Por Joseneyde Lua*
Caxias era uma mulher
quando a guerra chegou.
Tinha o rio nos cabelos,
a poeira nos pés
e os olhos acostumados
a procurar esperança
no horizonte do sertão.
Mas naquele tempo,
o horizonte trazia
homens armados.
Vinham do mato,
das estradas,
das fazendas,
da fome,
da revolta.
Vinham trazendo consigo
aquilo que os poderosos
não quiseram ouvir:
o grito dos esquecidos.
Caxias viu.
Viu o medo
fechar as portas.
Viu mães
esconderem os filhos.
Viu homens correrem
sem saber
se corriam da morte
ou em direção a ela.
Viu a pólvora
subir ao céu
e escurecer o dia.
E quando o primeiro tiro
rasgou o silêncio,
Caxias estremeceu.
Não era apenas
uma batalha.
Era o sertão
cobrando
uma dívida antiga.
Era a miséria
batendo às portas
do poder.
Era a história,
cansada de ser contada
somente
pela boca dos vencedores.
Caxias chorou.
Chorou pelos que tombaram
sem deixar retrato,
pelos que morreram
sem que seus nomes
chegassem aos livros,
pelos que foram chamados
de rebeldes
quando talvez fossem apenas
homens cansados
de perder.
Chorou porque toda guerra
tem seus mortos,
mas nem todo morto
tem quem conte
sua história.
E a cidade
guardou tudo.
Guardou o eco
dos cavalos.
O cheiro
da pólvora.
O medo
nas janelas.
A poeira
levantada pelas tropas.
O silêncio
depois do combate.
Guardou até aquilo
que ninguém quis guardar.
Os vencidos.
Os esquecidos.
Os que a História,
por muito tempo,
aprendeu a chamar
apenas pelo nome
da revolta.
Balaiada.
Como se uma palavra bastasse
para explicar
a fome,
a violência,
a desigualdade,
a esperança
e o desespero
de um povo.
Não bastava.
Nunca bastou.
Porque Caxias sabia.
Sabia que por trás
de cada homem armado
havia uma história.
Por trás de cada fuga,
havia uma família.
Por trás de cada corpo caído,
havia uma vida.
E por trás de cada silêncio,
havia alguém
tentando sobreviver.
O tempo passou.
As armas se calaram.
A poeira baixou.
Os mortos foram enterrados.
Mas a cidade
continuou de pé.
Mais velha.
Mais ferida.
Mais silenciosa.
E talvez ninguém perceba,
quando atravessa suas ruas,
que pisa sobre uma memória
que ainda pulsa.
Porque Caxias
não esqueceu.
Ela apenas aprendeu
a carregar suas dores
sem deixar de florescer.
Hoje, quando o vento
atravessa suas ruas
e o Itapecuru
segue seu caminho,
parece que a cidade escuta
as vozes daquele tempo.
E talvez diga, baixinho:
“Eu vi.”
Eu vi a guerra.
Eu vi a fome.
Eu vi os homens tombarem.
Eu vi o poder vencer.
Mas também vi
a coragem de quem não tinha nada
além da própria voz.
Por isso,
não me perguntem apenas
quem venceu a Balaiada.
Perguntem quem sofreu.
Perguntem quem foi esquecido.
Perguntem quem teve
sua história apagada.
Porque uma cidade
não é feita apenas
das pedras que permanecem.
É feita também
das lágrimas
que a terra bebeu.
E Caxias,
essa mulher antiga,
ainda carrega no peito
o rumor daquela guerra.
Não como orgulho
da violência.
Não como celebração
da morte.
Mas como memória.
Como cicatriz.
Como advertência.
Porque há guerras
que terminam
quando cessam os tiros.
E há outras
que continuam
enquanto houver
injustiça,
esquecimento
e silêncio.
Caxias viu a Balaiada.
E talvez seja por isso
que, até hoje,
quando a noite cai
sobre a cidade,
há uma parte do seu silêncio
que parece dizer:
“Não esqueçam.
Aqui, um dia,
a história sangrou.”
Joseneyde Lua, intelectual caxiense.
_________
*Joseneyde Castelo Branco Ferreira é professora, pesquisadora e ativista cultural, natural de Caxias. (Vide https://ecosdetuntum.blogspot.com/2026/08/goncalves-dias-203-anos-de-uma-voz-que.html)
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