um espaço lotado, sendo, portanto, uma ação importante e realizado com sucesso, nesta quarta-feira, 12/08/2026.
Grupo de técnicos da SEMAS e SEMED ao lado da presidente do Conselho Municipal de Educação, Wilma Leda (de vemelho), a Conselheira Professora Wildirlene Rocha e o Professor Emerson Araújo, conselheiro e presidente da ATLEA.
O encontro promoveu debates, troca de experiências e construção de conhecimentos sobre os desafios ambientais e a responsabilidade de construir um futuro mais sustentável. Os palestrantes trouxeram abordagens firmes e relevantes sobre preservação e sustentabilidade, que na ocasião foram: Laércio Guedes, ambientalista e ex-secretário de Meio Ambiente de Presidente Dutra-MA; O Professor geógrafo efetivo da rede de ensino municipal de Tuntum, Fernando Fernandes, e; a Professora Rossana Lobo,  Diretora da UNICESUMAR (pólo de Tuntum), que é membro da Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes-ATLEA.

A expressiva participação do público reforçou o compromisso da Prefeitura de Tuntum com a pauta ambiental, na gestão do prefeito Fernando Pessoa, representado pelo prefeito em exercício Nelson do Nanxi.
Secretário Amilson Dilacerda e o
Prefeito em exercício Nelson do Nanxi.
O fórum deixou uma mensagem clara: as escolhas feitas hoje definem o meio ambiente e o futuro das próximas gerações.
Equipe da Secretaria Municipal de
Meio Ambiente e Sustentabilidade de Tuntum-MA


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O QUE É MAIS IMPORTANTE: O FATO OU A REPRESENTAÇÃO SOBRE O FATO?

Por Jean Carlos Gonçalves.

Vejamos!

Apesar do fato histórico não depender de registro ou documentação para acontecer, com o tempo sem qualquer vestígio pode cair no esquecimento coletivo ou ganhar interpretações e narrativas equivocadas, distorcidas causando prejuízos às futuras gerações.

Nessa perspectiva, observe que documentar os fatos é essencial para garantir uma reconstituição dos acontecimentos de forma mais assertiva. Do contrário, não documentar resulta em esquecer, distorcer, repetir equívocos e até perder direitos.

 Assim sendo, a sociedade se torna passível de:

1.Perda de memória e identidade – Sem documentos a história vira “fofoca”, ficaremos refém de diversas versões, o que compromete a construção de uma identidade coletiva e, portanto, o sentimento de pertencimento;

2.Repetição de erros –   Quem não conhece a história está fadado a repeti-la”. Com registos as guerras, crises econômicas, golpes, injustiças, etc., continuam ocorrendo. Imagem sem os registros? Por outro lado, a humanidades conseguiu superar muitas dificuldades e evoluiu materialmente e institucionalmente, basta observar os avanços tecnológicos e a ampliação de direitos de alguns segmentos sociais historicamente marginalizados;

3.Manipulação e apagamento – Quando não existe um documento, quem está no poder pode reescrever a versão que quiser. Ditaduras, revisionismos e narrativas falsas crescem nesse vazio. Sem registro fica fácil dizer: "isso nunca aconteceu”;

4.Prejuízo jurídico e social – fatos históricos viram prova: direito de terra indígena e quilombola, demarcação de fronteiras, aposentadoria por tempo de serviço, memória de vítimas. Sem documentos essas lutas perdem força na justiça e na política;

5.Perda de aprendizado – ciência, medicina, engenharia, arte... tudo avança porque alguém documentou o que deu certo e o que deu errado. Sem isso, cada geração recomeça ou recomeçaria do zero;

6.Apagamento de pessoas comuns – Se só se registra os feitos dos “grandes homens”, o trabalhador, o Professor Francisco Bonfim, a parteira Mariquinha Branco, a anônima funcionária da Farmácia de Dona Rita Coelho ou de Dona Inocência, por exemplo, saiam da vida.

A ausência de registro ou dificuldade de acesso aos parcos existentes sobre o município de Tuntum-MA é uma de nossas mazelas que mais me incomodam. Todos os anos quando se aproxima as festividades religiosas (e profanas) de agosto, das festas cívicas de Independência do Brasil e emancipação política de Tuntum no mês de setembro, assistimos a uma corrida desenfreada por informações históricas e nos faltam fontes confiáveis para a maioria das temáticas específicas pesquisadas. Em alguns casos até existem registros, noutros ficamos reféns da memória oral, que é importante, mas pode ser arriscado, pois as narrativas transmitidas, muitas vezes são carregadas de intencionalidades. Exageros, omissões, meias verdades são recorrentes.

 Infelizmente, os nossos pioneiros desbravadores não eram letrados e/ou não se preocuparam em documentar os fatos idos, vividos desde o início do povoamento. Se o fizeram, estão ocultos ou se perderam com o tempo. Sabe-se que muitos documentos dormem “em berço nada esplêndido” em arquivos de cartórios de registros civis, das igrejas, das paróquias, dioceses. Há aqueles que são devorados pelas traças, submersos em poeira e ácaros, outros, lamentavelmente, foram incinerados ou subtraídos, como as leis dos símbolos do município que não se encontram nem nos anais da Câmara Municipal, nem da Prefeitura.

Por isso, em tempos de avanço das tecnologias da comunicação e da informação não se deve abdicar de realizar os registros sejam escritos, fotográficos, sonoros, audiovisuais, etc., os quais poderão ser os documentos do futuro, fontes para as próximas gerações apreciarem ou organizarem os espaços de memória, como acervos, museus, produzirem livros, documentários, e, assim, não padeçam do que ora nos flagela: a indiferença para com memória coletiva.

Para tal deve-se reconhecer que somente com fontes históricas, com os vestígios do passado, poderemos reconhecer, interpretar do modo mais fidedigno a importância e mensurar os impactos que um fato histórico faz recair sobre a nossa sociedade.


NOTA EDITORIAL: AMANHÃ publicarei um texto para exemplificar concretamente os efeitos negativos resultantes da ausência de documentação histórica em Tuntum-MA.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

CAXIAS, MULHER DE FERIDAS E MEMÓRIAS

 Por Joseneyde Lua*

Caxias era uma mulher

quando a guerra chegou.


Tinha o rio nos cabelos,

a poeira nos pés

e os olhos acostumados

a procurar esperança

no horizonte do sertão.


Mas naquele tempo,

o horizonte trazia

homens armados.


Vinham do mato,

das estradas,

das fazendas,

da fome,

da revolta.


Vinham trazendo consigo

aquilo que os poderosos

não quiseram ouvir:


o grito dos esquecidos.


Caxias viu.


Viu o medo

fechar as portas.

Viu mães

esconderem os filhos.

Viu homens correrem

sem saber

se corriam da morte

ou em direção a ela.


Viu a pólvora

subir ao céu

e escurecer o dia.


E quando o primeiro tiro

rasgou o silêncio,

Caxias estremeceu.


Não era apenas

uma batalha.


Era o sertão

cobrando

uma dívida antiga.


Era a miséria

batendo às portas

do poder.


Era a história,

cansada de ser contada

somente

pela boca dos vencedores.


Caxias chorou.


Chorou pelos que tombaram

sem deixar retrato,

pelos que morreram

sem que seus nomes

chegassem aos livros,

pelos que foram chamados

de rebeldes

quando talvez fossem apenas

homens cansados

de perder.


Chorou porque toda guerra

tem seus mortos,


mas nem todo morto

tem quem conte

sua história.


E a cidade

guardou tudo.


Guardou o eco

dos cavalos.

O cheiro

da pólvora.

O medo

nas janelas.

A poeira

levantada pelas tropas.

O silêncio

depois do combate.


Guardou até aquilo

que ninguém quis guardar.


Os vencidos.

Os esquecidos.

Os que a História,

por muito tempo,

aprendeu a chamar

apenas pelo nome

da revolta.


Balaiada.


Como se uma palavra bastasse

para explicar

a fome,

a violência,

a desigualdade,

a esperança

e o desespero

de um povo.


Não bastava.

Nunca bastou.


Porque Caxias sabia.


Sabia que por trás

de cada homem armado

havia uma história.


Por trás de cada fuga,

havia uma família.


Por trás de cada corpo caído,

havia uma vida.


E por trás de cada silêncio,

havia alguém

tentando sobreviver.


O tempo passou.


As armas se calaram.

A poeira baixou.

Os mortos foram enterrados.


Mas a cidade

continuou de pé.


Mais velha.

Mais ferida.

Mais silenciosa.


E talvez ninguém perceba,

quando atravessa suas ruas,

que pisa sobre uma memória

que ainda pulsa.


Porque Caxias

não esqueceu.


Ela apenas aprendeu

a carregar suas dores

sem deixar de florescer.


Hoje, quando o vento

atravessa suas ruas

e o Itapecuru

segue seu caminho,

parece que a cidade escuta

as vozes daquele tempo.


E talvez diga, baixinho:


“Eu vi.”


Eu vi a guerra.

Eu vi a fome.

Eu vi os homens tombarem.

Eu vi o poder vencer.


Mas também vi

a coragem de quem não tinha nada

além da própria voz.


Por isso,

não me perguntem apenas

quem venceu a Balaiada.


Perguntem quem sofreu.

Perguntem quem foi esquecido.

Perguntem quem teve

sua história apagada.


Porque uma cidade

não é feita apenas

das pedras que permanecem.


É feita também

das lágrimas

que a terra bebeu.


E Caxias,

essa mulher antiga,

ainda carrega no peito

o rumor daquela guerra.


Não como orgulho

da violência.

Não como celebração

da morte.


Mas como memória.

Como cicatriz.

Como advertência.


Porque há guerras

que terminam

quando cessam os tiros.


E há outras

que continuam

enquanto houver

injustiça,

esquecimento

e silêncio.


Caxias viu a Balaiada.


E talvez seja por isso

que, até hoje,


quando a noite cai

sobre a cidade,

há uma parte do seu silêncio

que parece dizer:


“Não esqueçam.


Aqui, um dia,

a história sangrou.”

Joseneyde Lua, intelectual caxiense.

_________

*Joseneyde Castelo Branco Ferreira é professora, pesquisadora e ativista cultural, natural de Caxias. (Vide https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/08/goncalves-dias-203-anos-de-uma-voz-que.html)

O REGISTRO DE CASAMENTO DO POETA GONÇALVES DIAS.

 Por Creomildo Cavalhedo Leite*


Um mergulho no rio do tempo na grande efervescência da primeira quadra do Século XIX, na cidade de Aldeias Altas (Caxias Maranhão), dia 10 de agosto de 1823, na casa do Português João Manuel Gonçalves Dias e de Vicência Mendes Ferreira, nascia ANTÔNIO GONÇALVES DIAS, o nosso grande poeta.

Segue uma imagem da página 256 do livro de casamentos paroquiais e, posteriormente, a transcrição do documento original do registro de matrimônio ocorrido no Rio de Janeiro, em 26 de setembro de 1852.

Fonte: https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:939F-GKPC-C... Registros de casamentos paroquiais: Rio de Janeiro. Registros de casamento julho de 1835 - Fevereiro de 1853 - Imagem 295 de 298
Registro de Casamento Dr. Antônio Gonçalves Dias e Olimpia Cariolana da Costa.

"Aos 26 dias do mês de setembro de 1852, com Provisão competente e licença do Reverendo Vigário desta Matriz, na Igreja Parochial de Nossa Senhora, pelas cinco horas e meia da tarde, em presença do Reverendo da mesma. Marcos Cardoso de Paiva, e das Testemunhas Joaquim José Teixeira, João Duarte Lisboa Serra, se recebeu em Matrimônio por palavras de presente na forma do Sagrado Concilio Tridentino e Constituição do Bispado; o Doutor ANTÔNIO GONÇALVES DIAS, com Dona OLIMPIA CARIOLANA DA COSTA;
Elle filho de João Manuel Gonçalves Dias e de Vicência Mendes Ferreira, natural de Cachias da Província do Maranhão;
Ella Filha de Claudio Luiz da Costa, natural da Cidade da Bahia, como tudo constou da mencionada Provisão, e Certidão do dito Reverendo Marcos Cardoso de Paiva, e logo lhes deo as Bênçãos nupciais, na forma do Ritual Romano. Do que fiz este assento, e que assigno.
O Coadjuntor Francisco do Coração de Jesus (...) "

Creomildo Cavalhedo Leite
__________
*Pesquisador, cronista e genealogista. Natural de Santa Vitória, município de Barra do Corda-MA. Reside em Palmas-TO há mais de 35 anos, onde é funcionário público estadual.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

GONÇALVES DIAS: 203 ANOS DE UMA VOZ QUE NASCEU EM CAXIAS

Por Joseneyde Castelo Branco Ferreira*

Antônio Gonçalves Dias

Há nascimentos que pertencem a uma família. Outros pertencem a uma cidade. E há aqueles que, com o tempo, passam a pertencer a uma nação.

Há 203 anos, em 10 de agosto de 1823, nascia Antônio Gonçalves Dias.

Nascia em terras de Caxias, num Maranhão ainda atravessado pelas tensões da Independência. O Brasil já havia proclamado sua separação de Portugal, mas a ruptura não se fez de maneira uniforme. No Maranhão, a resistência à nova ordem prolongava os conflitos e colocava a região diante de um tempo de incertezas, disputas e enfrentamentos.

Foi nesse mundo em transformação que nasceu o filho de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português, e de Vicência Ferreira, mulher maranhense mestiça. Sua origem já carregava, portanto, algumas das contradições que atravessavam o próprio Brasil oitocentista: o português e o mestiço, a Europa e o Maranhão, a tradição colonial e uma nação que começava a se inventar.

Depois, a vida o levaria para longe.

Seu pai casou-se com Adelaide Ramos de Almeida, sua madrasta, que teria papel importante em sua formação e em sua partida para Portugal. Gonçalves Dias atravessaria o Atlântico, estudaria em Coimbra e entraria em contato com as correntes intelectuais e literárias que movimentavam a Europa. Mas, curiosamente, seria a distância de sua terra que ajudaria a fazer nascer uma das imagens mais poderosas do Brasil.

Longe do Maranhão, escreveu a “Canção do Exílio”.

E talvez esteja aí uma das grandes ironias da literatura: foi preciso afastar-se para que o poeta pudesse transformar a terra natal em palavra.

O Brasil de Gonçalves Dias não aparece apenas como território. Ele aparece como lembrança, natureza, saudade, identidade. E aparece também pela presença indígena, que ocupa lugar fundamental em sua obra, sobretudo em “I-Juca-Pirama” e nos fragmentos de “Os Timbiras”.

Mas é preciso olhar para Gonçalves Dias para além das páginas que decoramos na escola.

Ele foi um homem do século XIX tentando compreender o Brasil que nascia diante de seus olhos. Sua poesia participou da construção de uma ideia de nacionalidade. Sua escrita procurou dar forma literária a uma terra que ainda buscava reconhecer a própria face.

E talvez seja justamente por isso que Caxias não possa tratar Gonçalves Dias apenas como um nome de praça, de escola, de rua ou de monumento.

Ele é uma pergunta que a cidade continua fazendo a si mesma:
o que significa ter nascido aqui um poeta que ajudou o Brasil a dizer quem era?

Caxias foi o ponto de partida.

A poesia foi o caminho.

E a palavra fez o restante.

Hoje, quando se completam 203 anos de seu nascimento, não celebramos apenas a memória de um poeta caxiense. Celebramos a permanência de uma voz que atravessou o tempo porque conseguiu transformar a experiência particular de sua terra em uma linguagem capaz de alcançar o país inteiro.

Gonçalves Dias nasceu em Caxias, mas sua poesia não ficou em Caxias.

Saiu daqui.

Atravessou o Atlântico.

Voltou ao Brasil.

E continua atravessando gerações. 

Joseneyde Castelo Branco Ferreira
__________
*Joseneyde Castelo Branco Ferreira é professora, pesquisadora e ativista cultural, natural de Caxias. Licenciada em História pela Universidade Estadual do Maranhão e especialista em História do Brasil, atua na educação pública desde 2011.

É membro da Academia Caxiense de Letras, ocupando a cadeira nº 12, cujo patrono é Clóvis Beviláqua Vidigal. Integra a ASLEAMA desde 2012, tendo como patrono o historiador César Marques, e atualmente exerce o cargo de vice-presidente.

Preside o Instituto Poeta Carvalho Júnior e coordena o Sarau “Na Pele da Palavra”. Sua trajetória é marcada pelo compromisso com a valorização da cultura, da literatura e da memória histórica caxiense.