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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O QUE É MAIS IMPORTANTE: O FATO OU A REPRESENTAÇÃO SOBRE O FATO?

Por Jean Carlos Gonçalves.

Vejamos!

Apesar do fato histórico não depender de registro ou documentação para acontecer, com o tempo sem qualquer vestígio pode cair no esquecimento coletivo ou ganhar interpretações e narrativas equivocadas, distorcidas causando prejuízos às futuras gerações.

Nessa perspectiva, observe que documentar os fatos é essencial para garantir uma reconstituição dos acontecimentos de forma mais assertiva. Do contrário, não documentar resulta em esquecer, distorcer, repetir equívocos e até perder direitos.

 Assim sendo, a sociedade se torna passível de:

1.Perda de memória e identidade – Sem documentos a história vira “fofoca”, ficaremos refém de diversas versões, o que compromete a construção de uma identidade coletiva e, portanto, o sentimento de pertencimento;

2.Repetição de erros –   Quem não conhece a história está fadado a repeti-la”. Com registos as guerras, crises econômicas, golpes, injustiças, etc., continuam ocorrendo. Imagem sem os registros? Por outro lado, a humanidades conseguiu superar muitas dificuldades e evoluiu materialmente e institucionalmente, basta observar os avanços tecnológicos e a ampliação de direitos de alguns segmentos sociais historicamente marginalizados;

3.Manipulação e apagamento – Quando não existe um documento, quem está no poder pode reescrever a versão que quiser. Ditaduras, revisionismos e narrativas falsas crescem nesse vazio. Sem registro fica fácil dizer: "isso nunca aconteceu”;

4.Prejuízo jurídico e social – fatos históricos viram prova: direito de terra indígena e quilombola, demarcação de fronteiras, aposentadoria por tempo de serviço, memória de vítimas. Sem documentos essas lutas perdem força na justiça e na política;

5.Perda de aprendizado – ciência, medicina, engenharia, arte... tudo avança porque alguém documentou o que deu certo e o que deu errado. Sem isso, cada geração recomeça ou recomeçaria do zero;

6.Apagamento de pessoas comuns – Se só se registra os feitos dos “grandes homens”, o trabalhador, o Professor Francisco Bonfim, a parteira Mariquinha Branco, a anônima funcionária da Farmácia de Dona Rita Coelho ou de Dona Inocência, por exemplo, saiam da vida.

A ausência de registro ou dificuldade de acesso aos parcos existentes sobre o município de Tuntum-MA é uma de nossas mazelas que mais me incomodam. Todos os anos quando se aproxima as festividades religiosas (e profanas) de agosto, das festas cívicas de Independência do Brasil e emancipação política de Tuntum no mês de setembro, assistimos a uma corrida desenfreada por informações históricas e nos faltam fontes confiáveis para a maioria das temáticas específicas pesquisadas. Em alguns casos até existem registros, noutros ficamos reféns da memória oral, que é importante, mas pode ser arriscado, pois as narrativas transmitidas, muitas vezes são carregadas de intencionalidades. Exageros, omissões, meias verdades são recorrentes.

 Infelizmente, os nossos pioneiros desbravadores não eram letrados e/ou não se preocuparam em documentar os fatos idos, vividos desde o início do povoamento. Se o fizeram, estão ocultos ou se perderam com o tempo. Sabe-se que muitos documentos dormem “em berço nada esplêndido” em arquivos de cartórios de registros civis, das igrejas, das paróquias, dioceses. Há aqueles que são devorados pelas traças, submersos em poeira e ácaros, outros, lamentavelmente, foram incinerados ou subtraídos, como as leis dos símbolos do município que não se encontram nem nos anais da Câmara Municipal, nem da Prefeitura.

Por isso, em tempos de avanço das tecnologias da comunicação e da informação não se deve abdicar de realizar os registros sejam escritos, fotográficos, sonoros, audiovisuais, etc., os quais poderão ser os documentos do futuro, fontes para as próximas gerações apreciarem ou organizarem os espaços de memória, como acervos, museus, produzirem livros, documentários, e, assim, não padeçam do que ora nos flagela: a indiferença para com memória coletiva.

Para tal deve-se reconhecer que somente com fontes históricas, com os vestígios do passado, poderemos reconhecer, interpretar do modo mais fidedigno a importância e mensurar os impactos que um fato histórico faz recair sobre a nossa sociedade.


NOTA EDITORIAL: AMANHÃ publicarei um texto para exemplificar concretamente os efeitos negativos resultantes da ausência de documentação histórica em Tuntum-MA.

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