Por Rubem Milhomem*
Olímpio Martins da Cruz (20 de outubro de 1909 a 11 de junho de 1996) foi a primeira celebridade cultural da história da Barra. O primeiro poeta a ser reconhecido e festejado ainda em vida. Não só porque escreveu obras de excelência, mas porque sua literatura foi além da literatura. No tempo dele não havia internet, lacração de rede social nem dancinha de Tik Tok - influencer era quem tinha cérebro e contribuía decisivamente para a vida pública.
Cruz foi quem traduziu o espírito do seu tempo e construiu na sua poesia e na sua prosa a identidade moderna da nossa terra, que se descobriu orgulhosa de si mesma e de seus valores. Foi a geração dele que deu à Barra o título de “Princesa do Sertão” (que muito antes era de outras cidades do Maranhão - e muitíssimo antes era de outras cidades do Ceará, mas não só).
Ele foi o primeiro grande poeta a dedicar sua escrita a temas sobre Barra, seu cotidiano, sua história, sobre o jeito de ser e viver dos cordenses. Sua inspiração por excelência foram os sertões e as selvas, os sertanejos e os indígenas. Em síntese, o mundo no qual ele vivia e efetivamente conhecia. Entre realismo e romantismo, entre denúncia social e puro ufanismo, entre universalismo e bairrismo, colocou a Barra e suas contradições nos livros - para de lá nunca mais sair.
Cruz dominou como poucos a temática indígena porque trabalhou décadas no SPI, depois renomeado como Funai. Daí vieram livros como “Clamor da Selva”, “Lendas indígenas” (escrita em parceria com Maria de Lourdes Reis) e “Vocabulário de quatro dialetos indígenas do Maranhão” (não houve o crédito no livro e aqui temos de fazer o registro histórico - a obra teve a decisiva colaboração de Nazaré Buritirana, que foi professora na aldeia indígena do Ponto e foi a primeira pessoa a colocar em texto de língua portuguesa, em anotações que fazia em cadernos, a linguagem indígena dos Guajajara e Canela). Cruz recebeu a Medalha Nacional do Mérito Indigenista, na categoria Pacificador, honraria concedida a vultos como Cláudio e Orlando Villas-Boas.
Ele escreveu a obra definitiva sobre o Massacre de Alto Alegre em 1901 (“Cauiré Imana, o Cacique Rebelde”) porque tinha amplo acesso aos depoimentos orais de sobreviventes e seus descendentes e também a experiência de pesquisa jornalística de quem integrou a redação dos jornais “O Norte” (desde os 13 anos de idade) e “O Limiar” - foi assim que mostrou com isenção que para 111 cristãos mortos (jamais esquecidos porque a história é contada pelos vencedores) houve o assassinato de mais de 300 indígenas Guajajara (dos quais ninguem fala), deixando em aberto a inquietante pergunta sobre quem afinal massacrou quem. Em outro livro importante (Puturã) abordou o Massacre da Aldeia Chinela em 1913, no qual foram mortos mais de 150 indígenas Canela - um prenúncio do futuro Massacre do Sítio dos Arrudas em 1963.
Cruz discorreu com autoridade sobre o homem sertanejo porque ele próprio foi um - de origem humilde, nascido na Fazenda Soledade, na região de Tuntum, que era povoado da Barra. Sua família não era de fazendeiros, mas de agricultores. Seus pais Zeferino Martins da Cruz e Vicência Craveiro, e seu único irmão Inácio, eram pessoas da roça. Há um poema autobiográfico no qual ele conta que saiu do interior e foi para a cidade, a Barra, a mando dos pais para estudar, mas não estudou - no sentido de que não teve formação acadêmica. Cruz tinha vasta cultura e sólida bagagem literária, mas era autodidata. Teve vida difícil e contava que quando menino chegou a buscar água no rio Corda com a lata na cabeça para encher os potes das donas de casa que lhe pagassem alguns trocados. Seu primeiro contato com a literatura foi lendo restos de folhas de jornais que achava nas ruas. Dessa formação pessoal vieram obras, publicadas ou não, como "Relatório Sertanejo”, “Vaqueiros e Arreios” e “Espinheiros Floridos”, por exemplo.
Cruz influenciou gerações de poetas, com suas dezenas de livros de originalidade ímpar, poesia doce e inegável apelo às raízes cordenses - colocando abaixo a ideia de que somente gente erudita poderia ser poeta, a exemplo do que concebia a geração anterior à dele, como aquela de Olimpio Fialho. Desse contexto vieram obras como “Canção do Abandono”, "Cinzas do Tempo", “Trovas brancas”, “Retalhos de versos”, “Cantigas de outono”, “Rimas e flores”, entre outras. E assim foram incontáveis os seus discípulos numa longa linhagem cuja relevância foi mais ou menos até os livros do poeta Efe Brandes.
Cruz tinha tudo para dar errado, pois do ponto de vista formal, fez a poesia da Barra do século 20 - aquela dos sonetos cheios de palavras difíceis e frases indiretas que desafiam a capacidade de leitura da mais destemida das criaturas. O problema dos sonetos é que os autores, literalmente contando sílabas, e devotadamente submissos à ditadura das rimas, em geral colocam a forma do poema acima da mensagem. Daí resulta não raro uma arquitetura sofisticada com pouca densidade de conteúdo. Cruz, porém, escapou dessa armadilha estilística por uma razão básica - tinha o que dizer e falava do que conhecia. E disse e falou. Falou e disse. Salvando os sonetos do cemitério do hermetismo. Ufa.
Quem ainda não leu, leia. A poesia de Cruz tem música suave, ritmo cantante, métrica precisa, lirismo e conteúdo que alimentam a alma. São versos em valsa em poemas para declamação, pois no tempo dele se declamam poemas em saraus e eventos diversos. Poeta na época dele era figura ilustre que subia ao palco para discursar em tertúlias e vesperais, em festas cívicas e sociais, em bailes iluminados com petromax e serestas palpitantes nas quais borboleteavam os casais.
Entre os autores clássicos da Barra, à altura dele, em termos literários, só esteve Maranhão Sobrinho - que quase ninguém leu, nem ontem, nem hoje, sejamos sinceros (uma pena - Kissyan Castro fez uma biografia monumental sobre ele). E Sobrinho nunca escreveu sobre a Barra - tem três livros póstumos publicados que na realidade são coletâneas de nítida inspiração européia. Cruz foi quem botou o povo na poesia e fez a poesia ir ao povo. Assim, em mais de um sentido, foi o primeiro poeta popular da Barra.
Cruz escreveu as letras da “Canção Cordina”, do “Hino de Barra do Corda”, do “Hino do Cordino Esporte Clube” e do “Hino da Escola Pio XI”, cujas músicas foram do maestro maior Moisés da Providência Araújo - o genial e genioso índigena Guajajara, filho de Caetano da Providência, irmão de Ananias da Providência (outro grande músico de quem pouco se fala). Cruz influenciou o teatro, a exemplo de obras suas encenadas pelo grupo do ator e diretor Antônio José Ribeiro. Não há área cultural ou histórica que não tenha alguma repercussão da biografia de Olímpio Cruz. Ele foi inclusive vereador e presidente da Câmara de Vereadores da Barra (seu filho Nonato Cruz foi o único vereador cassado pelo Golpe de 1964). Na política Cruz teve embates, alianças e desalianças com personagens famosos como Perdigão Freire e Galeno Brandes.
Cruz é patrono da Academia de Letras da Barra e foi membro fundador do Grêmio Cultural Maranhão Sobrinho e do Grêmio Machado de Assis, todos na terra cordense. Foi também membro da Academia de Letras de Brasília e da Academia Maranhense de Trovas.
Tive a honra de conhecer pessoalmente Olímpio Cruz. Ele foi meu padrinho de batismo e meu tio, casado com a tia Maria Gato, irmã da minha mãe Neuzinha Gato. Pai dos meus primos Nonato (falecido), Dalva, Dinalva, Lindalva e Olímpio Júnior - além de Rosilda, minha madrinha de batismo, que trabalhou décadas com ele, foi criada por ele e que se considera filha adotiva dele com todo louvor. Morei na casa dele por algum tempo no número 54 da Quadra 6 do Guará I, quando vim da Barra para o DF. Era um homem afável, terno, gentilíssimo. Como além de famoso era muito agregador, sua residência era uma verdadeira embaixada da Barra no DF - todo conterrâneo passava por lá para alguma visita, algum almoço, algum café. Sempre tinha a conversa comprida e animada.
Lembro de seus últimos dias de vida. Esteve sereno até o fim. Margeando algum lugar entre o céu e a terra, dizia ver muitas crianças correndo pela casa - não havia crianças na casa. Certa vez passou um tempo considerável sozinho no portão como se conversasse com alguém e quando voltou falou com alegria que tinha acabado de receber a visita de Galeno Brandes, que havia morrido antes dele. Que tal? Olímpio Cruz partiu muito bem acompanhado. Pelos vivos e pelos mortos. Dele se pode dizer verdadeiramente - foi o homem, ficou a obra. Esse, aliás, é o conceito de quem é imortal. Palmas.
______
*Rubem Milhomem é escritor e poeta, mora em Brasília (DF)
______
Notas da Redação:
- As fotos em mosaico são do acervo do Rubem Milhomem;
- Na sexta-feira (12), é a vez do poeta Francisco Brito, afilhado do Olímpio Cruz, poeta maior de Barra do Corda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário