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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A BOIADA E NENÉM DE COLO

Por Américo Ribeiro*

Imagem meramente ilustrativa

Por volta de 1980, fui a Barra do Garças, numa Kombi, levar o soldado PM Santarém e sua família.

No retorno, ele me pediu que trouxesse a esposa de um boiadeiro e seu jovem cunhado.

No trecho até Iporá, ela me relatou o seguinte caso:

Seu marido entrava em Barra do Garças tocando uma boiada de 700 cabeças. Foi quando, na entrada da primeira ponte, a boiada se espantou com o barulho de um motoqueiro louco. Houve o “estouro da boiada”, que saiu arrebentando cercas e tudo o que tinha pela frente.

Um quilômetro rio Garças acima, a bendita boiada parou, assustada, no meio de um terreirão, debaixo de umas mangueiras.

Estava lá a boiada assustada, na pontinha dos cascos.

Boiadeiro experiente, com jeito, ia tomando posição para voltar o gado para a pista, quando notou uma mulher, uma senhora totalmente desesperada, com as mãos na cabeça, naquela tremenda aflição. Seu neném de um ano estava sentado dentro de um caixote, à sombra da mangueira, quando aquele mundo de gado o cercou.

O milagre aconteceu.

O boiadeiro, com anos de experiência, foi entrando, a cavalo, no meio do gado, que estava na pontinha dos cascos. Foi quando baixou-se e pegou a criança pelo braço, suspendeu-a bem alto e perguntou:

— O neném da senhora é esse aqui?

O gado é animal sagrado. Sagrado na Índia e sagrado onde quer que esteja. Nenhuma rês tocou no caixote onde estava a criança.

Casos assim eu costumo recontar para quem não é do ramo poder entender o comportamento do bicho bruto.

Bicho bruto, mas que sabe respeitar os seres indefesos, até mais que o próprio homem.


Escritor/cronista Américo Ribeiro

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Américo Ribeiro Brasil é escritor, cronista, autor de "Do que vi, senti e ouvi". Reside em Cocalzinho-GO há varias décadas. Nasceu em 19 de novembro de 1941, no então povoado de Tuntum, hoje cidade, sede do município de mesmo nome.