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quarta-feira, 20 de maio de 2026

HÁ 62 ANOS LUÍS GONZAGA DA CUNHA ERA REINTEGRADO AO CARGO DE PREFEITO MUNICIPAL DE TUNTUM-MA

Por Jean Carlos Gonçalves.

O prefeito Luís Gonzaga da Cunha ao lado (à esquerda) da porta-bandeira.O prefeito Ariston Arruda Leda um pouco atrás e  à esquerda de Luís Gonzaga.
O caso do município de Tuntum está encerrado: pela madrugada de recém passada, seguiu para essa localidade o Dr. Araújo Neto Procurador Geral do Esado, para reempossar nos cargos de prefeito e vice-prefeito, ali, os Srs Luís Gonzaga da Cunha e Joquim de Morais, respectivamente.

Vê-se, por aí, que êsses cidadãos criminosamente caluniados, quando se lhes atribuiram atividades subversivas; e, mais ainda que o documento em que havia renunciado aos seus mandatos não passou de uma farsa a que o forçaram pressões e ameaças a que não puderam resistir. (CORREIO DO NORDESTE, p. 3, 1964)

     Vitoriosos no pleito eleitoral de 06 de outubro de 1963, o prefeito Luís Gonzaga da Cunha e o vice-prefeito Joaquim Morais, receberam posse de seus cargos em 31 de janeiro de 1964.
Prefeito de Tuntum Luís Gonzaga da Cunha (1964-1969)
     Dois meses depois, na noite do 31 de março para as primeiras hora do 1º de abril foi deflagrado o movimento que destituiu da Presidência da República, João Goulart.

  Uma junta governativa das Forças Armadas assumiu o governo do Estado Brasileiro até que em 15 de abril daquele ano, por via indireta, era dada a posse a General Castelo Branco à Presidência da República.

    Enquanto isso no Maranhão, já havia se concretizado um racha na base do governador Newton Bello. Um grupos de dissidentes: Cid Carvalho, Ivar Saldanha, Lister Caldas, Eurico Ribeiro, Mattos Carvalho, Luis Coelho e Alberto Aboud, dentre outros, formaram as ditas Oposições Coligadas.

   Como reação, o grupo situacionista passou a adotar iniciativas com o objetivo de retaliar os deputados "rebeldes", e, uma das primeiras ações foi tentar minar as bases eleitorais do Deputado Federal Eurico Ribeiro, que tinha em Tuntum, Presidente Dutra e Dom Pedro, os seus principais redutos eleitorais.

   Em Tuntum, na eleição municipal de 06 de outubro de 1963, Eurico Ribeiro apoiou o candidato apontado pelo seu tio e prefeito Ariston Arruda Leda, Luís Gonzaga da Cunha, fazendo ferrenha oposição ao candidato apoiado pelo governador do estado Newton Belo, empresário Edésio Gomes Fialho, que foi derrotado nquele pleito.
 
  Nesse contexto emerge a figura do deputado estadual Ariston Gomes da Costa, que integrava a base do governo estadual na Assembleia Legislativa. Com histórico de rivalidades entre as famílias Gonzaga da Cunha e Gomes da Costa, desde quando, residentes em Santa Filomena, então povoado do município de Tuntum, tiveram sérios conflitos, que culminou com a morte de Abdon Costa, primo do deputado Ariston. Este aproveitou o ensejo para se vingar pessoal e politicamente de Luís Gonzaga.

    No dia 09 de abril de 1964 o Deputado Ariston Costa chega em Tuntum com um grupo de policiais e, segundo relatos, que foram noticiados pelo Correio do Nordeste, o parlamentar capitaneou uma verdadeira devassa na cidade de Tuntum, inclusive invadindo instituições públicas, violando residências. Nesse enredo, forçaram o prefeito Luís Gonzaga e o vice Joaquim Morais, além de vereadores como Júlio Dantas e José Borges Aráujo, o Zé Corelo, a assinarem papéis em branco que foram utilizados pelo o próprio Ariston Costa, que datilografou as suas renúncias, sob o pretexto de que se tratavam de elementos subversivos, pois eram adeptos da doutrina comunista e o deputado se apresentava em Tuntum em nome da "Revolução" de 31 de março, ou seja, estava cumprindo uma missão em nome dos militares. Cabe ressaltar que a justificativa para o Golpe de 1964 foi justamente o discurso do anticomunismo para legitimar a ação dos generais das Forças Armadas, e, assim, evitar que o Brasil se alinhase ao bloco soviético que se digladiava com o bloco capitalista liderado pelos EUA, durante a Guerra Fria. O problema é que Ariston agiu em causa própria sem o conhecimento do Governo Militar.

Recorte do jornal Correio do Nordeste,
edição domingo de 07 de junho de 1964, p.6.

   Luís Gonzaga, Joaquim Morais e Júlio Nascimento desesperados partiram a pé até a cidade de Dom Pedro, onde pegaram um caminhão com destino à Capital maranhense para denunciar os abusos cometidos por Ariston Costa. Desse modo, entra em cena o deputado federal Eurico Ribeiro que em audiência com o Presidente Castelo Branco em Brasília-DF, convenceu o mandatário a enviar uma equipe do Exército Nacional para Tuntum e realizar uma auditoria para apurar os fatos.

    Concluído os trabalhos, ficou constatado que as acusações do deputado Ariston não passaram de calúnias, de acusações sem fundamento, pois de longe o prefeito Luís Gonzaga sabia sequer o que significava marxismo/comunismo.

     Ariston, eleito em 1962, foi recolhido ao 24º BC na Capital e isolado não teve outra alternativa a não ser apresentar renúncia ao cargo de deputado estadual na Assembleia Legislativa em 05 de junho daquele mesmo ano.

     Hoje, 20 de maio de 2026 completa 62 anos que Luís Gonzaga e o demais destituídos de seus cargos foram reintegrados aos seus respectivos cargos.

     O fragmento da matéria do jornal Correio do Nordeste no início, deixa evidente o contexto do fato histórico. O texto noticia o desfecho do conflito político no município de Tuntum-MA, cujo núcleo da informação é o retorno físico e legal dos governantes legítimos aos seus cargos. A vinda do Procurador Geral do Estado, Dr. Araújo Neto, de madrugada, sublinha a urgência e a gravidade da situação. Não se tratava de uma transição de rotina, mas de uma intervenção jurídica para corrigir uma ilegalidade, anulando o ato que os havia afastado.

   Não temos como esgotar este assunto em breves e singelas linhas. Nem é nossa pretensão aqui. O nosso compromisso é tão somente levar ao conhecimento aos que ignoram os fatos ou lembrar àqueles que (des)pretensiosamente esquecem de como foi construída, sedimentado o nosso tecido social e político.
              Até breve!

Um comentário:

Marco disse...

Histórias como essa ajudam a entender o passado e a valorizar a memória da nossa cidade.