Por Jean Carlos Gonçalves.
| Imagem meramente ilustrativa para fins desta publicação. |
Vanduy, 80 anos, estava em pleno gozo de suas faculdades mentais, pois tinha uma memória invejável. Infelizmente nos deixou uma semana após aquela nossa conversa pelo Whatszaap e por ligação direta, vítima de um AVC, ocorrido num logradouro público próximo a sua residência em São Luís-MA.
O conteúdo de nosso diálogo mais uma vez era sobre o tempos idos de Tuntum e o dia 13 de maio evoca muitas lembranças coletivas. Algumas agradáveis, outras tristes, aliás, trágicas e, mesmo ante aos dissabores compreendo que não se pode abdicar de lembrar. Pois reconhecemos que a morte e as tragédias assumem significados além da dor e do sofrimento. Para os existencialistas, como Albert Camus, o sofrimento não possui um significado pronto; o ser humano é quem constrói sentido diante do absurdo da vida. Outros filósofos, como Friedrich Nietzsche, entendiam que a dor pode fortalecer, amadurecer e revelar profundidades da existência que o conforto nunca mostraria. Na psicologia, especialmente em estudos sobre luto e resiliência, observa-se que algumas pessoas conseguem transformar experiências traumáticas em crescimento humano: valorizam mais os vínculos, desenvolvem empatia, mudam prioridades ou passam a enxergar a vida com maior profundidade. Isso não torna a tragédia “boa”, mas mostra que algo positivo pode nascer depois dela. Historicamente, tragédias coletivas também costumam gerar memória, união e consciência social. Muitas comunidades fortalecem sua identidade ao preservar a lembrança de perdas dolorosas. Monumentos, livros, homenagens e relatos históricos existem porque os vivos tentam dar sentido à ausência dos que partiram.
Amante da cultura, o também ex-professor de matemática do Grupo Escolar do Maranhão (Colégio Bandeirante), Vanduy se tornou um precioso amigo e interlocutor sobre a memória coletiva tuntuense, e, uma das temáticas mais provocadas por mim sempre foi o fatídico e mais trágico acidente automobilístico da história de Tuntum-MA.
O dia 13 de maio de 1974 permanece gravado na memória do povo de Tuntum como uma das datas mais dolorosas de sua história. Naquela manhã, um grupo de servidores municipais e professoras seguia viagem rumo a São Luís-MA, em missão ligada à administração pública e à educação. O destino, porém, foi interrompido por uma tragédia que abalaria profundamente toda a sociedade tuntuense.
Segundo Vanduy Morais, que à época além de vereador e presidente da Câmara Municipal, era responsável pelo emplacamento dos veículos do município, também deveria partir naquela madugada de segunda-feira, porém fora convencido por Zeca Coelho, a ficar e, aasim, priorizar a ida de senhoras que tinham pedências mais urgentes a resolver na Capital. O vereador concordou e aceitou serenamente a justificativa.
O ex-vereador Edino Gonçalves relatou que conversou com Zeca Coelho, juntamente com o também saudoso, Mestre Elias, até altas horas da noite que antecedeu a viagem. Gonçalves presenciou quando o primeiro-cavalheiro, convidou a Dona França para fazer a viagem, determinando que a Prefeita Rita Maria, permanecesse na cidade, o que não a agradou, contudo, aceitou. Edino, também relatou que o motorista oficial era o Dedé do Leó, mas em razão das pazes celada entre os irmãos Zeca Coelho e Luis Coelho Neto, o Coelho, que tiveram um pequeno desentendimento, também ficou acertado que Dedé não seria o motorista da viagem, o Coelho.
| Recebendo um mimo de meu dileto amigo e guardião da memória de Tuntum, Edino Gonçalves. |
| Professora Gilza Leda, foi convidada para fazer a viagem, mas decidiu ir noutro veículo dias antes. |
Entretanto, cerca de 5 quilômetros antes da cidade de Miranda do Norte, na BR-135, o veículo em que estavam colidiu violentamente com um caminhão. O impacto foi devastador e provocou a morte de seis ocupantes, além de deixar uma sobrevivente gravemente ferida.
As vítimas fatais foram:
- José Pinheiro Coelho, contador, filho de Alípio e Ana Rita Pinheiro e esposo da então prefeita Rita Maria Saraiva Pinheiro;
- Luís Coelho Neto, o Coelho, contador, irmão de José Pinheiro e motorista do veículo no momento do acidente;
- Marina Morais, professora e secretária do Ginásio Comercial;
- Maria do Socorro Saraiva, professora e esposa do padeiro Osano Saraiva;
- Aparecida Lima, professora e esposa de Antônio Soares Teixeira, o “Teixeirinha”, vice-prefeito (1977-1983), irmão do ex-prefeito Bento Teixeira;
- Aldaíres, costureira bastante conhecida na cidade.
A única sobrevivente foi a comerciante Dona Francisca Ferreira, conhecida popularmente como “França do Neném Barateiro”. Embora tenha sobrevivido ao acidente, carregou sequelas físicas e emocionais pelo resto da vida, vindo a falecer apenas em janeiro de 2023. Sua trajetória tornou-se símbolo vivo da dor e da resistência diante daquela tragédia.
Edino recebeu a notícia pelo rádio. A notícia correu, se espalhou como um um rastíliho de pólvora. Vanduy estava em sala de aula no Colégio Bandeirante. A informação é de que não havia sobreviventes. Morais saiu rápido para Presidente Dutra, onde encontrou a vereadora Maria Amélia Carneiro, a Maroca, que já munida de informações mais precisas lhe confirmou a tragédia.
O acidente causou enorme comoção em Tuntum. Em uma época em que as estradas eram precárias e os recursos de socorro limitados, notícias como essa se espalhavam rapidamente entre famílias e vizinhos, mergulhando a cidade em profundo luto. Muitas das vítimas eram pessoas bastante conhecidas e estimadas, ligadas à educação, à administração pública e à vida social do município.
Os corpos foram velados no auditório do antigo prédio da prefeitura, com excessão de Zeca, que fora velado em sua residência a pedido da jovem esposa, a prefeita Rita Maria. Vanduy afirmou que nunca tinha visto tanta gente num cortejo. Indubitavelmente, a cidade mergulhou numa profunda tristeza e comoção.
Mais de cinco décadas depois, o episódio ainda é lembrado por moradores antigos como o mais grave acidente automobilístico envolvendo munícipes tuntuenses. A tragédia marcou uma geração inteira e permanece como memória coletiva de um tempo difícil, quando sonhos foram interrompidos de maneira abrupta na estrada que levava à capital maranhense.
De modo algum, queremos aqui reduzir o impacto trágico do maior acidente automobilítico em solo tuntuense, que ocorreu em setembro de 2024, quando cinco pessoas da mesma família do povoado Ipu-Iru morreram após um veículo Celta colidir com um caminhão na BR 226. Entretanto, pela quantididade de vítimas, pelas circunstâncias e contexto histórico, o fatídico acidente de 1974 é muito lembrado e deve ser objeto de conhecimento das futuras gerações.
Recordar os nomes dessas vítimas, inclusive agora do meu saudoso amigo Vanduy Moroais e de tantos outros citadinos que viveram e ainda rememoram com consternação um fato tão marcante é também preservar a história de Tuntum e homenagear pessoas que faziam parte da construção social, educacional e humana do município. O 13 de maio de 1974 continua sendo uma data de silêncio, saudade e respeito na memória do povo tuntuense.
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