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terça-feira, 1 de setembro de 2026

HÁ 71 ANOS A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO MARANHÃO APROVOU A EMANCIPAÇÃO DE TUNTUM

 Por Jean Carlos Gonçalves

Deputado Eurico Bartolomeu Ribeiro, autor da lei de criação do município de Tuntum-MA

Fonte: Jornal do Povo, 02 de setembro de 1955.

"TUM-TUM E MONTES ALTOS

DOIS NOVOS MUNICÍPIOS CRIADOS

A  Assembleia aprovou ontem em regime de urgência projetos de lei criando dois novos municípios: Montes Altos e Tum-Tum, o primeiro desmembrado de Imperatriz e o segundo de Presidente Dutra, projetos de autoria dos deputados [ILEGÍVEL, provavelmente Nunes Freire] e Eurico B. Ribeiro, respectivamente."

       Embora a nota se encontre praticamente ilegível, afirmo que, com base nos parcos conhecimentos como pesquisador em documentos escritos deteriorados, rasurados ou com grafia com vício de forma, acredito que consegui transcrever com certa precisão, (ou pelo menos o essencial) o primeiro parágrafo do texto informativo do Jornal do Povo, em sua edição do dia 02 de setembro de 1955. 

    Trata-se de uma publicação, um  dia após a Assembleia Legislativa do Maranhão aprovar projetos de lei, os quais apresentaram a proposta de emancipação política de dois novos municípios em 1º de setembro: Montes Altos e Tuntum. No caso específico de Tuntum a lei aprovada foi a 1362/1955.

        O que mais desperta a atenção na breve nota, e, ao mesmo tempo, não menos instigante é a expressão "em regime de urgência", a qual nos leva  a refletir sobre as circunstâncias históricas em que tais leis foram aprovadas.

        Sabemos que 1955 ocorreram eleições estaduais no Maranhão, um pouco mais de um mês, 03/10/1955, da aprovação dos projetos de emancipação supracitados, além de outros fatores. Desse modo, cabe indagar:

  • Por que tais propostas foram submetidas a votação em regime de urgência?
  • Quais os interessados na emancipação política de Tuntum?
  • Quais os personagens e sujeitos históricos envolvidos do processo?
  • Havia opositores ao projeto de emancipação? Quem eram? Por que se opunham?
  • A urgência para aprovação omitia os reais interesses ante a opinião pública? 
  • Ou a celeridade da matéria foi uma estratégia para evitar a oposição de quem em tese teria os seus interesses prejudicados, a exemplo da classe política de Presidente Dutra que teve o seu território reduzido em mais de 70% com o desmembramento de Tuntum?
  • Qual a relação do projeto de lei de criação do município de Tuntum com as eleições estaduais de 1955?

Tais questionamentos deixo aqui para instigar a curiosidade ou fazer o exercício mental de investigar e compartilhar conosco informações relevantes sobre uma etapa importantíssima no processo histórico de emancipação política de Tuntum em 1º de setembro de 1955.

Há exatamente 71 anos...

Assim sendo, sugiro o texto: Processo de emancipação política de Tuntum-MA em https://ecosdetuntum.blogspot.com/2016/09/por-jean-carlos-goncalves-em-fins-da.html e aguardo por ti!

Até breve!!

Uma história que começou aqui: Dr. João Batista Rodrigues de Andrade retorna à escola de sua infância

Por Jean Calos Gonçalves

Dr. João Batista Rodrigues de Andrade
Fonte: Moura Snap, 2026.

O Centro Educa Mais Isaac Martins, em Tuntum, viveu nesta última sexta-feira 29/08/2026, um daqueles momentos que ultrapassam os limites de uma atividade escolar e se transformam em experiência de memória, inspiração e pertencimento. Em sua terra natal, o renomado advogado Dr. João Batista Rodrigues de Andrade, atualmente com 74 anos, retornou à escola onde, ainda menino, aprendeu as primeiras letras, no início da década de 1960, para conversar com os jovens estudantes sobre os caminhos que podem conduzir à realização de sonhos.

A visita teve um significado especial. Décadas depois de deixar os bancos escolares de Tuntum, João Batista Rodrigues de Andrade voltou ao antigo espaço de sua formação para compartilhar com uma nova geração um pouco de sua trajetória de vida. Ainda pré-adolescente, partiu para Teresina, no Piauí, onde cursou o ginasial. Posteriormente, seguiu para o Rio de Janeiro e, mais tarde, estabeleceu-se definitivamente em São Paulo, onde se formou em Direito e construiu uma carreira profissional de reconhecido êxito. 

Mais do que narrar uma trajetória profissional, o advogado falou aos estudantes sobre estudo, disciplina, vocação, escolhas, formação acadêmica, profissão e perseverança. Sua presença na escola que marcou os primeiros passos de sua vida intelectual revestiu-se, assim, de um forte caráter simbólico: aquele menino que um dia aprendeu ali as primeiras letras retornava agora como profissional experiente para dizer aos jovens que o conhecimento pode abrir caminhos e transformar destinos.

Fonte: Moura Snap, 2026.

Ressalte-se que o Dr. João Batista é o primeiro tuntuense a concluir o curso de Bacharel em Direito na Universidade de São Paulo-USP (1980), o mestrado em Direito Processual Penal. 1983, e, ainda, o primeiro conquistar o título de doutorado em Direito Civil, em 1985. (Leia sobre sua trajetória em: https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/08/joao-batista-rodrigues-de-andrade.html).

Fonte: Moura Snap, 2026.
O encontro foi articulado pelo professor Jean Carlos Gonçalves, que há pelo menos uma década mantém diálogo e relação de amizade intelectual com o Dr. João Batista. Professor e articulador da iniciativa, Jean Carlos levou à equipe gestora do Centro Educa Mais Isaac Martins a proposta de proporcionar ao ilustre ex-aluno esse reencontro com sua antiga escola e, aos estudantes, a oportunidade de ouvir uma história de vida marcada pelo estudo, pela determinação e pela conquista profissional.

Prof. Jean Carlos Gonçalves, vice-presidente da ATLEA
Fonte: Moura Snap, 2026.

A iniciativa contou com a acolhida dos jovens estudante e da equipe escolar, liderada pelo gestor geral Anderson Coelho, que compreendeu a importância do momento e contribuiu para que o encontro se concretizasse. Dessa forma, a escola abriu suas portas não apenas para receber um antigo aluno, mas para celebrar sua própria memória e aproximar diferentes gerações em torno da educação.

Anderson Coelho - Gestor Geral do CEM Isaac Martins
Fonte: Moura Snap, 2026.
O momento contou também com a participação da Academia Tuntuense de Letras, Educação e Artes – ATLEA, representada por seu presidente, Professor Emerson de Araújo, que foi convidado a fazer uso da palavra. Sua presença conferiu ao encontro uma dimensão ainda mais significativa, aproximando a escola de uma instituição dedicada à valorização das letras, da educação, das artes e da memória cultural de Tuntum.

Prof. Emerson Araújo, presidente da ATLEA
Fonte: Moura Snap, 2026.
Em sua participação, o Professor Emerson destacou a relevância de iniciativas que aproximam a comunidade escolar de personalidades cuja trajetória está vinculada à história do município. Como gesto de apreço e valorização da cultura e da produção intelectual, presenteou o Dr. João Batista com alguns de seus livros, deixando também exemplares para o acervo da escola e outros para serem sorteados entre os estudantes.

Prof. Emerson entrega exemplares para o Prof. Anderson Coelho
Fonte: Moura Snap, 2026.

O gesto representou mais do que a simples entrega de livros. Simbolizou a crença de que livros, memórias e histórias de vida também são instrumentos de formação. Ao deixar suas obras na escola e colocá-las ao alcance dos estudantes, a ATLEA contribuiu para prolongar os efeitos daquele encontro para além da palestra, estimulando a leitura e aproximando os jovens da produção literária e cultural de sua própria terra.

A palestra foi marcada por uma conversa serena, espontânea e recheada de informações e experiências. O Dr. João Batista falou aos jovens com a autoridade de quem percorreu diferentes caminhos e enfrentou desafios, mas também com a simplicidade de quem reconhece na escola de sua infância uma das raízes de sua própria história.

Fonte: Moura Snap, 2026.
A participação dos estudantes demonstrou o interesse despertado pelo encontro. Especialmente ao final da palestra, vários jovens formularam perguntas ao convidado, estabelecendo um diálogo franco sobre escolhas profissionais, universidade, mercado de trabalho, vocação e projetos de vida. O momento revelou que, quando a experiência de vida encontra a curiosidade juvenil, a escola se transforma em espaço privilegiado de diálogo entre passado, presente e futuro.

Fonte: Moura Snap, 2026.

Ao término, o Dr. João Batista foi convidado pelos estudantes para uma sessão de fotografias e vídeos, protagonizada pelos jovens integrantes do Clube de Mídias e Jornalismo do Centro Educa Mais Isaac Martins. As lentes dos estudantes registraram não apenas a presença de uma personalidade, mas um reencontro carregado de significado: o antigo aluno diante da escola que um dia o acolheu e os jovens de hoje diante de alguém que lhes apresentava, através da própria história, a possibilidade de construir novos caminhos.

A presença da escola, do palestrante, dos professores, da ATLEA e dos jovens estudantes fez daquele encontro uma verdadeira celebração da educação, da memória e da cultura. A iniciativa mostrou que preservar a história de uma comunidade também significa reconhecer aqueles que dela partiram, acompanharam diferentes caminhos e retornam para compartilhar suas experiências com as novas gerações.

O encontro ficará como uma das experiências marcantes deste ano letivo do Centro Educa Mais Isaac Martins. Afinal, há visitas que são apenas visitas, e há reencontros que se tornam memória. O retorno de João Batista Rodrigues de Andrade à escola onde aprendeu as primeiras letras pertence à segunda categoria.


Entre as paredes de uma antiga escola, um menino do passado encontrou os jovens do presente para lhes falar sobre o futuro. E, naquele encontro, a educação mostrou novamente que sua verdadeira grandeza está em ajudar cada geração a descobrir que sempre é possível ir mais longe.















segunda-feira, 31 de agosto de 2026

JOÃO BATISTA RODRIGUES DE ANDRADE - Jurista, advogado, professor e intelectual tuntuense

 Por Jean Carlos Gonçalves

Dr. João Rodrigues Batista de Andrade
Fonte: Adaptado de Moura Snap, 2026.

João Batista Rodrigues de Andrade nasceu em Tuntum, Maranhão, em abril de 1952, filho de Antônio Luiz Andrade, lavrador, e de Etelvina Rodrigues Andrade. Casado com a jornalista Maria Aparecida Pereira da Silva, constituiu família e é pai de dois filhos e avô de dois netos.

Sua trajetória é marcada pela dedicação aos estudos, pelo exercício do Direito, pelo magistério e pela participação na vida cultural e acadêmica. As primeiras letras foram aprendidas no Grupo Escolar Isaac Martins, em Tuntum, seguindo depois para a Escola Paroquial de Tuntum. Posteriormente, estudou no Grupo Escolar José Lopes, em Teresina, no Piauí, ingressando, mediante exame de admissão, na então Escola Técnica Industrial Federal do Piauí. Concluiu o curso ginasial no Ginásio Popular de Teresina, onde exerceu a função de Secretário de Imprensa do Grêmio Lítero-Cultural João XXIII e foi orador da turma de 1969.

Em fevereiro de 1970, migrou para o Rio de Janeiro, onde permaneceu até setembro daquele ano, trabalhando como porteiro do Círculo Militar da Praia Vermelha. Mais tarde, estabeleceu-se em São Paulo, onde, entre 1972 e 1974, estudou no Instituto Estadual de Educação Caetano de Campos, instituição na qual ingressou por concurso.

Em 1975, ingressou na tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo — USP, após obter o 5º lugar no concurso vestibular, resultado que lhe conferiu ingresso com láurea. Durante a vida acadêmica, participou de movimentos e eventos relacionados à redemocratização do país, revelando, desde cedo, interesse pelas questões políticas, jurídicas e sociais de seu tempo.

Sua formação jurídica esteve acompanhada de intensa atividade cultural. Foi admitido na Academia de Letras da Faculdade de Direito da USP, apresentando a dissertação “Os Cantadores do Sertão (Literatura de Cordel)”, trabalho que evidencia a permanência de suas raízes sertanejas e de seu interesse pela cultura popular. Na instituição, ocupou a cadeira Raimundo Correia, poeta maranhense, tendo posteriormente exercido as funções de secretário e presidente. Também presidiu, por dois mandatos, a Casa do Estudante do Centro Acadêmico XI de Agosto e integrou o Departamento Jurídico da entidade, onde foi estagiário e, em 1979, eleito diretor.

Concluiu o Curso de Direito em 1980, integrando a Turma Karol Wojtila. Prosseguiu sua formação acadêmica na pós-graduação, cursando Mestrado em Direito Processual Penal, com conclusão dos créditos em 1983, e posteriormente o Doutorado em Direito Civil, habilitando-se nos créditos em 1985.

Ao longo de sua carreira, João Batista Rodrigues de Andrade construiu sólida trajetória profissional na advocacia. Desde abril de 1982 exerce a advocacia militante, atuando nas áreas cível e criminal, em diferentes níveis de jurisdição e perante tribunais superiores. Sua experiência inclui sustentações orais em segunda instância e no Superior Tribunal de Justiça, além de atuação frequente perante os Tribunais do Júri em São Paulo.

Sua atuação profissional também alcançou a administração pública e a assessoria institucional. Exerceu funções como advogado do Centro Social São Francisco de Assis — Projeto Pró-Vítima; Chefe de Gabinete da 52ª Subsecretaria Parlamentar da Câmara Municipal de São Paulo; Diretor do Departamento de Desenvolvimento Habitacional e, posteriormente, Diretor do Departamento Geral de Assuntos Habitacionais da Secretaria de Habitação da Prefeitura Municipal de Itaquaquecetuba.

Paralelamente à advocacia, desenvolveu expressiva atividade docente. Foi professor do Colégio Olavo Bilac, em São Paulo, lecionando Direito e Legislação; professor da Faculdade de Direito Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, nas disciplinas de Direito Civil, Direito Penal e Direito Processual Penal; docente voluntário do Departamento de Direito Penal da Faculdade de Direito da USP; e professor da Universidade São Judas Tadeu, onde ministrou a disciplina Instituições de Direito entre 1988 e 1995.

Seu percurso intelectual não se restringiu ao universo jurídico. Proferiu palestras sobre temas de relevância social e econômica, entre elas “Aspectos Sócio-econômicos da Lavoura de Subsistência no Nordeste Brasileiro”, apresentada na Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, em São Paulo, em 1985, e “Reforma Agrária”, ministrada na Faculdade de Direito Braz Cubas.

Na produção bibliográfica, figura como coautor da obra Princípio e Regras Orientadoras do Novo Processo Penal Brasileiro, publicada pela Editora Forense, no Rio de Janeiro, em 1986. A monografia foi elaborada por alunos da disciplina Direito Processual Penal do Curso de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da USP, sob orientação e coordenação do Professor Doutor Rogério Lauria Tucci.

Sua formação continuada compreende participação em numerosos congressos, simpósios e cursos de aperfeiçoamento nas áreas do Direito Processual Penal, Direito Civil, Direito do Trabalho, Direito Agrário, Reforma Penal, Direito Constitucional, responsabilidade civil, mediação e Direito das Sucessões, além de formação em literatura contemporânea e técnica redacional administrativa e legislativa.

Atualmente, conforme registrado no currículo, atua como Assessor Jurídico da CEP Assessoria Técnica Ltda., função exercida desde outubro de 2015. É associado à Associação dos Advogados de São Paulo e à Associação dos Advogados Criminais do Estado de São Paulo. Possui ainda conhecimento do idioma italiano.

A trajetória de João Batista Rodrigues de Andrade revela, assim, uma caminhada que parte das raízes de Tuntum e alcança importantes espaços acadêmicos, jurídicos e culturais de São Paulo. Do menino que iniciou sua formação escolar no Grupo Escolar Isaac Martins ao jurista formado pela Universidade de São Paulo, sua história é também marcada pela busca permanente do conhecimento, pela atuação profissional e pela preservação de um vínculo intelectual com a cultura e a realidade social brasileira.

Sua passagem pela literatura de cordel, seu interesse pelos temas do sertão e sua formação jurídica convergem em uma personalidade cuja trajetória une sertão e universidade, cultura popular e ciência jurídica, memória e conhecimento. É, nesse sentido, uma história de formação e de perseverança, construída entre diferentes territórios, mas que conserva como ponto de partida e referência afetiva a terra natal: Tuntum, no sertão maranhense..

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

“Festejos de Tuntum”: quando a música transforma a memória em celebração

 Por Jean Carlos Gonçalves

Há músicas que apenas se escutam; outras, porém, carregam consigo lugares, pessoas, paisagens, sentimentos e memórias. “Festejos de Tuntum”, composição e interpretação do cantor tuntuense Mizael Teixeira, insere-se nessa segunda categoria. A obra nasce da sensibilidade de um artista filho da terra e transforma em música uma das mais fortes expressões da identidade cultural de Tuntum: os tradicionais Festejos de São Raimundo Nonato.

Mais do que uma canção sobre uma festa religiosa, “Festejos de Tuntum” é uma espécie de retrato musical de uma cidade que, todos os anos, reencontra suas tradições, seus personagens e sua gente em torno do santo padroeiro. O cenário escolhido para a produção não poderia ser mais simbólico: a Praça São Francisco de Assis, diante da monumental Igreja de São Raimundo Nonato, referência arquitetônica, religiosa e afetiva de Tuntum. O templo, que se destaca na paisagem urbana, funciona no videoclipe como uma espécie de testemunha silenciosa da história da cidade e das inúmeras gerações que passaram pelos festejos.

A produção também chama atenção por reunir, diante das câmeras, filhos de Tuntum, muitos deles moradores de outras cidades e até de outros estados brasileiros. Essa escolha dá à obra uma dimensão especial: a festa deixa de ser apenas um acontecimento localizado no espaço e passa a representar um território afetivo que acompanha o tuntuense onde quer que ele esteja. É a cidade reencontrando seus filhos e os filhos reencontrando a cidade através da música, da memória e da tradição.

A própria história recente dos Festejos confirma essa força cultural. A celebração de São Raimundo Nonato é reconhecida como mais tradicional manifestação religiosa de Tuntum e alcança dimensões que ultrapassam o espaço estritamente litúrgico. Durante os festejos, a cidade se transforma, recebe visitantes, reúne famílias, movimenta o comércio e proporciona diferentes formas de sociabilidades. No dia 31 de agosto, data dedicada ao padroeiro, a tradição religiosa se encontra com manifestações profundamente vinculadas à cultura sertaneja, especialmente a cavalgada, a presença dos vaqueiros e as celebrações que envolvem a comunidade. Registros da festa destacam justamente essa integração entre religiosidade, vaqueiros, música e convivência popular.

Nesse sentido, “Festejos de Tuntum” contribui para registrar uma manifestação que já ultrapassou os limites de uma simples festividade religiosa e se tornou parte da própria identidade cultural do município. O reconhecimento dos Festejos de São Raimundo Nonato como patrimônio cultural imaterial do Maranhão, a partir de iniciativa legislativa apresentada pelo então deputado estadual Fernando Pessoa, atual prefeito reeleito de Tuntum, reforça essa dimensão patrimonial.
LEI Nº 11.090, DE 22 DE AGOSTO DE 2019.

Declara Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Maranhão o Festejo do Padroeiro São Raimundo Nonato, realizado no Município de Tuntum/MA.
O GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO, Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembleia Legislativa do Estado decretou e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º Fica reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial o Festejo do Padroeiro São Raimundo Nonato, realizado no Município de Tuntum/MA.

Parágrafo único. Competirá ao Estado, em conjunto com o Município, o acesso as fontes de cultura, apoio e incentivo para o Festejo.

Art. 2º (Vetado).

Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e a execução da presente Lei pertencerem que a cumpram e a façam cumprir tão inteiramente como nela se contém. O Excelentíssimo Senhor Secretário-Chefe da Casa Civil a faça publicar, imprimir e correr.

PALÁCIO DO GOVERNO DO ESTADO DO MARANHÃO, EM SÃO LUÍS, 23

DE AGOSTO DE 2019, 198º DA INDEPENDÊNCIA E 131º DA REPÚBLICA. 
FLÁVIO DINO
Governador do Estado do Maranhão

Musicalmente, a produção ganha ainda outro elemento de identidade com a participação do saxofonista Léo do Sax, responsável pela execução do saxofone. Sua participação estabelece um diálogo entre a composição de Mizael e uma referência da música instrumental, por meio de uma versão de “Domingo do Parque” (1979), de Ivanildo do Sax, incorporada ao arranjo. O saxofone, assim, não aparece apenas como acompanhamento: torna-se uma "voz" que acrescenta personalidade, movimento e emoção à narrativa musical. Além disso, registra-se também a participação o artista, o cantor tuntuense Rivaldo Maranhão.

A produção reúne, portanto, diferentes dimensões da cultura tuntuense: a música, a religiosidade, a memória, a paisagem urbana, a cultura do vaqueiro, a sociabilidade e o sentimento de pertencimento. E talvez seja justamente aí que esteja sua maior virtude: transformar uma festa que já existe na memória coletiva em uma obra audiovisual capaz de preservá-la e projetá-la para além do tempo presente.

Outro detalhe particularmente expressivo é a presença do Jeep do Júnior da Mata, personagem conhecido pela sua atuação como pecuarista, empresário, ativista e articulador dos festejos. O veículo não aparece apenas como elemento cenográfico. Ele carrega consigo uma história e uma representação do universo rural e pecuarista que também integra a identidade dos Festejos de São Raimundo Nonato. Sua presença dialoga especialmente com o tradicional churrasco do dia 31 de agosto, uma das manifestações populares que se consolidaram na programação da festa e que reúne moradores, vaqueiros, pecuaristas, visitantes e famílias em um grande momento de confraternização. Há registros de edições dos festejos nas quais o churrasco, a cavalgada e as apresentações musicais, ocupam lugar de destaque na celebração do dia do padroeiro. Além, obviamente, do rito da missa e  do café dos vaqueiros logo nas primeiras horas da manhã.

É importante perceber que a utilização desses personagens, objetos e espaços não acontece por acaso. A Praça São Francisco de Assis, a Igreja de São Raimundo Nonato, os cavaleiros, os vaqueiros, o Jeep, os músicos, os figurantes e os filhos da terra formam, juntos, uma espécie de mosaico da identidade tuntuense. Cada elemento acrescenta uma camada de significado à narrativa.

Há, portanto, uma dimensão documental na produção. O videoclipe registra rostos, lugares, costumes e práticas culturais de uma determinada época. Daqui a alguns anos, quando outras gerações assistirem às imagens, poderão reconhecer nelas não apenas uma música, mas também uma representação de como Tuntum celebrava São Raimundo Nonato no início do século XXI. A música passa, assim, a cumprir também uma função de memória cultural.

Essa perspectiva é particularmente significativa porque os Festejos possuem uma longa trajetória e continuam provocando reflexões sobre memória, identidade e transformação cultural. Estudos e registros locais já destacaram a importância da festa como uma manifestação capaz de reunir o sagrado e o profano, a devoção religiosa e as práticas sociais, a tradição e as novas formas de celebração.

Nesse contexto, a iniciativa de Mizael Teixeira, além de sua atuação artística, ganha uma dimensão ainda mais significativa por se tratar de um artista da terra que atualmente exerce a função de Secretário Municipal de Cultura de Tuntum. Sua posição aproxima duas dimensões que nem sempre caminham juntas: a criação artística e a gestão cultural. Ao compor e interpretar “Festejos de Tuntum”, Mizael não apenas canta sobre sua cidade; ele participa da construção de uma narrativa sobre ela.

A produção da GS Produções, produtora de propriedade do também tuntuense Geovane Santana, com a gravação de Danilo, demonstra, por sua vez, que Tuntum possui profissionais e talentos capazes de produzir conteúdos que valorizam a cultura local. Trata-se de uma produção genuinamente tuntuense: um artista tuntuense, músicos tuntuenses, personagens tuntuenses, cenário tuntuense e uma festa que pertence à memória coletiva do município.

Por isso, “Festejos de Tuntum” merece ser compreendida para além de sua dimensão musical. Ela é uma manifestação de pertencimento. É uma homenagem ao padroeiro, mas também uma homenagem à cidade. É uma celebração da fé, mas igualmente uma celebração da cultura. É entretenimento, mas também registro. É música, imagem e memória.

E talvez seja essa a maior riqueza da obra: Mizael Teixeira canta os Festejos de São Raimundo Nonato, mas, ao fazê-lo, canta também uma parte da própria alma de Tuntum.

Em uma cidade cuja história ainda necessita ser melhor documentada e preservada, iniciativas como essa possuem um valor que ultrapassa o momento de seu lançamento. Porque aquilo que hoje parece apenas uma música ou um videoclipe poderá amanhã constituir-se em fonte de memória para compreender como Tuntum se via, como celebrava suas tradições e como representava sua própria identidade.

“Festejos de Tuntum” é, nesse sentido, mais do que uma canção: é um pedaço da cidade transformado em som, imagem e sentimento.


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Emerson Araújo assume a presidência da ACADELCONE em Brasília-DF

O professor, jornalista, escritor e consultor educacional Emerson Araújo, do município de Tuntum, Maranhão, assumiu a Presidência da Academia de Letras dos Conselhos da Educação (ACADELCONE) durante o XXXV Congresso Nacional dos Conselhos Municipais de Educação, realizado em Brasília, Distrito Federal.

A posse representa um importante reconhecimento à trajetória de Emerson Araújo na defesa da educação pública, da gestão democrática e, especialmente, do fortalecimento dos Conselhos Municipais de Educação (CMEs) como órgãos fundamentais para a organização e consolidação dos Sistemas Municipais de Ensino.

Com uma longa trajetória dedicada à educação, Emerson Araújo tem desenvolvido sua atuação em diferentes espaços institucionais e acadêmicos. Atualmente, exerce a função de Coordenador Estadual da União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação no Maranhão (UNCME-MA), sendo também conselheiro municipal de educação e participante ativo dos debates relacionados às políticas educacionais, aos Planos Municipais de Educação e ao regime de colaboração entre os entes federados.

À frente da ACADELCONE, o educador maranhense assume o compromisso de contribuir para o fortalecimento institucional da Academia, ampliando sua presença nacional e incentivando a produção, a sistematização e a socialização de conhecimentos construídos por conselheiros(as) municipais de educação de diferentes regiões brasileiras.

A nova gestão deverá ainda estimular o intercâmbio de experiências, a realização de estudos, encontros, seminários e publicações, valorizando a memória e a contribuição histórica dos Conselhos Municipais de Educação para a democratização das políticas públicas educacionais.

Para Emerson Araújo, assumir a Presidência da ACADELCONE significa também ampliar a responsabilidade de trabalhar pela valorização dos homens e mulheres que dedicam parte de suas trajetórias profissionais e sociais à participação nos colegiados educacionais.

A escolha de um representante maranhense para presidir uma instituição de abrangência nacional também evidencia a participação crescente do Maranhão nos espaços de discussão e construção das políticas públicas de educação no país.

O XXXV Congresso Nacional dos Conselhos Municipais de Educação, realizado entre os dias 19 e 21 de agosto de 2026, em Brasília, reuniu conselheiros, dirigentes, educadores, especialistas e representantes de diferentes instituições para discutir os desafios contemporâneos da educação brasileira e o papel estratégico dos Conselhos Municipais de Educação.

Ao assumir a Presidência da ACADELCONE nesse importante espaço nacional, Emerson Araújo leva o nome de Tuntum e do Maranhão para mais uma missão de alcance brasileiro, reafirmando uma trajetória marcada pela educação, pela participação social e pela defesa do fortalecimento dos Conselhos Municipais de Educação.

A nova missão abre uma etapa de trabalho voltada para a integração dos conselheiros e ex-conselheiros de todo o Brasil e para a consolidação da ACADELCONE como espaço de memória, conhecimento, diálogo e valorização daqueles que ajudam a construir, diariamente, a educação pública nos municípios brasileiros.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

DIA DO MAÇOM, 20 DE AGOSTO - A Memória, os Valores e a História que Ergueu Nossas Colunas

Por: Remy da Mata


O dia 20 de agosto reserva uma das datas mais significativas do nosso calendário. Celebrar o Dia do Maçom é, antes de tudo, renovar o compromisso com a busca incessante do aperfeiçoamento moral, espiritual e intelectual, inspirados nos imortais princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Mais do que uma efeméride, este dia convida-nos a lançar um olhar respeitoso para o passado e resgatar a trajetória daqueles que nos antecederam.

A história da Ordem em Tuntum também teve seu marco decisivo no mês de agosto. Em 1964, José Justino e Silva (Zé da Mata), José Ricardo de Araújo (Zequinha Uruçu) e Olímpio Gomes da Silva fundaram o primeiro Triângulo Maçônico com o apoio da Loja Atalaia Codoense. Em seguida, transferiram-se para a Loja Paz e Concórdia, em Dom Pedro, por uma questão de comodidade logística. Já com um quadro completo, fundaram, instalaram e sagraram a Loja Acácia Tuntuense. A história da Maçonaria em Tuntum não foi escrita por acaso, mas erguida com o suor, a dedicação e a sabedoria de homens que acreditaram no valor do trabalho fraterno e na edificação de uma sociedade mais justa.

Um registro histórico de valor inestimável preserva para a posteridade a solenidade de fundação da nossa oficina. Gravada na própria estrutura do espaço sagrado, a inscrição nos lembra o marco inaugural:
IRMÃOS FUNDADORES da Aug.·. e Resp.·. Loja Simb.·. ACÁCIA TUNTUENSE Nº 35 – Grande Loja do Maranhão.

Legenda e Identificação dos Irmãos Fundadores:

(Conforme a fotografia, da esquerda para a direita, o primeiro quadro da Loja Acácia Tuntuense): 1. Antônio Marculino (Barata); 2. João do Pedrão; 3. Olímpio Gomes da Silva; 4. Dr. Noga; 5. Heleno (Galego); 6. Zequinha Uruçu; 7. Venerável de Presidente Dutra; 8. Zé da Mata; 9. Hélio Araújo; 10. João Afonso; 11. Irmão visitante; 12. Orleans Moreira; 13. Jairo Brito e 14. Jonas Brígido

Ao contemplarmos esta fotografia, homenageamos não apenas as fisionomias daqueles pioneiros, mas o legado perene por eles deixado. Que a firmeza e a união retratadas neste instante continuem a iluminar e guiar os passos de todos os irmãos que mantêm vivas as colunas da Maçonaria tuntuense e maranhense.

A Maçonaria no Brasil, desde a sua criação, é parte fundamental da história pátria. A prova disso é o quanto nossos antepassados contribuíram para os grandes marcos nacionais. No dia 20 de agosto de 1822, aconteceu uma sessão histórica entre as Lojas Maçônicas "Comércio e Artes" e "União e Tranquilidade", na cidade do Rio de Janeiro. Na ocasião, o Irmão Gonçalves Ledo proferiu um discurso emocionante e inspirador, exortando pela Independência do Brasil ainda naquele ano.

A proposta de Gonçalves Ledo foi aprovada por unanimidade por todos os irmãos naquela reunião e registrada na ata do Calendário Maçônico no 20º dia do 6° mês do ano da Verdadeira Luz de 5.822 — data que, convertida para o calendário gregoriano, corresponde exatamente ao dia 20 de agosto de 1822. Esse feito memorável gerou o impulso decisivo que levou o Príncipe Regente Dom Pedro I a dar o famoso brado de “Independência ou Morte!”, semanas mais tarde, no 7 de Setembro.

Dos bastidores da Independência à Proclamação da República e à Abolição da Escravatura, os Maçons sempre atuaram na linha de frente dos grandes movimentos de libertação e progresso. Longe de visões fantasiosas ou mitos que por vezes rotulam a Ordem como uma "seita ocultista" ou defensora de planos velados, a Maçonaria é uma instituição pautada estritamente no aperfeiçoamento moral e social.

De forma resumida, a Maçonaria é uma ordem filosófica, filantrópica, iniciática e progressista. Trata-se de uma sociedade discreta, de caráter universal, cujos membros cultivam o classicismo, o humanismo e os princípios da democracia, em defesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade, na busca incessante do aperfeiçoamento intelectual do ser humano. É uma Fraternidade que acolhe todos os homens livres e de bons costumes, sem distinção de raça, credo, religião, ideário político ou posição social.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

As lacunas documentais e os desafios para escrever a história de Tuntum - O caso da Escola Isaac Martins

Por Jean Carlos Gonçalves 

Escrever a história de um município como Tuntum constitui uma tarefa que ultrapassa a simples reunião de datas, nomes e acontecimentos. Trata-se de um trabalho de investigação que exige o confronto entre diferentes tipos de fontes — documentos oficiais, jornais, livros, registros cartoriais, fotografias, depoimentos, correspondências, arquivos escolares, documentos administrativos, mapas, objetos e outros vestígios do passado. No entanto, uma das principais dificuldades para a construção de uma história sistemática de Tuntum reside justamente na inexistência, carência, dispersão, deterioração e, sobretudo, nas dificuldades de acesso às fontes históricas capazes de esclarecer determinados acontecimentos relevantes da trajetória do município.

Essa realidade produz consequências significativas. Quando os documentos desaparecem, não são preservados, permanecem em arquivos de difícil acesso ou ainda não foram localizados pelos pesquisadores, determinados acontecimentos podem permanecer desconhecidos, parcialmente conhecidos ou sujeitos a interpretações construídas a partir de informações transmitidas oralmente. A memória coletiva, embora constitua uma fonte importante para a pesquisa histórica, está sujeita a esquecimentos, silenciamentos, deslocamentos de nomes, datas e acontecimentos e à incorporação de versões que, com o passar do tempo, podem adquirir aparência de verdade histórica.

Em Tuntum, essa situação pode ser percebida em diferentes aspectos de sua história política, educacional e social. Um exemplo particularmente significativo é a trajetória da Escola Isaac Martins, reconhecida como a instituição escolar mais antiga da cidade. Apesar de sua importância para a história da educação local, ainda existem lacunas documentais e informativas acerca de sua fundação, de suas primeiras atividades, das circunstâncias que determinaram a escolha de sua denominação, de seus primeiros responsáveis, de sua organização administrativa e de sua evolução ao longo das décadas. A ausência ou a dificuldade de localização de documentos capazes de responder a essas questões favorece o surgimento de versões divergentes e, muitas vezes, de informações reproduzidas sem a necessária comprovação documental.

Um caso emblemático dessa problemática encontra-se justamente na denominação Isaac Martins. É relativamente comum encontrar, entre moradores de Tuntum e até mesmo entre professores, servidores públicos e agentes políticos, a associação do nome da escola ao primeiro prefeito da história do município, Isaac da Silva Ribeiro. Entretanto, essa identificação não deve ser tomada como verdadeira sem que seja confrontada com as fontes históricas disponíveis.

O Dr. Isaac Martins dos Reis, por sua vez, foi juiz de Direito e personagem vinculado à história do Maranhão no século XIX (vide https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/08/128-anos-do-falecimento-do-dr-isaac.html). Trata-se, portanto, de uma pessoa distinta de Isaac da Silva Ribeiro, primeiro prefeito do município (1955-1959) e que assinou a ordem de serviço para a construção do prédio da "Escola Reunida Dr. Isaac Martins" em 28 de dezembro de 1956. A semelhança ou aproximação entre os nomes pode ter contribuído para a construção e a perpetuação da confusão, sobretudo quando os registros documentais sobre a origem da escola não estão disponíveis de maneira suficiente para esclarecer definitivamente a questão.

Página parcial do Livro de Decretos do prefeito Isaac da Silva Ribeiro -  Decreto de Lei Nº 03 de 28 de dezembro de 1956, um dia após a sua posse.
Por outro lado, há testemunhos de que a instituição da escola foi realizada quando Tuntum ainda era um povoado do município de Barra do Corda no início da década de 1930 e que a mesma funcionava num barracão de pau-a-pique no mesmo local onde foi construído o prédio, conforme a imagem abaixo, publicada em 1959 na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros pelo IBGE.


Todavia até o presente momento não encontramos nenhuma lei municipal de Barra do Corda ou outra fonte relacionada a fundação da instituição. Já na imagem do Decreto nº03/1955, observa-se nitidamente que o documento assinado pelo Prefeito Isaac Ribeiro sentencia: "Art. 01 - Ficam criadas, de interesse do serviço público, as seguintes escolas primárias municipais." Por enquanto é o que temos de evidência documental e, em que pese, supera as informações do histórico do agora Centro Educa Mais Isaac Martins, em seu Projeto Político Pedagógico, pois não há qualquer referência documental do texto sobre a origem da escola, que há mais de quatro décadas passou a pertencer a rede estadual de ensino. Não desconsideramos a memória oral, nem tão pouco a síntese textual em posse da gestão da instituição, mas sem documentos podemos incorrer em sérios equívocos. Portanto, precisamos investigar.

Esse exemplo demonstra como uma lacuna documental não representa apenas um problema acadêmico. A ausência de fontes pode interferir diretamente na maneira como uma comunidade compreende e transmite sua própria história. Uma informação inicialmente equivocada, quando repetida ao longo de gerações, pode transformar-se em memória coletiva e, posteriormente, ser reproduzida em discursos institucionais, materiais escolares, publicações e cerimônias oficiais, adquirindo uma aparência de legitimidade que somente a pesquisa histórica sistemática pode confirmar ou contestar.

Por essa razão, não se deve confundir memória com história, nem tradição oral com prova documental, embora ambas sejam fundamentais para a investigação do passado. A memória oferece pistas, testemunhos e interpretações construídas pelos sujeitos históricos; os documentos, por sua vez, permitem ao pesquisador confrontar essas narrativas com evidências produzidas em determinado contexto. O trabalho do historiador consiste justamente em colocar essas diferentes fontes em diálogo, identificando convergências, contradições, silêncios e lacunas.

No caso de Tuntum, portanto, escrever a história do município significa também enfrentar aquilo que ainda não sabemos. As lacunas documentais não devem ser preenchidas arbitrariamente por suposições ou versões repetidas pela tradição. Ao contrário, precisam ser explicitadas como parte da própria pesquisa histórica. Dizer que determinado acontecimento ainda não pôde ser comprovado documentalmente é, em si, uma atitude de rigor científico. A honestidade historiográfica exige distinguir aquilo que está comprovado por fontes daquilo que permanece como hipótese, memória, tradição ou interpretação.

É nesse sentido que a construção da história de Tuntum deve ser compreendida como um processo permanente de localização, preservação, crítica e interpretação das fontes históricas. Arquivos públicos e privados, registros escolares, documentos das antigas administrações municipais, jornais, cartórios, igrejas, associações, fotografias de famílias, acervos particulares e relatos de antigos moradores podem conter informações fundamentais para preencher capítulos ainda pouco conhecidos da trajetória do município.

Preservar essas fontes significa, portanto, preservar a própria possibilidade de conhecer o passado. Cada documento perdido representa não apenas a perda de um papel ou de uma fotografia, mas também a possibilidade de compreender melhor uma experiência, uma instituição, uma pessoa ou um acontecimento. Da mesma forma, cada documento localizado e devidamente preservado pode contribuir para corrigir versões equivocadas, esclarecer controvérsias e devolver à comunidade personagens e acontecimentos que permaneceram esquecidos.

A história de Tuntum ainda possui muitos capítulos a serem investigados. A tarefa de construí-los exige paciência, método e, sobretudo, disposição para reconhecer que existem perguntas para as quais ainda não dispomos de respostas definitivas. O desafio não está apenas em contar o que aconteceu, mas em demonstrar, por meio das fontes disponíveis, como podemos saber que determinado acontecimento ocorreu. Nesse processo, a dúvida não representa uma fraqueza da história; ao contrário, constitui o ponto de partida para a investigação.

Assim, diante das lacunas existentes, a construção de uma história de Tuntum exige um esforço coletivo de pesquisa e preservação da memória documental do município. Mais do que reunir acontecimentos, é necessário recuperar vestígios, confrontar versões, identificar personagens, localizar documentos e registrar testemunhos antes que desapareçam. Somente dessa maneira será possível substituir o conhecimento fragmentado e as versões transmitidas sem comprovação por uma narrativa histórica mais consistente, crítica e fundamentada nas fontes.

O caso da Escola Isaac Martins sintetiza, de maneira exemplar, esse desafio: quando a documentação não é preservada ou permanece inacessível, a memória ocupa o espaço deixado pelo documento; e, nesse espaço, podem nascer confusões que o tempo transforma em certezas. Investigar, documentar e preservar a história de Tuntum significa, portanto, não apenas conhecer melhor o passado, mas também impedir que o esquecimento e a repetição de versões não comprovadas determinem aquilo que as futuras gerações acreditarão ter acontecido.