| Um historiador examinando uma fonte histórica escrita. |
Em nossa última publicação, O MARANHÃO E A MATA DO JAPÃO EM 1915, compartilhamos o artigo intitulado "Pelo Maranhão", de autoria do intelectual passagense Pedro Oliveira, e, como julgamos o texto de grande valor histórico, faremos agora uma análise interpretativa da matéria que publico novamente abaixo, e, em seguida, levantamos alguns pontos que avaliamos relevantes, conforme anunciamos na postagem anterior.
PELO MARANHÃO
O Maranhão é, incontestavelmente,
uma terra de esperanças.
Foi
grande e próspero nos tempos passado, teve filhos que lhe glorificaram o nome e
braços que lhe impulsionaram as indústrias.
Hoje
permanece immovel ante a febre de progresso que agita muitas outras
circumscripções da Federação Brasileira. Entretanto, amanhã poderá continuar a
sua marcha evolutiva, porque não lhe faltam filhos dos mais ilustres e terras
das mais soberbas e férteis.
Basta
que os Governos se empenhem, sincera e resolutamente, na resolução dos magnos
problemas de que depende o futuro e a grandeza do valoroso Estado, e que são: -
a multiplicação dos meios de transporte, a construcção de porto de São Luiz, a
colisação das terras desabitadas e a divulgação e aperfeiçoamento do ensino nas
diversas localidades do interior.
Destes
serviços, o mais urgente é, sem dúvida, o que se refere ao transporte.
Quem
já viajou pelos sertões maranhenses soffrendo as ríspidas provações de uma
longa e erma travessia; quem observou a morosidade e crueza da conducção de
algodão em dificultosos comboios; quem contemplou o desfilar lento e caçando
numerosas boiadas que descem do alto sertão para as feiras do Arary, Itapecurú
e Vargem Grande, ou para os portos da Gambarra, do Ambude, da Inveja, etc.;
quem já sentiu de perto os queixumes dos lavradores e criadores contra o
abandono que se vêem, não pode deixar de reconhecer a necessidade do
estabelecimento de vias férreas, principalmente nas zonas, não atravessadas pelos
rios.
A
estrada de ferro de São Luiz a Caxias, pouca utilidade apresentará por
enquanto. Os gêneros produzidos pelos municípios as margens do Itapecurú,
transportam-se facilmente para a capital, por meio de embarcações a vapor, que,
em qualquer época do anno, chegam até a cidade de Caxias. De modo que essa
estrada era, para todas as razões, adiável.
Do
que o Maranhão precisa, e sem demora, é uma linha ferrea, que partindo de
qualquer ponto do Itapecurú, vá desbravar as mattas do Japão e desvendar as variadas
riquezas que se estendem desde as altura de Barra do Corda até as fertilíssimas
terras do Tocantins.
Além
de grandes minas ainda inexploradas, há em todo o interior do Estado innemeras
regiões de terras desconhecidas, e cujo povoamento só mais tarde se podem
effectuar.
Destaca-se,
entre outras, a zona do Japão que se alonga pelos municípios de Caxias, Codó,
Barra do Corda e Picos. É um vasto carrasco, entrecortado de exuberantes mattas
densas, tabocaes e campos adequados para a criação de gado. Terreno mais ou
menos plano, apenas levemente encrespado na volumosa faixa que avança para
Picos e Barra do Corda, continua inculto na sua quase totalidade. Contudo,
contam-se povoados florescentes, como os de Santo Antônio, Curador e alguns
outros, que attestam a superioridade das terras do Japão. É ahi que se oculta a
importante lagoa da Matta, que é desconhecida dos maranhenses.
Sabe-se
que um velho e arrojado caçador daquella baudas, depois de dura caminhada
através do carrasco, conseguiu encostar, pouco depois de 1890, num dos recantos
da famosa lagoa, em cujos arredores, além de muita caça, existe grande
quantidade de gado bravios, provavelmente, oriundos de rezes que se perderam em
épocas remotas e que para ali se dirigiam, impellidas pela sede.
Quando
os índios das Aldeias Altas e Trizidella, incomodados com a presença dos
primeiros povoadores da actual cidade de Caxias, deixaram as margens do
Itapecuru, estabeleceram-se, pela primeira vez em torno dessa lagôa, segundo a
narrativa de um de seus descendentes, que morou no município de Caxias.
Pelo
volume inextinguível de suas aguas, pela fartura de peixes e pela fertilidade
dos terrenos contigios, a lagôa da Matta, hoje despovoada, será, certamente,
para o futuro, um grande centro de lavoura e criação. Tem um colossal
sangradouro – o rio Codó, que a põe em perene comunicação com o Itapecurú.
Na
zona do Japão, encontra-se alguns terrenos alagadiços, nos quaes se pode
cultivar, proveitosamente, a canna de assucar.
Existe
ainda, uma grande quantidade de maniçoba brava, muito leitosa, conforme
experiências feitas nas proximidades de Picos, pelo esforçado agricultor
Delfino Calvo.
E
como estas, muitas outras terras, egualmentes ubérrimas, jazem em completo
abandono, á espera de braços e ferramentas que as revolvam e de vias de
transporte que as ponham em contacto com os centros commerciaes do futuroso
Estado nortista.
Multipliquem-se
os meios de transporte, e o systema rotineiro empregado na lavoura será, pouco
a pouco, substituído pelos processos scientificos adoptados na agricultura dos
Estados progressistas.
Faça-se
a linha férrea do Tocantins e o Maranhão terá dado um salto gigantesco passo
para a debelação da crise financeira que lhe vem, de há muito, amortecendo as
energias vitaes.
Para a consecução de tão indispensável quão urgente melhoramento, torna-se preciso que a representação maranhense se decida a trabalhar nesse sentido, com perseverança e calor, a fim de que se torne uma realidade essa sonhada estrada de penetração, que até agora tem vivido a vida lethargica dos projectos e estudos mystificadores.
Pedro Oliveira
FONTE: JORNAL
DO BRASIL– Domingo, 21/03/1915; Ano:
1915; Edição: 00080. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_03&Pesq=Mata%20do%20Jap%c3%a3o&pagfis=2887.
[Acesso em:
15/05/2026].
Interpretando a fonte histórica...
1. Um Maranhão entre o passado glorioso e o atraso presente
Logo no início, Pedro Oliveira afirma que o Maranhão era uma “terra de esperanças”. Essa expressão revela um sentimento ambíguo: ao mesmo tempo em que o autor reconhece que o estado vivia um período de estagnação econômica, ele acredita no potencial de recuperação e crescimento.
O texto lembra que o Maranhão já havia sido rico e importante no passado, especialmente durante os séculos XVIII e XIX, quando a produção agrícola — principalmente algodão e arroz — impulsionava a economia maranhense. Porém, em 1915, o autor observa que o estado permanecia “immovel” diante do progresso de outras regiões brasileiras.
Para Pedro Oliveira, o progresso dependia de quatro elementos principais:
- ampliação dos meios de transporte;
- construção do porto de São Luís;
- ocupação das terras consideradas “desabitadas”;
- expansão e melhoria da educação no interior.
Grande parte do artigo é dedicada à defesa da construção de uma ferrovia ligando o interior do Maranhão à região do Tocantins.
Pedro Oliveira descreve as dificuldades enfrentadas pelos sertanejos:
- longas viagens pelos sertões;
- transporte lento do algodão;
- deslocamento difícil das boiadas;
- isolamento dos produtores rurais.
Na visão do autor, sem estradas e ferrovias, o Maranhão continuaria economicamente atrasado.
4. O “sertão” como espaço de riqueza
O texto apresenta uma visão típica do pensamento desenvolvimentista do início do século XX: o interior é tratado como um território rico, fértil e cheio de recursos naturais, mas “abandonado”.
Pedro Oliveira descreve a chamada “zona do Japão”, localizada entre municípios como:
- Caxias
- Codó
- Barra do Corda (no qual os atuais os territórios de Tuntum, Santa Filomena, Presidente Dutra e parte de Graça Aranha se inseriam em 1915)
- Picos (atual Colinas)
Segundo ele, a região possuía:
- matas densas;
- campos para criação de gado;
- terras férteis;
- lagoas abundantes;
- potencial agrícola;
- possíveis riquezas minerais.
O texto também menciona os indígenas das regiões de Aldeias Altas e Trizidela. Entretanto, a abordagem reflete a mentalidade dominante da época: os povos indígenas aparecem apenas como parte do passado da ocupação territorial.
Pedro Oliveira não discute os direitos indígenas nem os impactos da expansão econômica sobre esses povos. Pelo contrário, o avanço das ferrovias e do povoamento é tratado como inevitável e positivo.
Outro aspecto importante é a defesa da substituição das práticas agrícolas tradicionais por métodos considerados “científicos”.
O autor acreditava que melhores transportes, maior integração econômica, contato com centros comerciais, permitiriam modernizar a agricultura maranhense.
Essa ideia estava alinhada ao pensamento positivista e modernizador da Primeira República, que valorizava técnica, ciência e produtividade.
7. Crítica política
O texto também possui um tom de cobrança política. Pedro Oliveira responsabiliza os governos e os representantes maranhenses pela falta de investimentos e pela lentidão dos projetos.
Quando fala da ferrovia do Tocantins, ele denuncia os “projectos e estudos mystificadores”, criticando promessas que nunca saíam do papel.
Essa crítica demonstra que muitos projetos de integração do interior brasileiro já eram discutidos há décadas, mas enfrentavam:
- falta de recursos;
- interesses políticos;
- abandono estatal.
8. Conclusão interpretativa
O artigo de Pedro Oliveira é um importante documento histórico porque revela:
- o pensamento das elites intelectuais maranhenses em 1915;
- a preocupação com o atraso econômico do Maranhão;
- a crença no progresso através da infraestrutura e da modernização;
- o interesse pela ocupação econômica do sertão;
- a valorização das riquezas naturais do interior maranhense.
Ao mesmo tempo, o texto também mostra limites típicos da época:
- visão utilitária da natureza;
- apagamento dos povos indígenas;
- ideia de desenvolvimento baseada apenas na exploração econômica.
Assim, “Pelo Maranhão” não é apenas uma defesa das ferrovias: é um retrato das esperanças, projetos e contradições do Maranhão no início do século XX.
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