Por Jean Carlos Gonçalves.
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| Recorte do cabeçalho de um exemplar do jornal impresso Correio de Picos. Edição de 18/10/1913. |
A temática da Mata do Japão sempre me chamou atenção desde os tempos de criança, pois ouvia de meu pai muitas histórias relacionadas à vasta região natural do centro-maranhense, localizada entre os rios Itapecuru e Mearim, assim denominada pelos antigos desbravadores e colonos do sul maranhense e para onde ele migrou partindo do povoado Bacari dos Tavares, município de Barão de Grajaú (região denominada Lá Fora) para o então povoado da Palestina, hoje cidade de Graça Aranha (Mata do Japão), no início de 1952.
Em junho de 1992, meu pai Martinho Tavares, partiu para o outro plano, aos 74 anos, enquanto eu contava apenas 13. Desde então, ficou uma lacuna insuperável e as hstórias sobre a Zona do Japão ficaram na memória, mas adormecidas até eu iniciar o curso de História na UEMA em 2002.
A partir dessa nova experência, logo no primeiro período curso fui instigado pelos professores a lançar o olhar para o entorno, a cortejar a história local e regional, ainda pouco investigadas e, assim, a Mata do Japão despertou em mim novamente o desejo de continuar aprendendo sobre estas paragens e passou a ser objeto de minhas preocupações acadêmicas, até porque ninguém, até os dias atuais, se aventurou em pesquisar e publicar um trabalho mais específico e rigoroso sobre a área geográfica da região central do Maranhão. Muito embora, encontremos referências em algumas obras clássicas de nossa historiografia, como em História do Sul do Maranão (1979) e Geo-História do Maranhão (1985) de Eloy Coelho Netto; Caminhos do Gado (1992), de Maria do Socorro Coelho Cabral; Barra do Corda na História do Maranhão (1994), de Galeno Edgar Brandes; Memória das Passagens, de Fonseca Neto(2006); Viajando do Curador à Presidente Dutra (2007), de José Pedro de Araújo Filho. No ano de 2025, o ilustre tuntuense Adilon Alves, em obra autobiográfica sez um breve, mas excelente comentário sobre a área geográfica.
Desse modo, já são mais de duas décadas pesquisando, compilando fontes, referências, enfim, bucando qualquer evidência documental que possa lançar luzes sobre a geografia e a história da Mata do Japão, termo praticamente desconhecido pelas novas gerações, pois desde as últimas décadas do século XX e neste primeiro quartel do século XXI caiu em desuso, no quase esquecimento.
Por outro lado, com o advento das novas tecnologias da comunicação e da informação, especialmente a internet, assistimos a uma nova era no tocante ao acesso a fontes documentais, pois atualmente é considerável o número de instituições como museus, fundações, bibliotecas, etc., que estão digitalizando livros, relatórios, decretos, leis, mapas, jornais, revistas registros de casamento, de nascimento e batismo, etc.
Assim, temos conseguido algumas referências importantes sobre a Mata do Japão e nessa saga ao longo desses anos destaco a Hermeroteca da Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, a Plataforma Internacional de Genealogia Family Search com sede em Salt Lake City, Utah, nos Estados Unidos, e, o Acervo Digital da Biblioteca Benedito Leite, de São Luis-MA. Desta última, consegui há alguns anos edições do jornal da cidade de Picos (hoje a vizinha Colinas-MA), o Correio de Picos, do ano de 1913.
Esse periódico publicou alguns textos do Engenheiro Julio Jansem, que prestou serviço naquele municípo à epoca. O mesmo fora responsável por algumas construções e por demarcações e medições de terras na região, especialmente, no municípios de Colinas e Mirador.
Pouco sabemos sobre o ilustrado Engenheiro, não temos dados biográficos, mas reconhecemos que a família Jansem no Maranhão se destacou nos séculos XIX e XX com membros do clã atuando em setores estratégicos, como na Engenharia, Medicia e no campo do Direito.
No caso do Drº Julio Jansem, cujos serviços, até onde sabemos, se estenderam ao Piauí e ao Ceará, assinou alguns artigos sobre a Mata do Japão, em que apresentou o potencial natural da região como a abundância de manacias d'água, a regularidade das chuvas, as boas condições climáticas, a riqueza das matas e a fertilidade do solo, mas também do esquecimento/abandono da região pelo Estado, o isolamento resultante das dificuldades de transporte e comunicação em relação ao litoral, e, sobretudo, as condições de vida dos seus habitantes e sobre a necessidade de organizar núcleos de colonização para manter o sertanejo na terra e evitar a migração e também os conflitos agrários em razão da ausência da regularização das propriedades e das terras devolutas do Estado ocupadas pelos posseiros lavradores, além de potencializar o desenvolvimento de várias culturas agrícolas.
O artigo também tinha explícita necessidade de sensibilizar o Ministro da Agricultura para planejar e executar o sugerido projeto de colonização num momento em que o ciclo da borracha estava em declínio e muitos maranhenses estavam fazendo movimento migratório inverso, regressando à Mata do Japão.
Então compartilho abaixo, mantendo literalmente a grafia original, um dos registros* na íntegra, do Drº Júlio Jansem, a quem a Sociedade Geográfica de Berlim, na Alemanha, conferiu-lhe o título de sócio correspondente, em setembro de 1913.
"NÚCLEO AGRICOLA
Concentração de trabalhadores nacionais na Terras devolutas do Japão, comarca do Alto Itapecuru, Picos, Maranhão.
MARANHÃO
O povoamento do Maranhão limita-se
exclusivamente à facha do literal, região onde a salubridade é subordinada, em
geral ao grão de paludismo, visto ser baixa, humida, quente e palustre.
Tudo é differente nas terras
elevadas do interior. O clima é; pouco secco e temperado, e pode se affirmar
sem receio de contestação que o mesmo se presta, como outro qualquer, a vida
vegetativa, tanto para o proprio filho da regiao como para o oriundo de
outras paragens. O paludismo que reina temporariamente nos habitantes, é devido
em boa parte da vida que os mesmos levam, residindo em chopanas de palha
situadas nas margens dos rios e riachos perennes, e apparece somente nos mezes
das primeiras enchentes; é também devido á extrema idiossincrasia para os mais
elementares principios de hygiene. A não ser as enfermidades originadas nalguns
pontos, por causas locaes ou pela imprudencia de muitos. O interior do Maranhão
oferece aos que o procuram, vida longa e proveitosa, pela riqueza de suas mattas
e urberdade de seu solo.
Infelizmente isto é quasi desconhecido
e o interior do Maranhão passa aida hoje por doentil, esteril e mesmo
inhospito. O contrario entretanto e exacto e parece que os primeiros povoadores
prefcriram as rcgiões do littoral, sem duvida pela maior facilidade do
commercio com a capital e só muito tempo depois trataram de explorar o
interior, encontrando se ainda hoje enormes áreas de terra proprias para a
cultura quase deshabitada em sua maior extensão. A fertilidade e exhuberancia
do solo é proverbial, soberbas madeiras de
construcção encontram-se em abundancia, assim como preciosos metaes e diversas
essencias.
Queremos-nos referir a região de
terras de propriedade do Estado chamadas Japão. Situadas entre os rios
Itapecuru, Mearim e Alpercatas, numa enorme facha de 200 kilometros de extenção, nenhum desenvolvimento apresentam, somente aqui e acolá encontram-se algum
povoado izolado, em distancias de 20 a mais leguas, e desperças, pobres
chopanas de algum roceiro. Tudo isso devido a falta de regulamentação da venda
ou ou aforo das terras publicas, occupadas, porem inultimente, pela rezidência
habitual, cultivo do solo e exploração de suas riquzas naturaes. Os habitantes,
posseiros das ditas terras com a boa fé de estarem beneficiando a terra inculta que acharam, supondo-a sua, não a tendo
devidamente medida e demarcada, com titulos de dominio pleno passado pela autoridade
competente, ignoram onde começa o termo que lhe pertence e onde começa o dos
visinhos, de forma a estabelecer numa situação o cheia de duvida e nociva a
ordem publica.
Frequentemente chegam queixas, mais
ou menos fundadas às autoridades de invasões por parte de visinhos dos mesmos
acobertados pela natural ignorancia dos seus respectivos limites, dando causa a
luctas e represálias.
As terras do JAPÃO são de uma
fertilidade espantosa para a polycultura. As produções agricolas são: arroz,
algodão, milho, mandioca, feijão e canna de assucar etc. sendo facil de prever
muitas outras especies como café, cacau etc. ahi produzirão com excellente
resultado. Tambem para o cultivo da Maniçoba estas terras são excelentes e ja
existem diversas plantações, umas novas e outras ja sangradas ha anos.
O nosso fito e attrair as vistas do
digno e incançavel Ministro da Agricultura sobre esta zona enorme, em proveito
do colono nacional, para amparal-o contra o forte, dando-lhes meios para não
precisar emigrar. Essa emigração so tem lugar, quando o trabalhador não pode
absolutamente ganhar o seu sustento na terra que lhe servio de berço ou quando
precisa buscar fora o dinheiro que necessita para o pão de cada dia. A
intensidade dessa emigração natural e forçosa iria deminuindo lentamente a
proporção que os melhoramentos executados na zona fosse tomando o trabalho
menos forçado e consolidando a fortuna dos negocios dos nossos caboclos.
Com a desvarolisação da borracha,
muitos dos nossos emigrantes estão imigrando novamente em busca do lar antigo
procurando no cultivo do solo o que não possível obter na extração da borracha.
Para a concentração destes homens
nesta zona, seria de grande utilidade, o estabelecimento de um Centro Agricola,
n’um ponto apropriado nas terras devolutas do JAPÃO em beneficio do trabalhador
nacional e organisado segundo os moldes da lei Nº 6455 de 1907 sobre o
povoamento do Solo, identicos aos que já estão instalados em diversos Estados
da União, inclusive o Maranhão. No numero seguinte trataremos de indicar locaes
apropriados para Nucleos Coloniaes; nas terras do Japão.
Julio Jansem
ENGENHEIRO."
______________ *Artigo publicado no Jornal Correio de Picos em 18 de outubro de 1913. Ano IV; nº 97.