Por Jean Carlos Gonçalves
 |
| Imagem meramente ilustrativa, |
O que é agricultura familiar?
Trata-se de um modelo de produção rural em que a gestão e o trabalho são realizados principalmente por membros de uma mesma família, em pequenas propriedades (vide https://brasilescola.uol.com.br/geografia/agricultura-5.htm).
Quais são suas principais características?
A administração do negócio e o plantio ocorrem de forma conjunta entre os familiares.Diversidade de cultivos: Há foco na variedade de alimentos, como hortaliças, frutas, mandioca, feijão e criação de animais de pequeno porte.
Qual a sua importância social e econômica?
Segurança alimentar: É a principal responsável por colocar comida fresca e diversificada na mesa da população.Geração de empregos: Responde pela maior parte das ocupações no campo, fixando as pessoas na terra e reduzindo o êxodo rural.
Qual a trajetória histórica da agricultura familiar desde a formação do povoado Tuntum a partir de 1890 até os dias atuais?
A agricultura familiar constitui uma das bases históricas da formação econômica e social de Tuntum. Desde o final do século XIX, quando famílias de diferentes regiões, especialmente do Ceará, de outras áreas do Nordeste e de municípios da região sul do Maranhão, passaram a ocupar e cultivar terras da região conhecida como Mata do Japão, a produção de alimentos esteve ligada à sobrevivência, à organização das comunidades e ao abastecimento do então povoado de Barra do Corda.
Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, os agricultores cultivavam principalmente produtos destinados à alimentação das famílias e às trocas locais. Milho, arroz, algodão, feijão, mandioca, abóbora e batata-doce, etc., faziam parte desse sistema diversificado de produção. A mandioca tinha especial importância por sua resistência às condições climáticas e por permitir a fabricação de farinha, alimento fundamental na dieta sertaneja, especialmente, nos povoados São Lourenço, São Bento, São Joaquim dos Melos, Santa Rosa e localidades adjacentes na região do Alto Sertão tuntuense ou região das Areias. Na época, assim como Tuntum, todos esses povoados pertenciam ao município de Barra do Corda e, posteriormente, em 1943, passaram a fazer parte do território de Presidente Dutra. Com a emancipação política de Tuntum, em 1955, passam a integrar o território do novo município.
Cabe ressaltar que, quando o pioneiro José Naziozeno dos Santos e sua família se estabeleceram entre o Brejo do Caboclo e o riacho Tuntum, no atual núcleo urbano, por volta de 1890, também foi precursor no cultivo de cana de açúcar e no processamento do produto com a instalação de engenho para a moenda e fabricação de rapadura, garapa e cachaça, utilizando-se de técnicas tradicionais e equipamentos rústicos, cuja produção servia para o consumo familiar e local, por isso, a cana pode ser considerada como uma das culturas da agricultura familiar. O Engenho do Caboclo Naziozeno é um dos mais conecidos e lembrados atualmente na cidade de Tuntum.
No início do século XX, Luís Coelho e família se fixaram no povoado Arroz, seguindo o exemplo dos Naziozenos, se destacando também no cultivo da cana de açúcar. Vários outros emigrados também se dedicaram a produção de cana de açúcar e seus derivados, a exemplo, de João da Mata que chegou com sua família em 1949. O mesmo era o pai de Manoel da Mata, herdeiro do empreendimento agrícola e mais destacado produtor e fabricante de cachaça da cidade, falecido há poucos anos.
A partir das décadas de 1930 e 1940, com o crescimento do povoado e a ampliação das relações comerciais, a agricultura passou a atender não apenas ao consumo doméstico, mas também às feiras das cidades próximas e aos mercados locais. O cultivo do arroz, do milho e do algodão ganhou destaque na economia regional, enquanto o feijão, a mandioca, a macaxeira, a abóbora e outras culturas continuaram importantes para a alimentação cotidiana.
Nas décadas de 1950 e 1960, período que inclui a emancipação política de Tuntum (1955) e um vertiginoso crescimento demográfico, a agricultura familiar permanecia essencial para o abastecimento da população. Muitas famílias combinavam o cultivo de cereais com pequenas criações e o aproveitamento de produtos da natureza. A mandioca, por exemplo, podia ser transformada em farinha e goma; o milho era consumido verde ou seco; o feijão era utilizado em diferentes preparações; e a abóbora, o quiabo e o maxixe complementavam as refeições.
Entre as décadas de 1960 e 1980, as transformações econômicas, a expansão da pecuária e as mudanças no uso da terra alteraram o espaço rural. Em algumas áreas, a criação de gado passou a ocupar terras antes destinadas às lavouras. Ainda assim, a agricultura familiar continuou presente, especialmente na produção de alimentos para o consumo próprio e para a comercialização em pequena escala.
Em 1987, inaugurou-se a Barragem do rio Flores no vizinho município de Joselândia. O barramento foi responsável pela formação de um dos maiores lagos artificiais do estado, que atingiu uma extensa área do norte de Tuntum, deixando vários povoados submersos e obrigando milhares de lavradores e lavradoras a deixar a região, considerada uma das mais produtivas do município, o que impactou negativamente, desde então, a produção de arroz e milho, os produtos mais destacáveis.
A partir das décadas de 1990 e 2000, novas mudanças ocorreram, relacionadas à modernização das atividades rurais, às políticas públicas, ao acesso ao crédito, às condições das estradas, à disponibilidade de água e às oscilações dos preços agrícolas. Essas transformações influenciaram as escolhas dos produtores, mas não eliminaram a diversidade das pequenas roças. O arroz, o milho, o feijão, a mandioca, a macaxeira, a abóbora, o milho e outras culturas continuaram associados à alimentação, à renda e aos conhecimentos tradicionais das famílias. Contudo, se observa mais nitidamente, a partir de então, uma maior inclinação do município para pecuária bovina como principal atividade econômica, muito embora várias políticas públicas de incentivo à agricultura familiar tenham sido implementadas, tais como: desapropriação de áreas improdutivas, instalações de núcleos de colonização com relativa infraestrutura, crádito e assistência tácnica.
Como o município de Tuntum possui uma área territorial expressiva, 3.369,119 km², se registra ao longo das últimas décadas a criação de dezenas associações de trabalhadores rurais, entretanto, não tem cumprido efetivamente a sua função social e várias delas foram parcial ou totalmente abandonadas. Por outro lado, registra-se destaque positivo para os assentamentos do Belém I e II, no Médio Sertão e os assentamentos PA Paca e PA Serra Grande, no noroeste do município.
Em 2026, a agricultura familiar de Tuntum ainda pode ser compreendida como uma atividade que reúne produção de alimentos, geração de renda, preservação de saberes e manutenção de vínculos comunitários. Embora enfrente desafios como o alto custo da produção, a necessidade de uma melhor infraestrutura e de assistência técnica, a valorização do trabalho, a agricultura familiar permanece importante para a economia e para a identidade rural do município.
Entre as culturas que compõem esse universo, destacam-se:
- Feijão: alimento básico, rico em proteínas vegetais, fibras e minerais, cultivado para o consumo e a comercialização.
- Mandioca: utilizada na produção de farinha, goma e outros derivados, com grande importância alimentar e econômica.
- Macaxeira: consumida cozida, frita ou como ingrediente de bolos e outras receitas.
- Abóbora ou jerimum: empregada em ensopados, caldos, doces e acompanhamentos.
- Milho: utilizado na alimentação humana e animal, além de integrar diversas receitas tradicionais.
- Arroz: historicamente importante na alimentação e na produção agrícola regional.
- Batata-doce, quiabo, maxixe, melancia, banana e outras hortaliças e frutas: cultivados conforme as condições ambientais e as escolhas de cada família.
Assim, a história da agricultura familiar de Tuntum não se resume à produção de determinados gêneros agrícolas. Ela também representa a história do trabalho, da adaptação ao ambiente, da alimentação e da permanência de práticas culturais que atravessaram gerações. Estudar essas culturas é compreender como os agricultores contribuíram para formar o território, abastecer as comunidades e construir parte da identidade tuntuense.