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terça-feira, 11 de agosto de 2026

CAXIAS, MULHER DE FERIDAS E MEMÓRIAS

 Por Joseneyde Lua*

Caxias era uma mulher

quando a guerra chegou.


Tinha o rio nos cabelos,

a poeira nos pés

e os olhos acostumados

a procurar esperança

no horizonte do sertão.


Mas naquele tempo,

o horizonte trazia

homens armados.


Vinham do mato,

das estradas,

das fazendas,

da fome,

da revolta.


Vinham trazendo consigo

aquilo que os poderosos

não quiseram ouvir:


o grito dos esquecidos.


Caxias viu.


Viu o medo

fechar as portas.

Viu mães

esconderem os filhos.

Viu homens correrem

sem saber

se corriam da morte

ou em direção a ela.


Viu a pólvora

subir ao céu

e escurecer o dia.


E quando o primeiro tiro

rasgou o silêncio,

Caxias estremeceu.


Não era apenas

uma batalha.


Era o sertão

cobrando

uma dívida antiga.


Era a miséria

batendo às portas

do poder.


Era a história,

cansada de ser contada

somente

pela boca dos vencedores.


Caxias chorou.


Chorou pelos que tombaram

sem deixar retrato,

pelos que morreram

sem que seus nomes

chegassem aos livros,

pelos que foram chamados

de rebeldes

quando talvez fossem apenas

homens cansados

de perder.


Chorou porque toda guerra

tem seus mortos,


mas nem todo morto

tem quem conte

sua história.


E a cidade

guardou tudo.


Guardou o eco

dos cavalos.

O cheiro

da pólvora.

O medo

nas janelas.

A poeira

levantada pelas tropas.

O silêncio

depois do combate.


Guardou até aquilo

que ninguém quis guardar.


Os vencidos.

Os esquecidos.

Os que a História,

por muito tempo,

aprendeu a chamar

apenas pelo nome

da revolta.


Balaiada.


Como se uma palavra bastasse

para explicar

a fome,

a violência,

a desigualdade,

a esperança

e o desespero

de um povo.


Não bastava.

Nunca bastou.


Porque Caxias sabia.


Sabia que por trás

de cada homem armado

havia uma história.


Por trás de cada fuga,

havia uma família.


Por trás de cada corpo caído,

havia uma vida.


E por trás de cada silêncio,

havia alguém

tentando sobreviver.


O tempo passou.


As armas se calaram.

A poeira baixou.

Os mortos foram enterrados.


Mas a cidade

continuou de pé.


Mais velha.

Mais ferida.

Mais silenciosa.


E talvez ninguém perceba,

quando atravessa suas ruas,

que pisa sobre uma memória

que ainda pulsa.


Porque Caxias

não esqueceu.


Ela apenas aprendeu

a carregar suas dores

sem deixar de florescer.


Hoje, quando o vento

atravessa suas ruas

e o Itapecuru

segue seu caminho,

parece que a cidade escuta

as vozes daquele tempo.


E talvez diga, baixinho:


“Eu vi.”


Eu vi a guerra.

Eu vi a fome.

Eu vi os homens tombarem.

Eu vi o poder vencer.


Mas também vi

a coragem de quem não tinha nada

além da própria voz.


Por isso,

não me perguntem apenas

quem venceu a Balaiada.


Perguntem quem sofreu.

Perguntem quem foi esquecido.

Perguntem quem teve

sua história apagada.


Porque uma cidade

não é feita apenas

das pedras que permanecem.


É feita também

das lágrimas

que a terra bebeu.


E Caxias,

essa mulher antiga,

ainda carrega no peito

o rumor daquela guerra.


Não como orgulho

da violência.

Não como celebração

da morte.


Mas como memória.

Como cicatriz.

Como advertência.


Porque há guerras

que terminam

quando cessam os tiros.


E há outras

que continuam

enquanto houver

injustiça,

esquecimento

e silêncio.


Caxias viu a Balaiada.


E talvez seja por isso

que, até hoje,


quando a noite cai

sobre a cidade,

há uma parte do seu silêncio

que parece dizer:


“Não esqueçam.


Aqui, um dia,

a história sangrou.”

Joseneyde Lua, intelectual caxiense.

_________

*Joseneyde Castelo Branco Ferreira é professora, pesquisadora e ativista cultural, natural de Caxias. (Vide https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/08/goncalves-dias-203-anos-de-uma-voz-que.html)

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