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segunda-feira, 11 de maio de 2026

O RIO ALPERCATAS NAS PÁGINAS DO JORNAL “NOTÍCIAS” EM 1934

 Por Jean Carlos Gonçalves

FOTO: GONÇALVES, Jean Carlos. 2025. Rio Alpercatas no povoado Campo Largo. À margem direita, território do município de Mirador, à margem esquerda, terras do município de Tuntum (antes Barra do Corda). A figura a balsa é meramente ilustrativa para fins desta publicação

           De vida efêmera, o periódico ludovicense Notícias, fundado em março de 1932 pelo jornalista Astolpho Henrique de Barros Serra, o Padre Astolpho Serra, e fechado em 19 de agosto de 1934. O jornal tinha como redator chefe o conceituado jornalista e professor do Liceu Maranhense, José Nascimento de Moraes. Em sua edição do dia 27 de junho de 1934 publicou o interessantíssimo artigo sobre o Rio Alpercatas de autoria do também jornalista, geógrafo e renomado advogado grajauense, o hinterland¹ maranhense Cândido Pereira de Souza Bispo.

   O texto versa sobre o potencial da navegabilidade do Rio Alpercatas, ante as suas características e das terras de seu vale, em plena década de 1930, cujo período os nossos sertões ainda enfrentavam grandes dificuldades de comunicação, transporte e, por conseguinte, escoamento das produções agrícolas, em face das poucas e precárias estradas carroçais, além disso, a matéria faz referências a momentos marcantes do Maranhão, como espaço de ocupação e disputas como fora o evento histórico da Balaiada (1839-1841).

     Portanto, uma publicação riquíssima de informações, a qual julgo muito relevante para os todos aqueles que apreciam a geo-história maranhense, especialmente, e, em nosso caso, a tuntuense, pois como se sabe 21% das terras do município de Tuntum, ao sul, tem suas águas drenadas para o Alpercatas, que forma a mais significativa sub-bacia da grande bacia do Itapecuru. Então, com satisfação compartilho aqui mais uma das pérolas encontras nas jazidas da perquirição histórica do Sertão maranhense. Segue a artigo, o qual procuramos manter a grafia original. Boa leitura.

Recorte do cabeçalho do períodico da Capital maranhense NOTÍCIAS. Edição de 27/06/1934

O Rio Alpercatas

A sua navegabilidade

    Do sol-poente para o sol levante, molhando o solo dos soberbos pastos-bons da formosa terra maranhense, corre, as águas cristalinas e friorentas, o Rio Alpercatas, rumo ao Itapecuru.

    O mais possante, o mais caudaloso tributário daquele vigoroso conduto fluvial, o Alpercatas tem a sua nascente na encosta oriental do paredão rubro e pedregoso, em cujo cimo demora, ha mais de século, a fazenda Morro-Vermelho, teatro das sangrentas e lúgubres façanha dos “bemtevis” contra os rebeldes e ainda hoje caluniados de balaios, A suas águas perenes matam a sede dos gados nédios² que pastam ao longo do vale recortado por dezenas de córregos e brejos.

   Banhando três ricos municipios – Barra do Corda, Mirador e Picos – o Alpercatas, em cuja bacia habitam milhares de pessoas que aguardam a facilidade de transportes para demonstrar que coragem e energias não faltam aos filhos do sertão desamparado. – não é inascessível.

   Núcleos de gente laboriosa e bôa se adunam nas ribanceiras e se irradiam pelos baixões verdosos – onde as terras de lavrança humentes, gordas, são aproveitadas ainda por processos rotineiros que não pagam a pena do esforço gasto.

  O automóvel aligero e fonfonante, já rodou pelos cumes divisórios da vertentes do Mearim e do Itapecuru. Mas não logrou aliviar o fardo do lavrador e creador sertanejos.

 As estradas carroçáveis, as rodovias, no interior longinquo apenas teem servido para viagens de recreio de quem não trabalha de sol a sol como o filho daquelas alti-planuras queimadas pelas soalheiras inclementes.

 Sem metodo, sem a responsabilidade do transporte em viagens regulares, os poucos que se aventuram á exploração rodoviaria, abandonam-na por falta de renda.

  E se não pensa nas arterias fluviais. Os rios são relegados ao esquecimento. De longe em longe uma igaraté ao impulso de remos, ou de varas, sobe a corrente sem um fim lucrativo e sério: é o divino espirito santo a fazer o seu giro de morada em morada; é a visita a pessôas amigas nos dias santificados.

   As emprezas de navegação não se formam, por falta de estimulo. A iniciativa particular a não ser o Tocantins, Mearim e Itapecuru, Parnaíba e Balsas não se anima ao grande cometimento.

   O rio Turiassu é navegavel até muito acima de Santa Helena.

   O Maracassumé e os demais do noroeste só refletem no espelho de suas aguas, assim mesmo até onde inflam as marés, as velas remendadas de barcos princitivos. Assim é o Munim.

  No Alpercatas, nem isso. Só as balsas, prenhes de produtos de lavaura, descem para Picos duas leguas á jusante de sua barra.

   Um rio que permite viagens a balsas – póde ser estreito, ou voltívolo³, nunca inavegável. Pois no formoso Alpercata com mais de 50 leguas de curso, as balsas viajam, sem tropeços, carregadas, da fazenda Genipapo a Picos, percorrendo de “bubuia”, mais de 25 leguas.

  Sem uma só itaipaba, o leito do principal afluente do Itapecuru é cavado entre ribanceiras firmes. O rio já fez o seu leito, e não se perde pelos campos e matas, na faina mortífera de vomitar pantanos.

   As populações que habitam as suas margens são laboriosas: criam gados, e plantam não só algodão e legumes, mas exportam tambem o delicioso café. A a terra é propria para o seu cultivo.

 Em vez de estradas carroçaveis para se encherem de matos nas primeiras chuvas, o que convem aos poderes municipaes é cuidar da navegação.

  O Itapecuru até Mirador, e o Alpercatas até o Genipapo ou mais acima – até Guariba, são francamente navegáveis.

  Limpem-se-lhes os leitos e teremos navegação proveitosa, eficiente durante os dôze meses do ano.

  Cumpre ao dr. Acesio Rego, digno prefeito de Picos, trabalhar para tornar realidade este sonho fagueiro.

 Substituir as balsas por barcos tangidos a motores, é descobrir inesgotavel fonte de renda nos rios Alpercatas e Itapecuru.

SOUZA BISPO

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1. O termo hinterland (ou hinterlândia) tem origem alemã (hinter = atrás; land = terra) e refere-se à região interiorana. No caso específico o intelectual Souza Bispo ficou imortalizado na História do Maranhão por percorrer aventurando-se pelos os sertões do Brasil, especialmente, do maranhense.
2. gados gordos, saudáveis.
3. adjetivo que descreve algo ou alguém inconstante, volúvel, instável.
4. é uma expressão amazônica que significa flutuar ou descer o rio descansando, deixando a correnteza levar, sem fazer esforço físico.
5. formações rochosas em rios que causam pequenas corredeiras ou cachoeiras.
6. Fazenda e povoação que deu origem a cidade de Fernando Falcão.
7. Antiga denominação da cidade e município de Colinas-MA, principal centro comercial do Alto Itapecuru.