Por Jean Carlos Gonçalves
De
vida efêmera, o periódico ludovicense Notícias, fundado em março de 1932
pelo jornalista Astolpho Henrique de Barros Serra, o Padre Astolpho Serra, e
fechado em 19 de agosto de 1934. O jornal tinha como redator chefe o
conceituado jornalista e professor do Liceu Maranhense, José Nascimento de
Moraes. Em sua edição do dia 27 de junho de 1934 publicou o interessantíssimo
artigo sobre o Rio Alpercatas de autoria do também jornalista, geógrafo e renomado
advogado grajauense, o hinterland¹ maranhense Cândido Pereira de Souza
Bispo.
O texto versa sobre o potencial da navegabilidade do Rio Alpercatas, ante as suas características e das terras de seu vale, em plena década de 1930, cujo período os nossos sertões ainda enfrentavam grandes dificuldades de comunicação, transporte e, por conseguinte, escoamento das produções agrícolas, em face das poucas e precárias estradas carroçais, além disso, a matéria faz referências a momentos marcantes do Maranhão, como espaço de ocupação e disputas como fora o evento histórico da Balaiada (1839-1841).
Portanto, uma publicação riquíssima
de informações, a qual julgo muito relevante para os todos aqueles que apreciam
a geo-história maranhense, especialmente, e, em nosso caso, a tuntuense, pois
como se sabe 21% das terras do município de Tuntum, ao sul, tem suas águas
drenadas para o Alpercatas, que forma a mais significativa sub-bacia da grande
bacia do Itapecuru. Então, com satisfação compartilho aqui mais uma das pérolas
encontras nas jazidas da perquirição histórica do Sertão maranhense. Segue a artigo, o qual procuramos manter a grafia original. Boa leitura.
| Recorte do cabeçalho do períodico da Capital maranhense NOTÍCIAS. Edição de 27/06/1934 |
O
Rio Alpercatas
A sua navegabilidade
Do
sol-poente para o sol levante, molhando o solo dos soberbos pastos-bons da
formosa terra maranhense, corre, as águas cristalinas e friorentas, o Rio
Alpercatas, rumo ao Itapecuru.
O
mais possante, o mais caudaloso tributário daquele vigoroso conduto fluvial, o
Alpercatas tem a sua nascente na encosta oriental do paredão rubro e pedregoso,
em cujo cimo demora, ha mais de século, a fazenda Morro-Vermelho, teatro das
sangrentas e lúgubres façanha dos “bemtevis” contra os rebeldes e ainda hoje
caluniados de balaios, A suas águas perenes matam a sede dos gados nédios² que
pastam ao longo do vale recortado por dezenas de córregos e brejos.
Banhando
três ricos municipios – Barra do Corda, Mirador e Picos – o Alpercatas, em cuja
bacia habitam milhares de pessoas que aguardam a facilidade de transportes para
demonstrar que coragem e energias não faltam aos filhos do sertão desamparado.
– não é inascessível.
Núcleos
de gente laboriosa e bôa se adunam nas ribanceiras e se irradiam pelos baixões
verdosos – onde as terras de lavrança humentes, gordas, são aproveitadas ainda
por processos rotineiros que não pagam a pena do esforço gasto.
O
automóvel aligero e fonfonante, já rodou pelos cumes divisórios da vertentes do
Mearim e do Itapecuru. Mas não logrou aliviar o fardo do lavrador e creador
sertanejos.
As estradas carroçáveis, as rodovias, no interior longinquo apenas teem servido para viagens de recreio de quem não trabalha de sol a sol como o filho daquelas alti-planuras queimadas pelas soalheiras inclementes.
Sem metodo, sem a responsabilidade do transporte em viagens regulares, os poucos que se aventuram á exploração rodoviaria, abandonam-na por falta de renda.
E
se não pensa nas arterias fluviais. Os rios são relegados ao esquecimento. De
longe em longe uma igaraté ao impulso de remos, ou de varas, sobe a corrente
sem um fim lucrativo e sério: é o divino espirito santo a fazer o seu giro de
morada em morada; é a visita a pessôas amigas nos dias santificados.
As
emprezas de navegação não se formam, por falta de estimulo. A iniciativa
particular a não ser o Tocantins, Mearim e Itapecuru, Parnaíba e Balsas não se
anima ao grande cometimento.
O
rio Turiassu é navegavel até muito acima de Santa Helena.
O
Maracassumé e os demais do noroeste só refletem no espelho de suas aguas, assim
mesmo até onde inflam as marés, as velas remendadas de barcos princitivos.
Assim é o Munim.
No
Alpercatas, nem isso. Só as balsas, prenhes de produtos de lavaura, descem para
Picos duas leguas á jusante de sua barra.
Um
rio que permite viagens a balsas – póde ser estreito, ou voltívolo³,
nunca inavegável. Pois no formoso Alpercata com mais de 50 leguas de curso, as
balsas viajam, sem tropeços, carregadas, da fazenda Genipapo a Picos,
percorrendo de “bubuia”ᶣ, mais de 25 leguas.
Sem
uma só itaipaba⁵, o leito do principal afluente do Itapecuru é cavado
entre ribanceiras firmes. O rio já fez o seu leito, e não se perde pelos campos
e matas, na faina mortífera de vomitar pantanos.
As
populações que habitam as suas margens são laboriosas: criam gados, e plantam
não só algodão e legumes, mas exportam tambem o delicioso café. A a terra é
propria para o seu cultivo.
Em
vez de estradas carroçaveis para se encherem de matos nas primeiras chuvas, o
que convem aos poderes municipaes é cuidar da navegação.
O
Itapecuru até Mirador, e o Alpercatas até o Genipapo⁶ ou mais acima – até Guariba,
são francamente navegáveis.
Limpem-se-lhes
os leitos e teremos navegação proveitosa, eficiente durante os dôze meses do
ano.
Cumpre
ao dr. Acesio Rego, digno prefeito de Picos⁷, trabalhar para tornar
realidade este sonho fagueiro.
Substituir
as balsas por barcos tangidos a motores, é descobrir inesgotavel fonte de renda
nos rios Alpercatas e Itapecuru.
SOUZA BISPO
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