Por Joseneyde Castelo Branco Ferreira*
| Antônio Gonçalves Dias |
Há nascimentos que pertencem a uma família. Outros pertencem a uma cidade. E há aqueles que, com o tempo, passam a pertencer a uma nação.
Há 203 anos, em 10 de agosto de 1823, nascia Antônio Gonçalves Dias.
Nascia em terras de Caxias, num Maranhão ainda atravessado pelas tensões da Independência. O Brasil já havia proclamado sua separação de Portugal, mas a ruptura não se fez de maneira uniforme. No Maranhão, a resistência à nova ordem prolongava os conflitos e colocava a região diante de um tempo de incertezas, disputas e enfrentamentos.
Foi nesse mundo em transformação que nasceu o filho de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português, e de Vicência Ferreira, mulher maranhense mestiça. Sua origem já carregava, portanto, algumas das contradições que atravessavam o próprio Brasil oitocentista: o português e o mestiço, a Europa e o Maranhão, a tradição colonial e uma nação que começava a se inventar.
Depois, a vida o levaria para longe.
Seu pai casou-se com Adelaide Ramos de Almeida, sua madrasta, que teria papel importante em sua formação e em sua partida para Portugal. Gonçalves Dias atravessaria o Atlântico, estudaria em Coimbra e entraria em contato com as correntes intelectuais e literárias que movimentavam a Europa. Mas, curiosamente, seria a distância de sua terra que ajudaria a fazer nascer uma das imagens mais poderosas do Brasil.
Longe do Maranhão, escreveu a “Canção do Exílio”.
E talvez esteja aí uma das grandes ironias da literatura: foi preciso afastar-se para que o poeta pudesse transformar a terra natal em palavra.
O Brasil de Gonçalves Dias não aparece apenas como território. Ele aparece como lembrança, natureza, saudade, identidade. E aparece também pela presença indígena, que ocupa lugar fundamental em sua obra, sobretudo em “I-Juca-Pirama” e nos fragmentos de “Os Timbiras”.
Mas é preciso olhar para Gonçalves Dias para além das páginas que decoramos na escola.
Ele foi um homem do século XIX tentando compreender o Brasil que nascia diante de seus olhos. Sua poesia participou da construção de uma ideia de nacionalidade. Sua escrita procurou dar forma literária a uma terra que ainda buscava reconhecer a própria face.
E talvez seja justamente por isso que Caxias não possa tratar Gonçalves Dias apenas como um nome de praça, de escola, de rua ou de monumento.
Ele é uma pergunta que a cidade continua fazendo a si mesma:
o que significa ter nascido aqui um poeta que ajudou o Brasil a dizer quem era?
Caxias foi o ponto de partida.
A poesia foi o caminho.
E a palavra fez o restante.
Hoje, quando se completam 203 anos de seu nascimento, não celebramos apenas a memória de um poeta caxiense. Celebramos a permanência de uma voz que atravessou o tempo porque conseguiu transformar a experiência particular de sua terra em uma linguagem capaz de alcançar o país inteiro.
Gonçalves Dias nasceu em Caxias, mas sua poesia não ficou em Caxias.
Saiu daqui.
Atravessou o Atlântico.
Voltou ao Brasil.
E continua atravessando gerações.
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*Joseneyde Castelo Branco Ferreira é professora, pesquisadora e ativista cultural, natural de Caxias. Licenciada em História pela Universidade Estadual do Maranhão e especialista em História do Brasil, atua na educação pública desde 2011.
É membro da Academia Caxiense de Letras, ocupando a cadeira nº 12, cujo patrono é Clóvis Beviláqua Vidigal. Integra a ASLEAMA desde 2012, tendo como patrono o historiador César Marques, e atualmente exerce o cargo de vice-presidente.
Preside o Instituto Poeta Carvalho Júnior e coordena o Sarau “Na Pele da Palavra”. Sua trajetória é marcada pelo compromisso com a valorização da cultura, da literatura e da memória histórica caxiense.
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