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quinta-feira, 16 de abril de 2026

EXTRA! EXTRA! LEIA NO CORREIO DE PICOS! A MATA DO JAPÃO SOB AS LENTES DE JULIO JANSEM - 1913

Por Jean Carlos Gonçalves.

Recorte do cabeçalho de um exemplar do jornal impresso Correio de Picos. Edição de 18/10/1913.
A temática da Mata do Japão sempre me chamou atenção desde os tempos de criança, pois ouvia de meu pai muitas histórias relacionadas à vasta região natural do centro-maranhense, localizada entre os rios Itapecuru e Mearim, assim denominada pelos antigos desbravadores e colonos do sul maranhense e para onde ele migrou partindo do povoado Bacari dos Tavares, município de Barão de Grajaú (região denominada Lá Fora) para o então povoado da Palestina, hoje cidade de Graça Aranha (Mata do Japão), no início de 1952.

Em junho de 1992, meu pai  Martinho Tavares, partiu para o outro plano, aos 74 anos, enquanto eu contava apenas 13. Desde então, ficou uma lacuna insuperável e as hstórias sobre a Zona do Japão ficaram na memória, mas adormecidas até eu iniciar o curso de História na UEMA em 2002. 

A partir dessa nova experência, logo no primeiro período curso fui instigado pelos professores a lançar o olhar para o entorno, a cortejar a história local e regional, ainda pouco investigadas e, assim, a Mata do Japão despertou em mim novamente o desejo de continuar aprendendo sobre estas paragens e passou a ser objeto de minhas preocupações acadêmicas, até porque ninguém, até os dias atuais, se aventurou em pesquisar e publicar um trabalho mais específico e rigoroso sobre a área geográfica da região central do Maranhão. Muito embora, encontremos referências em algumas obras clássicas de nossa historiografia, como em História do Sul do Maranão (1979) e Geo-História do Maranhão (1985) de Eloy Coelho Netto; Caminhos do Gado (1992), de Maria do Socorro Coelho Cabral; Barra do Corda na História do Maranhão (1994), de Galeno Edgar Brandes; Memória das Passagens, de Fonseca Neto(2006); Viajando do Curador à Presidente Dutra (2007), de José Pedro de Araújo Filho. No ano de 2025, o ilustre tuntuense Adilon Alves, em obra autobiográfica sez um breve, mas excelente comentário sobre a área geográfica.

Desse modo, já são mais de duas décadas pesquisando, compilando fontes, referências, enfim, bucando qualquer evidência documental que possa lançar luzes sobre a geografia e a história da Mata do Japão, termo praticamente desconhecido pelas novas gerações, pois desde as últimas décadas do século XX e neste primeiro quartel do século XXI caiu em desuso, no quase esquecimento.

Por outro lado, com o advento das novas tecnologias da comunicação e da informação, especialmente a internet, assistimos a uma nova era no tocante ao acesso a fontes documentais, pois atualmente é considerável o número de instituições como museus, fundações, bibliotecas, etc., que estão digitalizando livros, relatórios, decretos, leis, mapas, jornais, revistas registros de casamento, de nascimento e batismo, etc.

Assim, temos conseguido algumas referências importantes sobre a Mata do Japão e nessa saga ao longo desses anos destaco a Hermeroteca da Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, a Plataforma Internacional de Genealogia Family Search com sede em Salt Lake City, Utah, nos Estados Unidos, e, o Acervo Digital da Biblioteca Benedito Leite, de São Luis-MA. Desta última, consegui há alguns anos edições do jornal da cidade de Picos (hoje a vizinha Colinas-MA), o Correio de Picos, do ano de 1913.

Esse periódico publicou alguns textos do Engenheiro Julio Jansem, que prestou serviço naquele municípo à epoca. O mesmo fora responsável por algumas construções e por demarcações e medições de terras na região, especialmente, no municípios de Colinas e Mirador.

Pouco sabemos sobre o ilustrado Engenheiro, não temos dados biográficos, mas reconhecemos que a família Jansem no Maranhão se destacou nos séculos XIX e XX com membros do clã atuando em setores estratégicos, como na Engenharia, Medicia e no campo do Direito. 

No caso do Drº Julio Jansem, cujos serviços, até onde sabemos, se estenderam ao Piauí e ao Ceará, assinou alguns artigos sobre a Mata do Japão, em que apresentou o potencial natural da região como a abundância de manacias d'água, a regularidade das chuvas, as boas condições climáticas, a riqueza das matas e a fertilidade do solo, mas também do esquecimento/abandono da região pelo Estado, o isolamento resultante das dificuldades de transporte e comunicação em relação ao litoral, e, sobretudo, as condições de vida dos seus habitantes e sobre a necessidade de organizar núcleos de colonização para manter o sertanejo na terra e evitar a migração e também os conflitos agrários em razão da ausência da regularização das propriedades e das terras devolutas do Estado ocupadas pelos posseiros lavradores, além de potencializar o desenvolvimento de várias culturas agrícolas. 

O artigo também tinha explícita necessidade de sensibilizar o Ministro da Agricultura para planejar e executar o sugerido projeto de colonização num momento em que o ciclo da borracha estava em declínio e muitos maranhenses estavam fazendo movimento migratório inverso, regressando à Mata do Japão.

Então compartilho abaixo, mantendo literalmente a grafia original, um dos registros* na íntegra, do Drº Júlio Jansem, a quem a Sociedade Geográfica de Berlim, na Alemanha, conferiu-lhe o título de sócio correspondente, em setembro de 1913.

"NÚCLEO AGRICOLA

Concentração de trabalhadores nacionais na Terras devolutas do Japão, comarca do Alto Itapecuru, Picos, Maranhão.

MARANHÃO

O povoamento do Maranhão limita-se exclusivamente à facha do literal, região onde a salubridade é subordinada, em geral ao grão de paludismo, visto ser baixa, humida, quente e palustre.

Tudo é differente nas terras elevadas do interior. O clima é; pouco secco e temperado, e pode se affirmar sem receio de contestação que o mesmo se presta, como outro qualquer, a vida vegetativa, tanto para o proprio filho da regiao como para o oriundo de outras paragens. O paludismo que reina temporariamente nos habitantes, é devido em boa parte da vida que os mesmos levam, residindo em chopanas de palha situadas nas margens dos rios e riachos perennes, e apparece somente nos mezes das primeiras enchentes; é também devido á extrema idiossincrasia para os mais elementares principios de hygiene. A não ser as enfermidades originadas nalguns pontos, por causas locaes ou pela imprudencia de muitos. O interior do Maranhão oferece aos que o procuram, vida longa e proveitosa, pela riqueza de suas mattas e urberdade de seu solo.

Infelizmente isto é quasi desconhecido e o interior do Maranhão passa aida hoje por doentil, esteril e mesmo inhospito. O contrario entretanto e exacto e parece que os primeiros povoadores prefcriram as rcgiões do littoral, sem duvida pela maior facilidade do commercio com a capital e só muito tempo depois trataram de explorar o interior, encontrando se ainda hoje enormes áreas de terra proprias para a cultura quase deshabitada em sua maior extensão. A fertilidade e exhuberancia do solo é proverbial, soberbas madeiras de construcção encontram-se em abundancia, assim como preciosos metaes e diversas essencias.

Queremos-nos referir a região de terras de propriedade do Estado chamadas Japão. Situadas entre os rios Itapecuru, Mearim e Alpercatas, numa enorme facha de 200 kilometros de extenção, nenhum desenvolvimento apresentam, somente aqui e acolá encontram-se algum povoado izolado, em distancias de 20 a mais leguas, e desperças, pobres chopanas de algum roceiro. Tudo isso devido a falta de regulamentação da venda ou ou aforo das terras publicas, occupadas, porem inultimente, pela rezidência habitual, cultivo do solo e exploração de suas riquzas naturaes. Os habitantes, posseiros das ditas terras com a boa fé de estarem beneficiando a terra inculta que acharam, supondo-a sua, não a tendo devidamente medida e demarcada, com titulos de dominio pleno passado pela autoridade competente, ignoram onde começa o termo que lhe pertence e onde começa o dos visinhos, de forma a estabelecer numa situação o cheia de duvida e nociva a ordem publica.

Frequentemente chegam queixas, mais ou menos fundadas às autoridades de invasões por parte de visinhos dos mesmos acobertados pela natural ignorancia dos seus respectivos limites, dando causa a luctas e represálias.

As terras do JAPÃO são de uma fertilidade espantosa para a polycultura. As produções agricolas são: arroz, algodão, milho, mandioca, feijão e canna de assucar etc. sendo facil de prever muitas outras especies como café, cacau etc. ahi produzirão com excellente resultado. Tambem para o cultivo da Maniçoba estas terras são excelentes e ja existem diversas plantações, umas novas e outras ja sangradas ha anos.

O nosso fito e attrair as vistas do digno e incançavel Ministro da Agricultura sobre esta zona enorme, em proveito do colono nacional, para amparal-o contra o forte, dando-lhes meios para não precisar emigrar. Essa emigração so tem lugar, quando o trabalhador não pode absolutamente ganhar o seu sustento na terra que lhe servio de berço ou quando precisa buscar fora o dinheiro que necessita para o pão de cada dia. A intensidade dessa emigração natural e forçosa iria deminuindo lentamente a proporção que os melhoramentos executados na zona fosse tomando o trabalho menos forçado e consolidando a fortuna dos negocios dos nossos caboclos.

Com a desvarolisação da borracha, muitos dos nossos emigrantes estão imigrando novamente em busca do lar antigo procurando no cultivo do solo o que não possível obter na extração da borracha.

Para a concentração destes homens nesta zona, seria de grande utilidade, o estabelecimento de um Centro Agricola, n’um ponto apropriado nas terras devolutas do JAPÃO em beneficio do trabalhador nacional e organisado segundo os moldes da lei Nº 6455 de 1907 sobre o povoamento do Solo, identicos aos que já estão instalados em diversos Estados da União, inclusive o Maranhão. No numero seguinte trataremos de indicar locaes apropriados para Nucleos Coloniaes; nas terras do Japão.

Julio Jansem

ENGENHEIRO."

______________
*Artigo publicado no Jornal Correio de Picos em 18 de outubro de 1913. Ano IV; nº 97.

5 comentários:

Creomildo04@gmail.com disse...

Quandrante Espacial - muito Especial -
Denominado Mata do Japão.

Eis uma janela do tempo, para perscrutar o passado não tão distante, todavia, através da pena do nobre engenheiro Júlio Jansen, o qual deixou como legado, seus apontamentos escritos para a posteridade, dados e informações para melhor conhecimento sobre esta vasta região uberrima rica em mananciais, densas florestas, a qual era ignorada e desconhecida por grande parte das autoridades do final do Século XVIII e início do século XIX;

Foi necessário o sopro de fortes ventos das revoluções, que sacudiram o Nordeste, que naquela época era tido como o Norte Brasileiro, o qual serviu como uma gigantesca alavanca que, impulsionou uma levar de homens bravos, destemidos, provenientes das antigas Colônias:
Bahia,
Pernambuco,
Ceará,
Rio Grande do Norte e
Piauí...
Os quais vieram Povoar o Sul do Maranhão.

O artigo do Professor Jean Carlos Tavares Vieira Jean Carlos, serve como lenitivo revigorante para todos que amam História & Genealogia e, também, provocar outros atores e autores da História Maranhense para a geração atual e as autoridades competentes, para que, sintam a necessidade de continuar perscrutando fontes primárias sobre a extensa Área Mata do Japão, e isto é, um pouco mais da origem da história Maranhão do Sul, nosso verdadeiro Torrão.

Palmas Tocantins,
16 de abril de 2026

Creomildo Cavalhedo Leite

Ecos de Tuntum disse...

Caríssimo, amigo Creomildo você sempre agrega muito com os teus comentários, pois é uma das maiores autorides quanto o assunto é sobre o nosso Sertão, a nossa Mata do Jaão. Obrigado pela partilha, pela generosidade, pela parceria. Um abraço fraterno! Sigamos!!!

Anônimo disse...

Lembra que a cidade de graça aranha antes de chamar Palestina tinha outro nome

Anônimo disse...

Lembra que antes de chamar Palestina tinha outro nome?

Ecos de Tuntum disse...

Primeiramente até o primeiro quartel do século XX fora denomnado Baixão do Periquitos, que evoluiu para Centro dos Periquitos. Em 1943, o padre da paróquia de Colinas-MA, sugeriu o nome de Pallestina. Este topõmimo foi substituído oficialmente em 1959, em face do projeto de lei emancipação, pelo qual foi aprovado o nome de Graça Aranha, em homenagem ao escritor maranhense, autor de Canaã, representante do modernismo e um dos protagonista da Semana da Arte Moderna em 1922.